domingo, 12 de maio de 2019

MÃES ARREPENDIDAS – uma outra visão da maternidade


Livro: Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade
Autora: Orna Donath
Ano: 2016
Editora: Civilização Brasileira

Sobre a autora:
Orna Donath é antropóloga, doutora em sociologia e pesquisadora na Ben- GurionUniversity de Negev, em Israel. Seu trabalho concentra na discussão dos direitos reprodutivos das mulheres e em estudos de gênero. Foi presidenta da Hasharon Rape Crisis Center – organização israelense cujo objetivo é combater a violência sexual -, da qual continua ser voluntária. É autora de Making a Choice: BeingChildfree in Israel (sem tradução no Brasil).

Sobre a obra:
O título deste livro é impactante e provocativo e o desenrolar da narrativa segue essa premissa, de nos impactar e prender a atenção a cada fato apresentado e analisado, a cada depoimento apresentado e a cada reflexão colocada. Talvez esse impacto se deva ao assunto tratado, que é muito comum a todas as mulheres e ao mesmo tempo polêmico para muitas de nós: a maternidade.

Depois de um enorme alvoroço causado por um debate na internet intitulado “#regretingmotherhood”, seguido de um artigo escrito pela autora sobre o assunto e publicado na revista Sings. Orna desenvolveu um estudo em Israel com um grupo de mulheres que se dispuseram a falar sobre o arrependimento que sentem em relação à maternidade. Importante ressaltar que Israel é o país com o índice de fertilidade mais elevado do mundo, 3 filhos a cada mulher. Enquanto entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) o índice é de 1,9 (EUA) a 1,4 (Europa). Dados que impressionam e nos levam a questionamentos sobre como se desenvolve a transição para a maternidade e porque surge o arrependimento.

 “Insisti em abordar essa situação guiando-me pelo pressuposto de que nosso campo de visão social é limitado, pois não nos deixa ver nem ouvir algo que existe, mas para o qual ainda não há uma via de expressão.”,diz Orna.

Para apresentar a questão do arrependimento e as conclusões de seu estudo a autora traça uma análise das trajetórias das mulheres-mães, desde os caminhos para a maternidade até os desdobramentos que apresentam ao logo da vida, sobretudo quando a mulher-mãe se torna avó.

“...a maior parte da literatura existente sobre os relatos das mães se concentra nos sentimentos e nas vivências de mães de bebês ou crianças pequenas, ou seja, no período logo após a transição para a maternidade. A relativa escassez de referências às experiências de mães de crianças mais velhas sugere que se dá pouco espaço às narrativas retrospectivas das mães ao longo dos anos.”, conclui a autora.

A maternidade pode ser uma experiência positiva e intensa para as mulheres que desejam vivê-la dentro desse âmbito do “querer ser mãe”. É comum ouvirmos relatos sinceros de sentimentos de realização, alegria e satisfação genuína por parte dessas mulheres. Porém, isso não significa que esse desejo e anseio por tal experiência seja compartilhado por todas as mulheres. É preciso compreender que existem mulheres que querem ser mães e mulheres que não querem, porém, o fato de existir mulheres que não desejam a experiência da maternidade não diminui ou invalida as experiências daquelas que se realizam nessa transição.

Tal experiência deveria ser uma opção, algo que se realiza mediante a uma escolha. No entanto, ao investigarmos os caminhos que levam uma mulher a tornar-se mãe, constatamos que nem sempre foi por que quis ou escolheu. Este é mais um fato que precisamos reconhecer, boa parte das mulheres que transitam para a maternidade o fazem mediante a uma decisão passiva, ou seja, fazem por falta de opção para escolher outro caminho ou por algum tipo de pressão, seja da família, da religião que segue ou da sociedade como um todo.  Ao mesmo tempo as mulheres que não desejam a maternidade, e têm o privilégio de fazer essa escolha, são criticadas e julgadas pelos mesmos núcleos.

Vivemos numa sociedade ancorada nos valores burgueses de família e propriedade privada, nesse contexto ser mãe é mais um papel a ser cumprido pela mulher. Ancorados em discursos rasos sobre a naturalidade da maternidade, da função biológica da mulher, da sobrevivência da espécie e da promessa de completude do ser feminino, a sociedade paternalista/capitalista em que vivemos praticamente obriga, direta ou indiretamente, mulheres a parir.

Para muitas mulheres ser mãe não é um desejo íntimo, mas dependendo do quão inseridas estão nesses valores, acabam se tornando mães simplesmente deixando-se levar por esse fluxo de pressão e opressão. Uma vez mãe, eternamente mãe. A maternidade é uma transição irreversível. A vida de uma mulher muda completamente para sempre, como uma marca, uma cicatriz que fica eternamente. Uma mulher que transita para a maternidade, morre como mãe e não como mulher.

Dentre essas mulheres que transitam maternidade por não ter meios ou condições de questionar ou se opor a pressão que sofrem para que se tornem mães, temos aquelas que se arrependem. Algumas tem coragem de admitir e enfrentam os dilemas e conflitos desse estado consciência. Outras, carregarão em silêncio mais esse fardo, o de ter que viver uma vida que não desejou e não poder dizer nada sobre isso. Afinal, o arrependimento é uma postura emocional cuja compreensão e aceitação é relativa e equivocada. Em certos contextos como no jurídico, por exemplo, espera-se que os réus se arrependam de seus crimes, já na maternidade o arrependimento é inconcebível aos olhos da sociedade que impõe a maternidade como uma obrigação da mulher e até mesmo a culpabiliza por essa transição em certas circunstâncias.

Um exemplo disso é constatado quando tratamos da responsabilidade da contracepção, que recai sempre sobre a mulher. Ignora-se a falta de informação sobre métodos contraceptivos - uma vez que educação sexual é um  tabu gigantesco em pleno século XXI ; as possíveis falhas desses métodos; a dificuldade de acesso a eles por parte de mulheres de baixa renda e que não possuem assistência médica nem para orientação, tampouco para acompanhamento; e o total descompromisso da maior parte dos homens em relação a tudo isso. O discurso moralista que ecoa e impera em nossa sociedade é “engravidou porque quis”, no entanto, podemos ver pelos exemplos citados que isso não é verdade. Muitas mulheres engravidam porque são condicionadas a fazê-lo.

Analisando todos esses aspectos que envolvem o destino das mulheres e o que a sociedade reserva para elas, a antropóloga Orna Donath desenvolve esse estudo profundo sobre um fato que até então tem sido obscurecido nas discussões sobre a maternidade, inclusive no movimento feminista, o arrependimento.  O livro “Mães Arrependidas – Uma outra visão da maternidade” traz ao centro das discussões uma realidade pouco reconhecida, a existência de mães que se arrependeram de terem se tornado mães. Através deste estudo realizado em Israel, a autora aponta para a diferença entre o desejo de ser mãe e o fato de ser mãe. E a incômoda existência do arrependimento.

Esse arrependimento não é um fenômeno individual que poucas mulheres manifestam devido a sua incapacidade de se adaptar a maternidade, trata-se de um alerta a toda a sociedade que se torna a grande culpada por esse sofrimento, afinal, a sociedade como um todo, empurra e persuade as mulheres à maternidade,mesmo que sem condições emocionais ou sociais de fazê-lo, sem oferecer políticas de reprodução que as permitam vivenciar a maternidade em sua plenitude.
“Se pensarmos nas emoções como maneira de se manifestar contra sistemas de poder, então o arrependimento é um alarme que deveria não apenas instar as sociedades a facilitarem as coisas para as mães, mas nos convidar a repensar as políticas de reprodução e nossas ideias sobre a obrigação de ser mãe.”, enfatiza a antropóloga.

Esse fato não pode ser ignorado, tampouco ocultado ou empobrecido por julgamentos moralistas. Existem mulheres que sofrem a maternidade e ao propor um estudo sério e comprometido em relação ao assunto, Orna dá voz a essas mulheres muitas vezes silenciadas. Seu livro é estruturado em capítulos organizados de forma a conduzir o leitor gradativamente a uma reflexão profunda sobre o tema. Ampliando as possibilidades de escuta dessas vozes que gritam o arrependimento da maternidade. Ou melhor, pelo reconhecimento e compreensão dessa emoção.Compreender o arrependimento como uma postura emocional legítima, é uma das propostas do livro. A outra, é de que a maternidade deixe de ser vista como um papel a ser cumprido obrigatoriamente pelas mulheres e passe a ser compreendida como uma relação entre a mulher-mãe enquanto sujeito de sua própria história, que reflete, analisa e avalia constantemente a relação que estabelece com o outro ser a quem chama de filho. Vista como uma relação, a maternidade tira um certo peso dessa experiência, o peso da dependência tanto da mãe quanto dos filhos.
Permitindo um desenvolvimento mais autêntico, pleno e furtivo para ambos, livre da ditadura dos padrões estabelecidos pela sociedade que assim como determina o papel de mãe, também determina o papel de filho.

O estudo apresentado no livro, juntamente com os trechos dos relatos das mulheres que participaram dele, compõe um tratado que convida a todos a uma reflexão profunda sobre a maternidade e nos instiga a pensar em possíveis caminhos para que ela não seja instrumento de opressão sobre as mulheres, mas apenas um caminho possível, nunca obrigatório. Talvez reconhecer a legitimidade do arrependimento, possa ser um início algum avanço nessa questão tão pungente para nós mulheres, que em algum momento da vida nos deparamos com o dilema:ser ou não ser mãe?

O livro divide-se em seis capítulos. A seguir um breve resumo dos assuntos abordados em cada um deles.

1- Os caminhos para a maternidade: O que a sociedade dita versus as experiências das mulheres.

Neste capítulo, são apresentados os diversos caminhos que levam as mulheres à maternidade. Os conflitos entre a maternidade naturalizada e a maternidade realizada, contrapondo o “caminho natural” à “liberdade de escolha”. Através dos relatos das mulheres que participaram do estudo,a autora aponta para o fato de que muitas mulheres não desejam ser mães e apenas se deixam levar pela corrente. Os desejos e motivos para transitar para maternidade são diversos e muitas vezes ocultos, o que leva mulheres a consentirem ser mães, porém sem vontade nenhuma, o que ela chama de decisão passiva. Ao fazer uma análise mais concreta e com base nas razões das mulheres que participaram do estudo, dando eco a suas vozes, a autora também desmistifica a ideal neoliberal/capitalista do poder de escolha.

2- As exigências da maternidade: Aparência, comportamento e sentimentos que as mães deveriam ter.

Os relatos das mulheres que participaram do estudo nos dão uma pequena amostra do quão pesado o fardo da maternidade pode ser, como as cobranças e julgamentos para que sejam boas mães e para que cumpram determinado papel padronizado e imposto pela sociedade paternalista/machista em que vivemos. São apresentados também os sentimentos ambíguos que a maternidade pode gerar, tanto como amar os filhos, detestar os filhos ou apenas detestar a maternidade. A partir dessas constatações a autora aprofunda a distinção entre arrependimento e sentimentos de ambivalência.


3- Mães arrependidas: Se eu pudesse não ser mãe de ninguém.

O arrependimento está ligado à nossa noção de tempo e memória, posto como uma postura emocional que nos coloca a olhar para traz, rever, reavaliar, reconsiderar. Comportamento desvalorizado na sociedade contemporânea onde o pensamento neoliberal considera que progresso é um caminho em linha reta, sempre olhando para frente e nunca para trás. Neste contexto, o arrependimento da maternidade é considerado em nossa sociedade como uma postura emocional ilícita para as mães que tem filhos e ao mesmo tempo é utilizado como condenação prévia para aquelas que não desejam ser mães.
Ao fazer uma análise de suas próprias trajetórias, algumas mulheres se arrependem e consideram um erro terem engravidado. Porém arrepender-se da maternidade, não significa arrepender-se dos filhos. Muitas mulheres vão concordar com a seguinte afirmação “amo meus filhos e detesto a maternidade”.  Neste capitulo são apresentados as vantagens e desvantagens da maternidade e como as mães que se arrependem lidam com essas questões.

4- Experiências de maternidade e práticas de arrependimento: Viver com um sentimento ilícito. 

A maternidade traz uma grande mudança na vida de uma mulher, uma mudança irreversível. As transformações que a maternidade pode trazer, tanto podem estar no campo emocional da satisfação e da realização, assim como pode estar no campo da frustração e do arrependimento. A maternidade é irreversível e torna-se traumática a medida que as mães vão tomando consciência do quanto suas vidas não lhes pertencem mais. A prometida sensação de completude da maternidade é ocupada por uma sensação infinita de comprometimento e responsabilidade que se estenderá mesmo depois dos filhos estarem crescidos. Neste capítulo, a autora expõe as diversas práticas que se originam do conflito entre ser mãe e desejar não ser, como o suposto conflito entre o desejo de não ter filhos e o amor pelos filhos reais.

5- Quem é você, mãe? As mães arrependidas entre o silêncio e o discurso.

A consciência do fardo da maternidade traz vários dilemas e desafios. Dentre eles, a necessidade de compartilhar seus sentimentos e o conflito com sua voz silenciada pela sociedade que não deseja ouvir seu arrependimento, suas confusões, suas angústias. A responsabilidade para com a saúde emocional dos filhos e o medo de que se sintam indesejados, se confronta com a vontade de ser transparente e honesta com os próprios sentimentos. Neste capitulo é apresentado uma investigação mais profunda da consciência desperta das mães arrependidas. E como lidam na prática com esse despertar.


6 - Mães- sujeitos: Investigar o estado das mães por meio do arrependimento.

A investigação mais profunda do arrependimento da maternidade aponta para dois significados importantes, que devem ser considerados antes de criticar ou condená-lo. Primeiro, a satisfação com a maternidade não tem a ver somente com as boas condições materiais para vivê-la. Mulheres que vem de classes economicamente abastadas, compartilham dos mesmos conflitos e sentimentos que mulheres de classes de baixa renda.  As conclusões do estudo também questionam as premissas de que o arrependimento surge quando as mulheres não conseguem conciliar a carreira profissional com a maternidade. Este capítulo também sugere que para uma compreensão mais ampla da maternidade, precisamos deixar de vê-la como um papel a ser cumprido pela mulher e começar a compreendê-la como uma relação na qual as mães sejam sujeitos que examinam, pensam, avaliam e buscam equilíbrios.

Bem, o que mais posso dizer? Amei este livro assim como transitar pelas reflexões que ele traz.
Espero que gostem também, boa leitura!

Se já leu, deixe seu comentário, bora somar ideia. Abraço.

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terça-feira, 30 de abril de 2019

O CONTO DA AIA , UMA DISTOPIA POSSÍVEL?




UMA POSSÍVEL LEITURA DE UMA  DISTOPIA ASSUSTADORA

                                       “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos políticos das mulheres sejam questionados.” 
(Simone de Beauvoir)   
                                           

Quando ouvi sobre esta história pela primeira vez, não dei muita importância. Achei que seria mais uma dessas séries da moda que fazem tremendo sucesso entre adolescentes devido a roteiros apelativos e cenas impactantes.  Ao ser informada de que se tratava de uma série baseada em um livro, fui investigar e descobri o incrível trabalho de Margaret Atwood. Logo, interessei-me em ler o livro. Não assisti a série ainda e talvez demore a fazê-lo, porque quero continuar apreciando as imagens que elaborei durante a leitura.  Portanto a análise que apresento aqui é baseada somente no livro.


SINOPSE:
O Conto da Aia (The Handmaid's Tale)  é um romance distópico da autora canadense Margaret Atwood, publicado originalmente em 1985. 
A história se passa na República de Gilead, um estado totalitário que se assemelha a uma teocracia que teria derrubado os Estados Unidos. 
O romance centra-se na jornada da serva Offred. Seu nome deriva da forma possessiva "of Fred" (de Fred em Português), as criadas são proibidas de usar seus nomes de nascimento e devem fazer eco ao homem, ou mestre, a quem servem. Offred tem 33 anos e é apenas uma Aia na casa de um enigmático comandante do alto escalão do exército e de sua Esposa. Nesse estado totalitário só existe uma função real para as Aias: procriar. Em um mundo devastado pela radiação e pelos efeitos de uma guerra em andamento, a maioria das mulheres são inférteis. Com a queda da natalidade, Offred foi separada de sua família e hoje é propriedade do novo governo. Ela precisa cumprir sua função, caso contrário se tornará uma das Não mulheres - aquelas que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas, feministas, condenadas a trabalhos forçados nas colônias, lugares onde o nível de radiação é fatal.  Em meio a opressão de um estado teocrático e totalitário, Offred se agarra à esperança de saber o paradeiro da filha e do marido. Mesmo colocando a vida em risco, resiste tentando tirar proveito daqueles que controlam sua vida.

Minha leitura

Durante as primeiras páginas, talvez seja inevitável se lembrar do livro de George Orwell, 1984, a monotonia da rotina da personagem que aos poucos nos revela a prisão em que sobrevive a medida que nos apresenta a estrutura da sociedade distópica na qual está inserida.  A princípio achei a leitura cansativa, monótona e tediosa. Comecei a pensar que o livro não estava dando conta das minhas expectativas. As primeiras páginas são sofríveis. Em seguida pensei, será que não seria exatamente isso que a autora queria que sentíssemos?  Talvez tenha sido intencional, fazer com que o leitor sentisse todo o tédio da vida de Offred. Afinal, a rotina diária de um prisioneiro, um escravo, um servo ou de qualquer pessoa privada de sua liberdade, deve ser bem monótona. O tédio da leitura se desfaz quando Offred se lembra dos momentos antes do novo regime, da sua vida antes de ser tornar uma Aia. Assim, pelas pistas deixadas por suas memórias vamos elencando os fatos que antecederam aquele momento e compreendendo como se deu o golpe (chamado de revolução teocrática) que instalou na República de Gilead, um regime autoritário estruturado por um discurso religioso extremista. 

O campo de visão de Offred durante o dia é limitado devido à  pela minúscula janela de seu quarto e também à touca com abas que é obrigada a usar,  não se pode olhar para os lados tampouco falar sem ser solicitada. A palavra para elas é proibida. Tal limitação de visão, espaço e liberdade faz com que a personagem foque nos detalhes do pouco que vê. Assim seu relato extremamente descritivo nos revela uma visão muito particular do lugar, das pessoas e do ambiente em que vive. Curioso notar como ela se atenta aos detalhes e ressalta constantemente todas as cores , boa parte delas em tons pastel, que contrastam com as poucas cores fortes como  o vermelho de sua vestimenta e a cor dos olhos da Esposa do Comandante.

“Eu me levanto da cadeira, avanço meus pés para a luz do sol, até os sapatos vermelhos, sem salto para poupar a coluna e não para dançar. As luvas vermelhas estão sobre a cama. Pego-as, enfio-as em minhas mãos, dedo por dedo. Tudo, exceto a touca de grandes abas ao redor de minha cabeça, é vermelho: da cor do sangue que nos define.”

“Mas não os olhos, que eram do tom azul frio e hostil de um céu no meio do verão, sob a luz intensa do sol, uma azul que isola e exclui você.”

“Ela está com seu vestido habitual de Martha, que é verde desbotado como um traje cirúrgico dos tempos anteriores.” 

“...era ela , em seu longo traje cerimonial azul-claro, inconfundível.”

 “Montanhas arborizadas, vistas do alto, as árvores de um amarelo doentio, eu gostaria que ela ajustasse sua cor.”

Seria essa paleta de cores desbotadas, uma referência aos tons em pastel, geralmente usados em decoração doméstica e associados à pressuposta delicadeza e suavidade do suposto universo feminino?  E o vermelho cor de "sangue que nos define" seria uma referência ao pensamento primário estritamente biológico de definir a mulher apenas pelo fato de ter um útero? 
Os fenômenos naturais são usados para expressar seus sentimentos ou sensações. Assim como compara traços humanos com características de animais diversos. A natureza em seu discurso é utilizada para descrever o mundo que vê e sente. 

“O rosto dele é comprido e triste, como de uma ovelha, mas com os olhos grandes e redondos de um cachorro, um spaniel não um terrier.”

“O tempo não parou. Ele correu sobre mim como água, me arrastou e me apagou como água, como se eu nada mais fosse que uma mulher de areia, deixada por uma criança descuidada perto demais da água do mar. Fui obliterada por ela.”

Enquanto no discurso do Comandante e das Tias a natureza é utilizada para expressar a naturalização da opressão colocada. 

“Aqueles anos foram apenas uma anomalia, historicamente falando, disse o Comandante, apenas uma feliz casualidade. Tudo o que fizemos foi pôr as coisas de volta, de acordo com a norma da Natureza.”

“- Significa que não se pode trapacear com a Natureza – diz ele – A Natureza exige variedade para os homens. É lógico, razoável, faz parte da estratégia de procriação. É o plano da Natureza.” (Comandante explicando o porquê da existência do Clube onde era permitido a prostituição).

A narrativa de Offred segue fazendo esse paralelo entre a natureza, o natural e o naturalizado e nos instiga a refletir a respeito.
A sua noção e marcação de tempo também se dá através dos ciclos naturais, noite, dia, primavera verão. É interessante notar como a noite é o momento mais importante de seu dia.

“A noite é minha, meu próprio tempo, para eu fazer o que quiser, desde que fique quieta...”

Inclusive os principais fatos que vão mudar completamente a sua trajetória acontecem à noite, devido a sua inquietude e inconformidade com a situação em que se encontra. Não é a toa que dos quinze episódios de sua história, sete têm o título de “Noite”. É como se durante o dia ficasse reservado para a monotonia da vida de serva e a noite é onde ela na medida que liberta suas inquietações, resgata o pouco de humanidade que ainda lhe resta. Quando cai a noite ela é livre para pensar e agir.

A maneira como Margaret Atwood apresenta a história de Offred é interessante e dá um tom muito especial ao seu romance, uma sensação de que o que está sendo contado ali realmente aconteceu.  Toda a narrativa está de forma não linear, intercalando as memórias de seu tempo passado, seu tempo de transição para a função de Aia no Centro Vermelho e com seu tempo presente na casa do comandante a quem serve. Fazendo com que o leitor ao tentar montar o quebra-cabeça da história e juntar os fragmentos dos devaneios de Offred, fique cada vez mais instigado a continuar a leitura.  Afinal, somos tomados pelo desejo de compreender como a sociedade de Gilead chegou aquele ponto e se haverá algum final feliz para a personagem, que lamenta o tempo todo a perda da filha e do marido, e a medida que resiste ao sistema totalitário ao qual foi obrigada a sobreviver, vai nutrindo a esperança de encontra-los algum dia. 

Apesar de Offred questionar esse sistema o tempo todo, ela tenta primeiramente sobreviver antes de pensar em se libertar de tudo aquilo, ou seja, torna-se passiva na maior parte da história e o pouco que se arrisca é para tentar se libertar e não necessariamente enfrentar o sistema diretamente. Por mais que nutra ódio pelos seus opressores, Offred não tem a mesma coragem e rebeldia de Moria sua amiga dos tempos antigos ao regime. Offred que se torna a princípio conivente com o sistema, assume todos os papéis que lhe são impostos inclusive o de “subversiva”, a medida que sede aos caprichos do comandante ou às manipulações de sua Esposa. Tenta tirar vantagem da situação para que possa ter alguma migalha a mais de chance que a aproxime de sua filha. Offred não chega a ser submissa, existe revolta dentro dela, mas como serva precisa cumprir seus deveres para não morrer, tampouco é uma rebelde como Moria. 
Acredito que seu gesto revolucionário tenha sido fugir e conseguir de algum modo deixar sua história registrada. Afinal, uma vez que a leitura e palavra eram proibidas às mulheres, até placas foram substituídas por desenhos e somente os homens tinha acesso aos livros, ela consegue se apropriar novamente do seu direito a palavra e registrar sua história. Assim gerações futuras poderiam ter uma ideia do que seria uma Aia e todas as opressões do regime totalitário a que todos estavam expostos. 

E por que essa distopia nos soa tão assustadoramente possível?

Durante toda a narrativa do conto da Aia, podemos identificar situações, valores muito semelhantes ao que temos hoje em nossa sociedade. À medida que nos conta uma história fictícia e distópica, a autora denuncia direta ou indiretamente (proposital ou não) diversas formas de opressão sofridas pelas mulheres em diversas épocas da história humana, até em nos nossos dias. Acho que a genialidade da autora foi justamente abusar da verossimilhança, pois leva a pensar e discutir questões importantes da nossa sociedade, sobretudo no que tange as mulheres. Questões do atual momento, que muitas vezes tentamos fugir e não queremos encarar. A realidade incomoda, é desconfortável, quanto mais elevamos nossa consciência para a situação real em que nos encontramos, maior é a sensação de desconforto e de incômodo. Evitamos muitas vezes a realidade e buscamos conforto na ficção. E é aqui que está a astúcia da autora. Ela usa esse recurso milenar de contar história, para provocar dúvidas e questionamentos, para nos fazer pensar justamente nas questões pungentes que evitamos. Através de uma história absurda, denuncia o absurdo da realidade. 

Algumas interpretações apontam que o romance traz uma reflexão sobre liberdade, direitos civis, a fragilidade do mundo tal qual conhecem, futuro e tal. Mas penso que falta uma reflexão muito importante nesta lista, e que pra mim é a mais importante: a condição feminina ou a fragilidade da condição feminina.  Analisando o romance, percebemos que para instalação do poder teocrático em Gilead, controlar as mulheres foi fundamental para consolidar este regime totalitário. Foi preciso tirá-las de cena, de suas atuações na sociedade como profissionais, professoras, advogadas, bancárias, etc. e confiná-las ao âmbito doméstico em diversas funções, inclusive como meras parideiras. A submissão foi institucionalizada gradativamente. 

Já aos homens, estes foram controlados com outra estratégia, a sedução pelo poder. A possibilidade de servir a república, receber méritos por isso e ser promovido aos mais altos cargos do exército e do governo, a sensação de estar no controle de alguma coisa só por vestir uma farda -mesmo não estando no controle de coisa alguma e sim sendo controlado por uma patente maior - foi o suficiente.  Incrível como uma história de ficção pode ser tão realista. 

Ao abordar a fragilidade da situação das mulheres, a narrativa torna-se muito real para muitas de nós. Primeiro retiram-lhes o emprego, trabalho remunerado, confiscam o dinheiro na conta do banco e com isso destituem-nas de sua independência econômica.   Para usar o próprio dinheiro, era preciso pedir a autorização do marido. Oras, essa é uma  estratégia do patriarcado desde sempre. 

Em seguida, elas são divididas em dois tipos principais, férteis (úteis) ou inférteis (inúteis), reduzindo o indivíduo feminino a mera condição de reprodutora da espécie. Depois vem as categorias: Esposas, Tias, Marthas, Econoesposas, as Não mulheres, sendo que as Esposas (mulheres dos oficiais de alta patente) estão no topo da hierarquia entre as mulheres. Essas mulheres não são pessoas, elas são papéis a serem representados. 
Com exceção das Econoesposas  (mulheres dos homens de baixo escalão do governo) que fazem todas as funções - é interessante a questão da sociedade dividida em classes muito bem representada aqui - todas têm uma função, uniformes e padrões de comportamento, uma vida como um script a ser cumprido. 
Em nossa sociedade não é diferente, o patriarcado reservou um lugar para nós em seu sistema, a esposa, a amante, a puta, a mãe, a solteirona etc. A objetificação da mulher faz com que as mulheres sejam o que os homens dizem que elas são.

A maternidade como instrumento de poder

A maternidade é outro ponto da história abordado de forma genial.  Em Gilead, à medida que o novo regime coloca como alicerce a importância da família nuclear, dentro de um padrão de heteronormatividade patriarcal (já que nesta sociedade a homossexualidade é considerada um crime – Traição por Falsidade de Gênero) e todo o pacote de opressão que ela representa, onde o homem é o provedor e está no topo da hierarquia, para estruturar seu poder precisará de herdeiros. Daí a importância e necessidade das Aias, uma vez que nesta sociedade por motivos diversos, a maioria das mulheres se tornou estéreis. 

A autora usa de uma alegoria, um cenário distópico para denunciar uma das formas mais antigas de dominação da mulher, a escravidão do útero. A fantasia da maternidade ainda hoje é utilizada como instrumento de poder, controle e dominação. A começar pela pressão social que se faz para que uma mulher seja mãe. As que não se submetem a tal imposição, as "childfree",  sofrem preconceito pela sua escolha e assim como as que por algum outro motivo não poder gerar filhos, são consideradas mulheres incompletas (não mulheres). 

Essa definição de mulher como ser primordialmente reprodutor, é muito comum também no discurso religioso. Observamos no totalitarismo teocrático da República de Gilead que não basta a reprodução, é preciso fazer toda a fantasia da maternidade. Quando uma Aia gera uma criança, a Esposa faz o papel da mãe e cumpre toda a encenação que cabe a este papel. A cena do parto evidencia isso, enquanto a Aia está parindo, a Esposa está do outro lado encenando o nascimento de “seu filho” e será paparicada por suas amigas e representará o papel da mãe, ou seja, dentro dessa lógica autoritária que escraviza mulheres na condição de procriadoras, alimentar a fantasia da maternidade é uma estratégia. Não basta nascer uma criança para “salvar” a espécie da extinção, é preciso também encenar e viver a fantasia da maternidade como um todo. 

A maternidade geralmente nos é apresentada de forma fantasiosa, quase surreal onde se costuma ressaltar apenas os aspectos positivos, enquanto os negativos são escondidos, silenciados, velados, descartados. De forma sutil o conto da Aia apresenta uma importante denúncia: a promíscua relação entre estado e religião. E como as mulheres se tornam um alvo fácil, afinal na maior parte do discurso religioso a mulher é sempre colocada como inferior e submissa ao homem e principalmente, fica evidenciado o seu papel de “geradora de vida” e o quão sagrado isso é.  Levando em consideração o poder de persuasão e convencimento que muitas religiões exercem sobre as pessoas, fica fácil de compreender por que muitas mulheres se submetem e aceitam tal papel imposto, às vezes até mesmo contra sua vontade mais íntima. Assim como as Aias, essas mulheres acreditam estar cumprindo seu papel ou sua função divina. 

A Cerimônia

Sobre a Cerimônia e a cena de “reprodução compartilhada”, que choca muitos leitores e leitoras, além de ser um estupro institucionalizado e legitimado pelo estado teocrático de Gilead, a vejo também como uma representação simbólica do adultério masculino instituído em nossa sociedade. Oras, se a intenção era garantir a não extinção da espécie, inseminação artificial resolveria o problema. Porém, mais uma vez o discurso religioso e opressor da República de Gilead usa de seu poder para dominar e não aceita tal proposta da ciência, dando ao marido o privilégio de praticar sexo com outra mulher. E tudo isso sob a benção de Deus. Na distopia de Margaret as Esposas estão submissas à situação e se sujeitam ao papel, mesmo não suportando tal opressão, e sofrem tanto como as Aias. 
Em nossa sociedade patriarcal não costuma ser muito diferente, é fato que o adultério masculino é totalmente aceito, enquanto o feminino contribui para o aumento das taxas de feminícido. Assim como a lógica burguesa de família e propriedade faz com que muitas esposas tolerem diversos tipos de abusos em nome do patrimônio que estão construindo com seus maridos, dentre esses abusos está também a sujeição com o adultério do marido. Muitas mulheres sabem que são traídas mas fingem  que não sabem para não criar conflitos ou para não desfazer o patrimônio, status, nome condição social, adquiridos com o casamento. Ou pior, desmanchar seu “sonho dourado” do "casamento perfeito", se sujeitam, ou talvez seja esse mesmo o padrão dentro desta singular ideia de família. . A lógica burguesa de casamento é muito bem representada neste trecho da história. 

A fragilidade da condição feminina é real

A obra de Margaret Atwood é realmente impressionante. Não apenas pelo seu estilo de escrita, a maneira como a história se desenvolve e instiga a leitura, mas porque de uma maneira sutil ela evidencia em sua narrativa diversos aspectos da natureza humana. Para mim particularmente ficou evidenciado a fragilidade da condição da mulher diante de regimes religiosos autoritários e patriarcais. Como se toda as opressões que nós mulheres sofremos hoje estivessem ali representadas em um cenário diferente, mas com a mesma intensidade. 
Retirar os direitos civis de uma mulher é uma das maiores formas violências, assim como escravizá-la ao âmbito doméstico. 
Infelizmente é muito comum o marido proibir a mulher de trabalhar fora e adquirir independência econômica, proibir de estudar e ter acesso ao conhecimento e se desenvolver intelectualmente, sobrecarregá-la com o trabalho doméstico como se esta fosse sua obrigação somente por ser mulher, obrigar a ter filhos e lhe dar herdeiros mesmo não sendo a maternidade uma vontade da mulher, trair e se achar no direito de fazê-lo por ser homem. Também é comum a punição a que qualquer mulher está sujeita ao tentar enfrentar a opressão que sofre: violência psicológica, violência física e a morte. E também comum toda essa violência ser naturalizada pelo discurso religioso, ou seja, "é a vontade de Deus", " está na Bíblia", etc. E o mais comum (e triste) ainda é que muitas mulheres estão tão subjugadas, fragilizadas e desamparadas, que aceitam toda essa violência e dizem "Amém", pois mesmo reconhecendo a opressão em que está inserida, sua visão de mundo está embasada no discurso religioso e opressor.

É impossível não notar as diversas formas de opressão sobre a mulher simbolizadas na história de Margaret - a não ser que você não tenha consciência da existência de nenhuma delas - e é isso que faz com que essa distopia seja assustadoramente real para nós. 
Ao mesmo tempo que assusta, provoca reflexões e assim cativa e eleva a consciência do leitor (a). Simplesmente genial.

Considerações finais

Vale lembrar que essa foi minha interpretação, cada leitor (a) vai observar da história aquilo que mais lhe toca.  Tenho me desdobrado recentemente em estudos sobre a questão da maternidade, talvez por isso essa parte da história foi marcante para mim. 
Por fim gostaria de comentar brevemente outro ponto interessante, a admissão por parte do Comandante de que sem corrupção nenhum sistema se mantém e ele atribui isso a ordem natural das coisas. Sem dúvida este é outro ponto que nos leva a várias reflexões sobre os regimes totalitários. Uma delas, é de que talvez não exista na história da humanidade um sistema em que não haja algum tipo de corrupção. E outra é que sempre que houver privação de liberdade e opressão, haverá resistência. Sempre!


"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, 
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."
 (Cecília Meireles)


SOBRE A AUTORA: Margaret Atwood , nasceu em Ottawa,Canadá em 18 de novembro de 1939. Atua como romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. Graduou-se em Artes na Universidade de Toronto e foi professora de Literatura Inglesa em várias universidades canadenses. 
É uma das escritoras mais admiradas mundialmente, reconhecida com inúmeros prêmios literários internacionais importantes. 
Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país. Em 2001, ela foi incluída na calçada da Canada's Walk of Fame de Toronto. Recebeu diversos prêmios, como o Man Booker Prize de 2000 por O Assassino cego, Chevalier de l’Ordre dês Arts e dês Lettres e o Príncipe de Astúrias de 2008 pelo conjunto de sua obra, entre outros.
Seus livros foram traduzidos para mais de trinta idiomas. É autora de mais de 35 obras de poesia, prosa e não ficção, entre elas O conto da aia, Dançarinas, Lesão corporal, Madame Oráculo, Olho de gato, A vida antes do homem, Vulgo Grace, O assassino cego, Oryx & Crake, Negociando com os mortos, A tenda e Buscas curiosas, todos publicados no Brasil. 
Desde 1976, é membro fundadora do Writers' Trust of Canada, uma organização não-governamental que atua em apoio da comunidade de escritores canadenses ou que residem no país.


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TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO RECANTO DAS LETRAS:


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domingo, 7 de abril de 2019

Okara Poética apresenta: Rodízio Literário!

No intuito de promover o acesso à leitura, uma vez que livros são caros e nem sempre as bibliotecas e centros comunitários conseguem atender a demanda de leitores principalmente nos bairros mais periféricos, criamos um rodízio literário para facilitar o empréstimo de livros e também a interação entre leitores.

Como funciona:

  1. Escolhemos um livro para leitura coletiva.
  2. Os interessados se inscrevem e organizamos uma fila. Cada participante ao terminar a leitura, fica responsável por emprestar o livro para o próximo da fila. Ao término do rodízio, marcamos um encontro para trocar ideias e comentar a leitura.
  3. Junto com o livro, emprestamos também um caderno para que cada leitor(a), possa fazer alguma anotação ou deixar suas primeiras impressões da leitura, sem dar spoilers claro!
  4. O prazo para leitura é de 15 dias, podendo ser renovado por mais 15 no máximo. 

Regras básicas:



  • Na contracapa do livro há uma ficha para preenchimento do nome de cada leitor (a), data de início e data de término da leitura.
  • Não se deve escrever, grifar ou danificar o livro. Vamos conservar ao máximo para que mais pessoas possam ler. Para anotações use o caderno.
  • Para que o rodízio seja dinâmico, cada ciclo contará com no máximo cinco pessoas.
  • Informações adicionais, cartinhas, mensagens ou poemas relacionados com tema do livro, podem ser deixados no saco ou escritos no caderno. Essa é uma das possibilidades da leitura coletiva, ampliar a experiencia literária de cada uma a medida que somamos nossas percepções.
  • A sacola literária, o saquinho de pano que guarda o livro e o caderno devem ser mantidos sempre juntos, para que não se perca e também para protegê-los. Quem participa do rodízio se compromete em cuidar do livro como se fosse seu.
  • Ao entrar no rodízio, o leitor (a) precisa se envolver e se comprometer em ler o livro, e tentar não ultrapassar o prazo estabelecido para não prejudicar os outros leitores da fila que estão aguardando para ler o livro.
  • Enquanto o livro estiver emprestado com você, ele será de total responsabilidade sua. Caso haja algum extravio ou perda, o mesmo deve ser ressarcido.
  • Qualquer dúvida, pode-se usar o grupo no whatsapp para entrar em contato. ;-)
Se interessou? Entre em contato: No intagram @okarapoetica  ou deixe um comentário com seu tel para contato;-)

Boa leitura e curta essa aventura!



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terça-feira, 2 de abril de 2019

A LITERATURA INDÍGENA E O RESPEITO À PLURALIDADE CULTURAL BRASILEIRA


“Todo Brasileiro, mesmo o alvo de cabelo louro, 
traz na alma, quando não na alma e no corpo (...) 
a sombra ou pelo menos a pinta do indígena e do negro" 
(Gilberto Freire – Casa Grande & Senzala)

"INTRODUÇÃO

Uma vez que somos fruto de diferentes etnias, respeitar a pluralidade cultural presente em nosso país não é um gesto soberano, é acima de tudo um dever para com a nossa própria identidade. O presente trabalho tem o objetivo de esclarecer alguns aspectos da recente produção literária indígena em língua portuguesa, ressaltando sua importância como instrumento de valorização do saber indígena, conscientização do respeito à pluralidade cultural brasileira como meio de erradicação do preconceito em relação às nossas matrizes étnicas. A fim de desfazer a visão equivocada e generalizada que normalmente se tem das milenares culturas indígenas. 

E quem são os índios afinal?  O que sabemos sobre esses povos que contribuiram fortemente para a formação da cultura brasileira?  Ao contrário do que supomos, existem muitos índios no Brasil. Povos que sobreviveram e mantiveram parte ou toda sua cultura e tradição, até os dias atuais. O que existe em pouca quantidade é a difusão do conhecimento a respeito desses povos, o brasileiro atual, sobretudo a população urbana, pouco sabe sobre a sua matriz indígena. E esse conhecimento não se dará através do estudo de estereótipos. Não podemos simplesmente generalizar os índios, mistificá-los catalogando-os como seres exóticos e isolados que pararam no tempo, o que precisamos é aprender sobre esses povos dos quais somos herdeiros enquanto brasileiros. Esse aprendizado precisa ser através do respeito à pluralidade cultural, do diálogo e da desconstrução de preconceitos.
Hoje existem no Brasil aproximadamente 235 povos indígenas falantes de 180 línguas diferentes (ISA, 2011). Diante dessa multiplicidade não se pode falar em uma unidade cultural indígena, pois, cada povo tem suas próprias maneiras de ser e agir no mundo, povos que carregam uma cultura milenar e que lutam para sobreviver no mundo hoje globalizado.

Como nos esclarece a epígrafe que inicia este trabalho, todos os cidadãos que se assumem e se reconhecem na identidade brasileira, devem reconhecer suas marcas indígenas ou negras na memória e no corpo.  Contudo, sendo a literatura também um instrumento transmissão de saber, revela-se então a literatura infantojuvenil como semente promitente para tal conquista, dado a sua importância na formação e educação do indivíduo."


Esse artigo "A literatura indígena e o respeito a pluralildade cultural brasileira",  foi meu TCC do curso de Letras em 2012. Foi bem difícil realizá-lo, pois na época o tema literatura indígena ainda era novidade no meio acadêmico, foi difícil encontrar um orientador que encarasse o desafio, mas com muita insistência consegui. Para minha surpresa, logo quando o publiquei no Recanto das Letras, a primeira pessoa a comentar foi o próprio Daniel Munduruku, autor do livro Catando Piolhos, Contando Histórias, que faço a análise no trablho.  Desde então, muitas pessoas entram em contado solicitando cópia deste artigo para realização de trabalhos com esta temática. Fico muito contente cada vez que recebo um contato desses, afinal mesmo antes de me tornar professora já compreendia a importância e necessidade de espalharmos essa literatura riquíssima por aí.


Este foi meu TCC do curso de Letras - Língua Portuguesa e Inglesa e suas respectivas literaturas. 

Confira o artigo na íntegra no Recanto das Letras:
https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-literatura/3585037



Gratidão Daniel Munduruku,  por ler o artigo e deixar um comentário tão inspirador. 
A-ho!






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sexta-feira, 1 de março de 2019

OKARA POÉTICA - Um longo percurso...


Tínhamos uma inquietação pulsante em nossos jovens corações, uma vontade de saber mais sobre nós e o mundo, tudo girava em torno das perguntas elementares, Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? O que é ser brasileiro?

O Projeto Okara Poética começou lá na zona sul de São Paulo por volta de 2010, com uma vontade imensa de descobrir e compartilhar. Eu não sabia muito bem o quê e nem com quem. Havia muita inquietação em minha mente e em meu coração, quase explodindo de tanta curiosidade e euforia pelos mistérios que pudesse desvendar. Descobrir mais sobre nós mesmos e nossa cultura brasileira e compartilhar as descobertas com quem estivesse a fim. E de repente encontrei mais gente muito afim, com as mesmas inquietações e vontades. A princípio nos tornamos uma dupla e começamos esboçar caminhos e objetivos para essas vontades. Estávamos muito ligados com estudos sobre a cultura indígena e cultura popular brasileira. Escrevi então, um artigo sobre a recente literatura indígena em língua portuguesa que começava a ganhar espaço no meio literário e fiquei fascinada por ela. (Esse artigo foi meu TCC do curso de Letras)

Ao compartilhar vontades e descobertas com mais pessoas afins, em pouco tempo tínhamos um grupo. Éramos então cinco pessoas de diferentes áreas de estudo interessados em saber mais sobre as raízes formadoras da cultura brasileira. Começamos a dar vida ao projeto. Fizemos um sarau inesquecível e começamos a sonhar com novos rumos. Seguimos juntos por algum tempo, até que infelizmente o grupo se separou. Novas vontades e inquietações surgiram nos corações de cada um e novos caminhos também. Mas pra mim o Okara era algo muito mais forte que um projeto, algo que até hoje tenho dificuldade de explicar em palavras, algo que sinto pulsar intensamente em meu coração e que precisa acontecer. Então guardei-o no peito para que voltasse a vida quando fosse a hora. 

Bem, minha trilha de projetos pessoais trouxe-me para o Litoral Norte de São Paulo e aqui estou desde 2014. Durante o difícil começo de uma nova vida à beira mar, cheguei a pensar que o Okara Poética teria sido só um sonho de juventude, mas os ventos do sul sopraram forte em meu coração e reacenderam a vontade de descobrir e compartilhar tudo de novo. E foi assim que em 2017 retomei as trilhas da literatura. Retomei os estudos sobre a literatura indígena (que a essa altura já estava sendo chamada de textualidades inndígenas), que me levaram para os caminhos das narrativas ancestrais e do fascínio que nós seres humanos temos pela ficção, pelas histórias, pela manifestação da palavra. A poesia sempre fez parte da minha vida e hoje é um dos mais fortes motivos para me manter de pé e seguir em frente. “Sempre em frente” me disse o poeta...

Portanto, eis me aqui. Levantando a Okara Poética novamente! A-ho!

As pessoas têm me perguntado, mas o que é Okara Poética afinal?  Bem, aprendi há muitos anos atrás que Ocara (okara) é uma palavra que em tupi-guarani significa o centro da aldeia, onde se realizam as manifestações, as festas, os ritos, o lugar daquilo que é comum, público, te todos sem exceção! (Em oposição a Oca (oka), que seria um espaço mais ou menos reservado). O que seria equivalente em português a palavra praça. Mas descobri recentemente que os gregos, por incrível que pareça, também tinham uma palavra que representava a mesma ideia: Ágora. Incrível, não? 

Pra mim ficou marcado desde o início essa ideia de um espaço coletivo para o fruir da poética! E isso não saiu da minha cabeça e daí vieram as outras ideias. Adorei essa palavra, para mim é como um chamado e hoje faço dela meu território, meu lugar, minha aldeia, onde convido a todos para brincar de poesia comigo. \o/

Sendo assim, Okara Poética torna-se um lugar, físico ou não, para nossas manifestações, onde os diversos tipos narrativas e celebração da palavra ganham voz e luz, emanando e compartilhando a poética que habita em nós. 

Este blog é só um ponto de encontro para orientarmos nossas bússolas e seguirmos juntos nas trilhas da literatura e das fruições e curas que ela é capaz de nos trazer. Aqui, compartilho leituras, vivências literárias, fruições artísticas e convites para atividades culturais. A ideia é sempre incentivar a leitura e fomentar a curiosidade pela leitura e pelas nossas culturas. Sejam todos e todas muito bem vindos (as)!

Viva a poesia! Viva a literatura! Viva essa vontade nossa de ir além e buscar algo a mais!

A-ho!

Karina Guedes

@okarapoetica

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

poema: QUANDO ÁRVORE

Das raízes que se entrelaçam
às folhas que se desfazem

Dos solos que nos sugam
aos ventos que nos levam

Afloram sentidos mais profundos,
desabrochando liberdades do ser

Ente que se reconhece no outro,
bicho estranho que se entrega

Sem questionar a razão que o faz estar aqui
tão liberto em mim...

Ramificamos nossa essência!

Se sou ele ou ele sou eu,
não importa a traço

Enquanto estado de trocas,
dispensamos as formas convencionais

Nos construímos enquanto um novo
se desfazendo do que pensávamos ser

Em verdade sempre estivemos ali
Existindo... distante no mesmo espaço
Um no outro e o outro num

Transcendências!

(Karina Guedes - fevereiro/2016)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Insistência, vontade e continuidade...

Novas trilhas, novos caminhos, novos horizontes. A busca continua e a inquietação não cessa. Talvez a pergunta não seja mais "quem somos?", mas "como somos?". Talvez não interesse tanto saber para onde vamos, mas sim onde estamos? Nesse exato momento, onde estamos? 

Bora descobrir tudo de novo!!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

TrAnS fOrM aÇõEs

Olá pessoal,

Estamos metamorfoseando nosso blog. Em breve novidades!

Inté e axé.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

REFLEXÕES SOBRE POESIA na Oakara Poética.

@okarapoetica

O que é poesia?


Foi com esse questionamento que iniciei minhas reflexões enquanto imaginava o que poderia ser a Okara Poética. Bem, são muitas as definições para o que pode ser a poesia e acredito que quem se envolve com a fruição artística ou estudos literários, com o tempo acaba criando sua própria noção e entendimento sobre o que é a poesia.

Penso cá com meus botões que poesia são os sentidos, seja das coisas, do mundo, de nós e do outro. É o sentir e criar-se a partir dessa percepção do que está além dos olhos ou da superficialidade do olhar. Graças a capacidade única do ser humano de simbolizar e criar significados, somos agraciados com a experiência poética. . Nenhuma outra espécie tem esse privilégio, até onde sabemos. 

Através dos símbolos conseguimos comunicar o que é indizível, dialogar com o inconsciente e inventar universos inteiros. Como se uma força existente dentro de nós estivesse ali pronta para sair, e ao nos aventurarmos nas diversas linguagens deixamos transbordar sentimentos, emoções, pensamentos, ideias e tantas outras coisas. Graças a essa poética que emana de nós, somos capazes de criar várias formas de poesia. O poema, cantado ou escrito, é uma delas. E existem tantas outras...E assim criamos formas e conteúdos, que carregam inconscientemente (ou não) uma ordem para nosso caos interior.

Essa poética que trazemos em nossos genes, em nosso inconsciente, se manifesta plenamente na infância e às vezes adormece na vida adulta, mas está lá em nossa essência. Precisamos mantê-la viva e pulsante em nós. Os cantos, as danças, pinturas, rituais, enfim todas as fruições artísticas nos colocam em contato com  nossos mais íntimos sentidos. E assim,  evocamos a poética e exalamos por todo nosso corpo vivente essa essência ancestral.

Portanto a vontade da Okara Poética é  de se colocar como espaço, um lugar, físico ou não, para as manifestações  dessa poética que habita em nós.


Sejam bem vindos!


Karina Guedes

sábado, 17 de março de 2012

1º ENCONTRO DOS OKAREIROS EM 2012


Ideias, inquietações, sonhos e arte. Andamos por aí, nos alimentando, nos fortificando. Mas precisamos nos encontrar, trocar, somar para frutificar toda essa vontade de arte que existe em nós.

Sábado, 17 de março, no Centro Cultural São Paulo, às 19H30.

Inté e axé!