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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

INTO THE WILD - Jon Krakauer + presentinho no final da resenha.


"dois anos ele caminha pela terra. sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros,. liberdade definitiva. um extremista. um viajante estético cujo lar é A ESTRADA."

(Grafite no Magic Bus, escrito por Chris McCandlles)

Into the Wild ( Na natureza Selvagem), conta a história de Christopher Johnson McCandless, um jovem de uma família abastada da costa leste dos Estados Unidos que foi de carona até o Alasca e adentrou sozinho a região selvagem e desabitada ao norte do monte McKinley. Quatro meses depois, seu corpo decomposto foi encontrado por um grupo de caçadores de alce. No verão de 1990, logo após se formar, com distinção, na Universidade Emory, McCandless sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira. Inventou então uma vida nova para si, instalando-se na margem maltrapilha de nossa sociedade, perambulando pela América do Norte em busca de experiências cruas, transcendentes. Sua família não tinha ideia de onde estava ou que fim tivera até que seus restos apareceram no Alasca. (nota do autor)

Uma história tocante

Meu primeiro contato com essa história foi através do filme Into the Wild (2007), adaptação dirigida por Sean Penn. Na época fiquei absolutamente cativada pela trajetória de Christopher McCandless e sua aventura. Confesso que a trilha sonora composta por Eddie Vedder contribuiu muito para isso, acho que a profundidade poética das letras dialogam perfeitamente com o espírito da história, somadas ao drama e carisma do personagem principal, nos levam a trilhar com ele e se emocionar com sua fatídica aventura.

No entanto, demorou uns seis anos para que pudesse ler o livro que deu origem ao filme e acho que isso foi bom. Primeiro, porque talvez se eu tivesse lido antes provavelmente não teria me envolvido tanto, pois ainda estava muito influenciada pelas imagens do filme. E segundo, porque as melhores trilhas da minha vida, fiz nesse intervalo de tempo. Portanto, esse distanciamento contribuiu para que eu fosse absolutamente absolvida pela narrativa do livro. E mesmo já conhecendo o desfecho da história, me envolvi e me emocionei página por página, com direito a lágrimas e soluços. Existe algo na história de McCandless que só quem já se aventurou na natureza ou descobriu o prazer de estar sozinho, é capaz de compreender. 

O filme é lindo e comovente, tem uma trilha sonora maravilhosa e tals, mas nos dá uma visão romantizada na história do Chris. Já a narrativa, não menos apaixonada de Jon Krakauer,  nos revela em profundidade o drama da vida do jovem aventureiro. Não se trata aqui da velha questão livro x filme, até porque para mim essa questão nem existe. Cinema e literatura são linguagens diferentes e uma nunca vai ser igual a outra. Jamais vejo uma adaptação literária para o cinema com a intenção de que o filme seja idêntico ao livro. Cada linguagem tem seus recursos próprios para contar uma história. Tendo isso em mente, torna-se inevitável  reconhecer as diferenças entre um e outro e se divertir com isso, pois reconhecer as diferenças construtivas torna a leitura mais completa.

No caso aqui ambos são ótimos, mas o livro obviamente contém mais detalhes e informações que nos levam a compreender a jornada de Chris McCandless com menos julgamento e mais empatia.


Diferenças construtivas 

A primeira coisa que faz diferença no livro é o foco narrativo. A história é contada a partir do relato apaixonado de Jon Krakauer que pesquisou profundamente a história de Chris, fazendo inclusive o mesmo percurso, coletando materiais para compor o livro. A narrativa entrelaça relatos de pessoas que conheceram e conviveram com Chris McCandless durante e até mesmo antes de sua aventura, com as reflexões e observações do autor. 

Ao refazer a trajetória de McCandless, Jon faz um paralelo entre a história dele com sua própria história. O que também é um aventureiro, alpinista, nos conta uma experiência semelhante em muitos aspectos com a que Chris passou, porém com um final mais feliz. Então, essa perspectiva narrativa faz toda a diferença ao acompanharmos a trajetória daquele que viria a se tornar o famoso Alexander Supertramp. 

Outro ponto importante é que os conflitos familiares que culminaram no distanciamento e até mesmo a repulsa de Chris pelos seus pais, são revelados em maiores detalhes. O que nos leva a ter uma compreensão diferente de diversos enigmas de sua trajetória, inclusive do final dela. 

O filme termina com o que seria a grande epifania de Chris, “a felicidade só existe quando compartilhada”, em meio a imagens de supostas lembranças de sua família.

Mas no livro, que poderíamos até chamar de documental devido a riqueza de material apurado, nada nos leva a compreender que Chris teria ao final da vida, perdoado seus pais. O que podemos compreender a partir dos registros de seu diários e relatos das últimas pessoas que estiveram com ele, é que ele cumpriu seu propósito e se sentiu pronto para voltar. Porém, nada entre esses registros nos leva a pensar que esse voltar seria para a casa de seus pais, para o seio familiar, como sugere o filme. Acho que esse é um ponto muito interessante da história e que obviamente carece de mais investigação da minha parte, mas, por hora é como interpreto a questão. 

Uma pista para melhor interpretar essa questão seria ler o livro Dr. Jivago, que foi o livro que ele leu por último e ao que tudo indica o influenciou nesta epifania. Trata-se um livro bem controverso e polêmico acerca dos desdobramentos da Revolução Russa. Alguns o consideram uma crítica ao comunismo, enquanto outros dizem que se trata de uma apologia ao comunismo. Apesar de ficar claro durante a narrativa que Chris era avesso a “lados políticos definidos”, chegando a ser até controverso em suas posições, parecendo muitas vezes um anarquista nato, outras vezes nem tanto, algo me diz que a compreensão mais profunda de Dr. Jivago pode nos dar boas pistas dessa questão enigmática de sua jornada. 

O terceiro ponto interessante na narrativa de  Jon Krakauer é a descrição da paisagem. Dá vontade de entrar no livro e fazer parte da história. A maneira como ele retrata as paisagens de toda a trajetória de Chris, principalmente da Stempede Trail e do Monte McKinley, é emocionante e envolvente com um tom de paixão intenso. Afinal, quem narra é também um aventureiro de alma selvagem e tem sua vida completamente envolvida com a natureza. Assim, as paisagens descritas dos lugares visitados por Chris se entrelaçam com as paisagens dos lugares visitados por Jon, dando certa intensidade ao mergulho na natureza selvagem e alimentando ainda mais nosso desejo de aventura. Quando digo nosso, refiro-me aos amantes do contato com a natureza e com essa prática tão ancestral e perturbadora que é seguir em trilhas por caminhos desconhecidos e atraentes do mundo natural. Tem gente que simplesmente precisa ir, e vai... 

E porque essa história é tão fascinante e tem movido pessoas em torno dela há mais de 30 anos?

Diversos motivos nos causam empatia pela trajetória de Chris McCandless, seja pela paixão por esportes radicais, por trilhas, aventuras e desafios de todos os tipos. A natureza desconhecida é sem dúvida um tema muito atraente para muitas pessoas. A possibilidade de testar nossos limites físicos e emocionais, o desafio da superação e da resistência, fazem parte da trajetória narrada nesse livro e isso se conecta com nossos instintos mais primitivos e ocultos dentro de nós. A (des) conexão ser humano-natureza, nos provoca reflexões e emerge conflitos sobre nosso papel e propósito no mundo. E talvez o fato de que assim como Chris, também sentimos repulsa à hipocrisia da sociedade e da escravidão institucionalizada pelo sistema capitalista em que estamos submetidos. 

O tema do desapego é também central nessa história, ele parte rumo ao desafio de desapegar de um mundo pré-fabricado, com regras pré-estabelecidas e valores pré-definidos e sai em busca de algo, que nem ele mesmo sabe exatamente bem o que é, ele simplesmente vai de encontro ao mundo selvagem onde acredita, a princípio, ser o oposto a tudo isso que conhece.  Esse chamado à rebeldia, de renegar um mundo que não fora construído por nós mesmos é sem dúvida muito atraente, sobretudo aos espíritos mais livres. 

De todos os motivos que me fascinam nessa história, o que mais me toca é o sentimento de solitude.  E a solitude não é a mesma coisa que a solidão. 

Solidão está geralmente associada a dor de estar só, sendo algo negativo, pois quem tem esse sentimento dentro do peito, deseja estar na companhia de alguém. 

Solitude está associado a glória de estar sozinho, pois revela-se uma satisfação imensa em não precisar da companhia de outra pessoa para sentir-se bem, sentir-se pleno.

Tem um texto muito bom sobre essa diferença no site Fãs da psicanálise, onde o autor Felipe de Souza escreve o seguinte: 

“De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra solitude é um palavra de uso poético. A poética, por sua vez, remete tanto à produção de algo novo como à apreciação e criação da beleza. Ou seja, a solitude permite o tempo e o espaço e o silêncio para fazer o útil ou o belo. Também permite não fazer nada. Também permite desenvolver a espiritualidade, encontrar-se enquanto uma pessoa diferente dos demais e se aceitar como se é – independentemente da aprovação do outro...”

E essa ideia é totalmente refletida na trajetória de Chris, principalmente quando ele adentra ao Parque Nacional Denali rumo a sua caminhada transcendental. Através das anotações de seu diário e principalmente das fotos que ele fez durante esse período, é possível ver esse sentimento em seu semblante. Talvez não possamos dizer que a solitude esteve em seu espírito cem por cento do tempo, mas os registros sugerem que pelo menos uma boa parte sim.   

Na última foto, em que segura um bilhete de despedida, pois já sabia que a morte estava a sua espera, é possível ver em seus olhos, a serenidade de quem percorre um longo percurso para dentro de si mesmo, se encontrou e se realizou. 

Quem passa pela experiência de ficar sozinho em algum momento da vida e se permite experimentar a solitude, aprende algo de extremo valor para a sobrevivência humana: não ser emocionalmente dependente de ninguém. Aliás, nenhum tipo de dependência é interessante para o desenvolvimento de uma vida saudável, plena e liberta. Mas acho que a dependência emocional pode ser das piores amarras que alguém possa ter na vida. Pois, ela nos leva ao aprisionamento do que há de mais íntimo em nosso ser: o desenvolvimento da capacidade de bastar-se e ser completo em si mesmo. 

E porque isso é importante? 

Porque uma pessoa que se sente completa por si só, jamais vai aprisionar alguém para suprir suas carências afetivas, uma vez que não as tem. E tampouco vai se deixar ser aprisionado. Não consigo ver mais representação do sentimento de libertação do que esse, a não necessidade emocional do outro.

Isso não significa que não precisamos dos outros ou da vida em sociedade. Viver em conjunto é produtivo e é natural estabelecermos vínculos e parcerias ao longo da vida. Ajudar e ser ajudado, apoiar e ser apoiado, assim como realizar trocas honestas e equilibradas de afetividade. Porém, essas relações que estabelecemos com o mundo e pessoas à nossa volta, não podem custar o aprisionamento da nossa alma. Acredito que é isso que a solitude pode nos trazer, além de estado de satisfação plena consigo mesmo, um estado de independência emocional do outro, o que nos torna pessoas mais libertas e mais completas.

 O que penso da história de Alex Supertramp? 

Bem, a intensidade da narrativa do livro me fez chegar a seguinte conclusão: não se trata só da história de um aventureiro. Trata-se de uma trajetória autêntica de busca de autoconhecimento, de coragem para viver de acordo com seus próprios princípios. Um belo exemplo de autenticidade: pensar, desejar, estabelecer uma meta e buscá-la. Manter o foco e não desistir jamais. Mesmo quando tudo à sua volta lhe disser não. Lutar pelo sim até o final. 

Chris McCandless conquistou seu objetivo, chegou ao Alasca, viveu da natureza, transcendeu à vida selvagem. Encontrou respostas e decidiu voltar. Porém, o acaso do destino lhe trouxe uma surpresa, essa talvez tenha sido a única derrota de Chris, a sorte que lhe faltou num momento crucial.

Alguns vão questionar, porque ele não se preparou mais ou não estudou melhor a região antes de se aventurar por terras desconhecidas. Bem, talvez porque não era esse o propósito. Ele não estava fazendo uma expedição de reconhecimento de área, ele estava vivendo sua grande aventura de vida. Ele não queria dominar a natureza e sim vivê-la. Integra-se a ela através de uma relação ser-humano-natureza mais primitiva possível. Esse era seu propósito e não bater recordes esportivos ou fazer turismo. Ao compreender isso, parei de julgá-lo. 

E de repente a história fez muito sentido. Ele viveu o que se propôs a viver, de forma liberta e de acordo com seus próprios ideais.

A narrativa apaixonada do autor também contribui para que possamos seguir Chris em sua jornada sem julgá-lo. Acho que essa é uma rota interessante de seguir para leitura do livro. Tentando se colocar no lugar daquele jovem tão obstinado, corajoso e convicto de suas ideias.  Isso não é romantizar a trajetória, e sim vivê-la junto com ele. Acredito que essa rota pode nos levar a uma leitura mais profunda e muito mais emocionante. E compreender que a grande aventura de Chris é também uma tragédia com a qual podemos aprender muito e  chegarmos ao final da última página diferentes de quando iniciamos a primeira. Tal como acontece quando colocamos os pés numa trilha, mergulhamos profundamente em sintonia com o caminho, superando obstáculos, compreendendo cada vez mais o trajeto e se maravilhando com a beleza do percurso. Ao final da trilha, não somos mais os mesmos e isso é libertador. 


SOBRE O AUTOR: 

Jon Krakauer (nascido em 12 de abril de 1954) é um escritor e montanhista americano. Ele é o autor de best-sellers de livros de não ficção - Into the Wild; Into Thin Air; Sob a Bandeira do Céu; e Where Men Win Glory: The Odyssey of Pat Tillman - bem como vários artigos de revistas. Recebeu um Oscar de Literatura da Academia Americana de Artes e Letras. De acordo com a citação do prêmio, “Krakauer combina a tenacidade e a coragem da melhor tradição do jornalismo investigativo com a sutileza estilosa e a visão profunda do escritor nato”.


SOBRE CHRIS McCLANDLESS:

Neste site mantido pela família de Crhis, é possível encontrar muitas informações sobre sua biografia, assim como livros e vídeos a respeito de sua trajetória. 

http://www.christophermccandless.info


MINHA DICA PARA UMA LEITURA MAIS PROFUNDA LEITURA DESTE LIVRO:

Se você nunca fez um trilha antes, experimente. Se você pretende ler esse livro e nunca fez uma trilha, faça uma primeiro. Se você nunca ficou sozinho, desconectado do mundo por pelo menos um final de semana, experimente isso antes de ler esse livro. Acredite, tais experiências farão sua leitura ser muito mais intensa e emocionante. 

💟Deixei por aqui um presente pra você: baixe o e-book com algumas imagens da Stampede Trail, para mergulhar na paisagem enquanto lê o livro. Clique aqui. Se não conseguir abrir deixe seu e-mail nos comentários, que envio pra você.😉😊


Karina Guedes

@okarapoetica


sexta-feira, 1 de maio de 2020

METADE CARA, METADE MÁSCARA - Eliane Potiguara

Metade Cara, Metade Máscara é um livro muito interessante escrito por Eliane Potiguara, escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica potiguara de seus avós.  Neste livro revela-se uma escrita literária que mescla diferentes gêneros textuais. 

No início são apresentadas informações e reflexões sobre identidade, invasão das terras indígenas e migração. Acontecimentos que vão colocar os povos indígenas em marcha e em luta pela sobrevivência.

Ao relatar de forma brilhante a diáspora indígena, a autora denuncia verdades sobre o doloroso processo de colonização, chamando atenção para as questões que tangem especialmente a mulher indígena.  O olhar feminino está presente em toda obra, colocando em evidência o universo feminino com textos que abordam: amor, família, pertencimento, violência, identidade e direitos humanos, entre outros temas. E essa temática se concretiza em torno das histórias das mulheres, ou seja, aquelas que não foram contadas.

Ancestralidade, espiritualidade, culto a terra e a busca pela preservação da identidade são assuntos abordados e colocados em questão pela autora. A narrativa se encerra tecendo uma verdadeira evocação de luta e resistência. Toda essa presença indígena traduzida numa composição lírica inclassificável, se desenvolve numa trama minuciosamente construída entre a prosa e a poesia.

A tessitura da composição estética traz sons, cores e vozes de povos que contam sua própria história, fazendo-se sujeito e personagem ao mesmo tempo. Eliane Potiguara cria um caminho didático ao apresentar textos de gêneros diversos, de modo que fica colocado para ao leitor as diferentes portas abertas que ele poderá adentrar para compreender as questões sociais colocadas e posições políticas defendidas. É como se ela usasse diferentes códigos para transmitir a mesma mensagem. 

Ao contar a história e movimentos de Jurupiranga e Cunhataí, a autora vai usar  poesia e prosa poética como forma de transmitir a imagem, presença e trajetória da família indígena simbolicamente representada por esses personagens. A linguagem do livro se dá numa mistura textual, tão bem elaborada que nos envolve, nos intriga e nos comove do começo ao fim. 

Há muito tempo que eu queria ler esse livro e quando finalmente consegui foi um baque forte, porque Eliane tem um jeito muito próprio de narrar, relatar, contar. Os caminhos que ela escolhe para trazer seu pensar são sempre um convite a uma experiência desafiadora de leitura. Tanto do ponto de vista da fruição literária, quanto do ponto de vista da reflexão política. Ela nos envolve, nos faz pensar e ver tudo com outro olhar. O olhar de quem durante todo esse tempo, esteve do outro lado, o lado dos oprimidos e silenciados. E isso mexe com a gente, nos transforma. 

Ao final da leitura a sensação foi como se aqueles personagens indígenas de que tanto ouvimos falar nas aulas de história, de repente saíssem do livro e dissessem: Agora sou eu que vou falar. Ouça. E você se vê, não diante de uma nova versão da história, mas sim de outra história. Aquela não contada, escondida embaixo do tapete, ou até mesmo apagada da chamada historiografia oficial. 

Ler Eliane Potiguara é como receber um orelhão na cabeça, porque não é só uma ficha que cai, são várias. Ela tem um jeito didático/poético/único de contar verdades e nos ensinar a reconhecer mentiras. Aliás, essa foi uma impressão que ficou muito forte para mim, quanta mentira nos contam sobre os indígenas e nós na inocência ou na preguiça, simplesmente acreditamos.

Tenho dedicado um tempo da minha vida e do meu coração, para entender os movimentos indígenas. E  ler a literatura que se escreve a partir daí, para mim é sempre a melhor e mais deliciosa trilha. Adoro ler livros, artigos, músicas, textos de todos os tipos escritos por indígenas, porque é como se eu adentrasse nas aldeias, das florestas ou cidades, como convidada e não como intrusa. E eu adoro ser convidada a conhecer o outro a partir de sua própria perspectiva. Para mim é uma honra.


SOBRE O AUTORA:  

Profª Eliane Potiguara é escritora, poeta, ativista, empreendedora social de origem étnica potiguara de seus avós, migrantes nordestinos. É formada em Letras e Educação pela UFRJ e extensão em Educação e Meio ambiente pela UFOP. É contadora de histórias. Nasceu em 29/09/1950 na cidade do Rio de Janeiro. Recebeu o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil pelo Ministério da Cultura entregue em mãos pela Presidência da República. Fellow da organização internacional Ashoka (empreendedores sociais), fundadora do GRUMIN (Grupo Mulher - Educação Indígena) e Enlace Continental de Mujeres indígenas e Embaixadora da Paz pelo Círculo de Escritores da França. Participou da elaboração da Declaração Universal dos Povos Indígenas/ONU por 6 anos nas sessões em Genebra. Possui 7 livros publicados. Teve seus textos publicados em diversos sites, antologias e e-books nacional e internacional. Premiada pelo Pen Club da Inglaterra e Fundo Livre de Expressão (USA). 

EMBAIXADORA UNIVERSAL DA PAZ: Eliane Potiguara foi nomeada Embaixadora Universal da Paz em Genebra (Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix – Genebra – Suíça). 

Além de tudo isso que está na biografia oficial em seu site, ela é também uma pessoa muito, mas muito gentil, maravilhosa e inspiradora que eu tive a honra de conhecer pessoalmente numa festa literária. 💗Site: http://www.elianepotiguara.org.br


Karina Guedes

@okarapóetica


sábado, 22 de fevereiro de 2020

O PAÍS DO CARNAVAL - Jorge Amado


LEITURAS CARNAVALESCAS II

O País do Carnaval conta a história de Paulo Rigger, um brasileiro, nascido na Bahia e que vai a pedido do pai estudar na Europa e por lá fica alguns anos. Ao retornar para o Brasil, Paulo inicia sua jornada buscando dar conta de suas inquietações, de descobrir do significado da felicidade e do sentido da vida. Conhece alguns intelectuais com que estabelece vínculos de amizade e de genuína parceria intelectual. Nos botecos de Salvador o grupo mantem encontros casuais e passam a vida e discutir sobre política, amor, religião e filosofia. Nesse tortuoso caminho que o faz ver o Brasil tal qual o próprio carnaval, cheio de contradições, Paulo Rigger segue uma trajetória que oscila entre transcendência intelectual e acomodação à sua condição de homem burguês, branco e rico. 

Durante esse tempo no Brasil, ele também conhece as alegrias e dores do amor e quando se vê diante de um dilema que coloca em xeque suas convicções intelectuais, nos mostra seu caráter conservador e machista, incapaz de transpor a linha confortável do discurso intelectualizado burguês tão contraditório quanto o país que ele chama o tempo todo de país do carnaval. Um personagem no mínimo intrigante.  

Obra inicial

Este foi o livro de estreia de Jorge Amado aos 19 anos, no ano de 1931. Aqui se apresenta um escritor crítico e talentoso, interessado em questões como identidade, política, mestiçagem, racismo e cultura popular. Todo o embrião de uma vasta obra que conheceríamos nos anos posteriores. Este livro tem um enredo bem simples,  no entanto  a inquietação intelectual e sentimental do protagonista e seu profundo dilema entre razão e emoção, faz do romance juvenil uma obra substancial e revela um autor já preocupado com o enigma Brasil. Penso até que Paulo Rigger, protagonista do romance, se assemelha em partes com o espírito inquieto e juvenil de seu criador que aos 14 anos já figurava na cena literária de Salvador e foi um dos criadores da "Academia dos Rebeldes", que publicava trabalhos em revistas criadas por eles mesmos.

Gostei do livro. Fiquei com a impressão de que naquele momento aos olhos do autor o Brasil era ainda apenas uma festa, mas não qualquer festa. Uma festa completa com música, beleza, gente alegre, muita bagunça, embriaguez coletiva e a funesta melancolia do dia seguinte; ressaca de um povo diferente e misturado, sobreviventes de uma nau meio sem rumo, com capitão errante, tripulação desgraçada e brincante que não se importa muito onde vai chegar, no entanto insiste em partir. Uma narrativa intrigante, criativa, crítica, e com desfecho um pouco pessimista, na minha avaliação.


Sobre o Autor:

Jorge Amado é mais que um clássico da literatura brasileira, sobretudo da literatura que retrata o Brasil-Bahia, o Brasil- Crioca, o Brasil-Brasil, a cultura popular do povo mestiço e dos infortunados e abandonados do sistema capitalista. Crítico e ousado, trouxe para sua obra nuances da rica diversidade da cultura popular brasileira. Um escritor atemporal, cuja obra já foi publicada em mais de 50 países e é talvez o escritor mais adaptado da dramaturgia brasileira. 


Karina Guedes
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ANTES DO BAILE VERDE - Lygia Fagundes Telles


LEITURAS CARNAVALESCAS I

Adoro contos! Sem dúvida é um dos meus gêneros favoritos e Antes do Baile 
Verde é um livro excelente que nos permite experimentar um pouco da deliciosa prosa de Lygia Fagundes Telles. 

Cada história, um mergulho na astúcia e talento da autora em capturar nossa atenção e nos intrigar com dramas envolventes. Inveja, ódio, amor, posse, ciúmes e malícia, entre provocações e reflexões, as histórias são cheias de ironias acerca do comportamento humano e de nosso senso de humanidade, ou falta dele. Seus personagens são revelados em detalhes, ficando nus e expostos ao nosso olhar ora surpreendido, ora desconfiado, mas sempre curioso com o próximo passo. A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.

O conto que dá nome ao livro, é um convite a reflexão sobre vida e morte, responsabilidade e fuga da realidade, contradições internas alegoricamente representada simbolicamente por nossa festa mais popular, o carnaval. Que serve de pano de fundo para o desenvolvimento do drama de duas mulheres de classes distintas e opostas diante de um dilema ético cujo desfecho não é nem um pouco o mais esperado.  Já o conto Verde Lagarto Amarelo expõe a fragilidade das relações familiares, uma perturbadora narração de um personagem passivo/violento que dilacera seu inimigo com palavras afiadas e cortantes. E assim, sucessivamente cada história nos dá a breve sensação de uma viagem ao mundo peculiar de cada protagonista, seus anseios e devaneios, medos e loucuras, seus sofrimentos e contradições.  Antes do baile Verde reúne contos escritos por Lygia entre 1949 a 1969 e são apresentados em ordem decrescente do mais antigo ao mais recente.

Para quem ainda não conhece a vasta obra da autora, este pode ser um bom começo. E se ao final da leitura você sentir um desconforto estomacal e ao mesmo tempo uma sensação de euforia, não se preocupe. Significa apenas que você se embriagou com as 18 doses de Lygia Fagundes Telles, servidas no livro.


Sobre a autora:
Lygia Fagundes Telles dispensa apresentações. Premiada escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Além de advogada, romancista e contista, Lygia tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.


Karina Guedes
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO - Angélica Freitas

Simplesmente amo poesia, vocês sabem. Mas tem um tipo de poesia que me encanta mais, que é aquela que me tira da zona de conforto, me intriga e leva para algum lugar para além do chão batido do cotidiano.  Acho que já disse isso por aqui...

um útero é do tamanho de um punho foi minha última leitura de 2019, e que leitura! Posso dizer que encerrei o ano com chave de ouro. A poesia de Angélica Freitas nos trasntorna, nos desajeita, incomoda e ao trazer em versos questões do chamado feminino, faz pensar naquilo que muitas vezes deixamos pra lá, pra depois, tudo aquilo que incomoda em ser mulher. 
A cobrança pela aparência padrão, pela maternidade, os preconceitos de gênero, homossexualidade, transsexualidade. Enfim, não é um livro que me faz ficar divagando, sonhando ou inebriada com a sonoridade das palavras, não. Fiquei tonta, inquieta, com raiva às vezes e rindo em outras. Seus versos são carregados de questionamentos, de incômodos e bastas. Mas são também cheios de ironia e sarcasmo, que nos faz até rir de certos absurdos do patriarcado. 

Com um estilo muito único e original, a poesia de Angélica Freitas vai nos tomando verso a verso, página por página. Em seus versos livres e bem articulados, contemporâneos por assim dizer, são denunciadas as opressões e violências sofridas por nós mulheres e como lidamos com isso.  Numa escrita franca, ela fala do ser mulher de uma maneira autêntica que faz coro com nossas vozes mais íntimas.

Agélica contou em entrevista ao Estratégias Narrativas, que quando criança ganhou de presente uma enciclopédia chamada O mundo da criança, e o primeiro volume  era de Poesia para criança, ao ler foi tomada de uma alegria enorme por achar aquilo uma brincadeira, um jogo e essa foi a sua entrada na poesia, lendo poesia para criança, uma poesia mais lúdica e que de certa forma influenciou seus primeiros poemas que eram cheios de humor. E a partir daí descobriu um imenso prazer em escrever poemas.
É visível que o humor e até mesmo a ludicidade fazem parte de sues versos até hoje. A autora brinca com as palavras num jogo poético que ora faz rir, ora faz pensar, ao mesmo tempo que diverte, inquieta.

"im itiri i di timinhi di im pinhi
quem pode dizer que tenho um útero
(o médico) quem pode dizer que funciona (o médico)
i midici
o medo de que não funcione
para que serve um útero quando não se faz filhos


para quê


piri qui"


Questionamentos, reflexões, inquietações. Tudo isso veio à tona enquanto eu lia e acho que não é um livro pra ler e encostar na estante, pelo contrário, é pra ler e reler, porque o tema abortado é um tema que não se esgota: Mulher! ou Mulheres! ou Nós!
O poema que mais gostei é o que dá nome ao livro, ele traz uma reflexão profunda sobre a propriedade do corpo da mulher, quem manda em nosso útero? Por que temos que passar por tantas instituições, estado, igreja, família, para poder decidir sobre nosso próprio corpo?

"pra que serve um útero quando não se faz filhos", esse verso me tocou sensivelmente, pois vem de encontro a uma reflexão que tenho feito nos últimos anos, a não-maternidade. Parece ser fácil, escolher não ter filhos, porém não se pode fugir do tribunal armado que a sociedade nos reserva pelo simples fato de você não querer cumprir um papel ditado pelo patriarcado. Quando você diz não quero ter filhos, logo vem a pergunta, "mas então o que você vai fazer da vida?" Como se parir fosse nosso único propósito.

Pra terminar, devo avisar aos leitores interessados que caso não tenha nenhuma familiaridade com os temas abordados, seria interessante ler a respeito antes. Acredito que pode tornar a leitura mais saborosa.


Sobre a autora:

Angélica Freitas, poeta e tradutora. Nasceu em Pelotas, RS em 1973. Chegou a cursar Letras mas desistiu do curso porque queria mesmo era escrever. Afinal escreve poemas desde de quando era criança. Formou- se em jornalismo e mudou-se mais tarde para São Paulo, onde trabalhou como repórter para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Informática Hoje.

Publicou o livro Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2013). Angélica Freitas foi coeditora, com os poetas Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, da revista de poesia Modo de Usar & Co.

Seus poemas já foram publicados e traduzidos na  Espanha, México, Estados Unidos, Alemanha e França.


Karina Guedes
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sábado, 30 de novembro de 2019

VENDO PÓ...ESIA! - Rodrigo Ciríaco

Gosto de poesia que me tira do lugar, me arranca o chão batido do cotidiano. E definitivamente esse livro do Rodrigo Ciríaco é dessas poesias de fazer a gente gritar, de raiva, de alegria, de indignação e de paixão. Acho que é isso, uma poesia apaixonante. Que rasga o peito e infla-a-alma, inflama, incendeia e nos revela a vida pelas víceras. ADORO!

Vendo Pó...esia! é um livro diferente de muita coisa que se tem lançado por aí. Não só em seu inquietante projeto gráfico, que faz com que você leia até de ponta cabeça, mas principalmente por trazer em seu ritmo uma explosão de sons. Do grito ao sussuro, do barulho ao silêncio. Poemas para serem lidos em voz alta, mesmo no silêncio. Para serem relidos e semeados por aí. Porque acima de tudo são gritos de luta, de manifestAÇÃO de um poeta militante, educador persistente e insistente na arte de provocar. Um poeta da Rua mais do que da lua!  Da Periferia! Da Resistência! Da verdade nua e crua!


Enfim, é difício resenhar esse livro sem entregar o ouro, rs. A poesia do Rodrigo Ciríaco é assim, contagiante! Não se espante se logo depois de ler os primeiros poemas, você sentir uma vontade descontrolada de pegar papel e caneta e começar e desenhar seus próprios gritos. O jogo poético do autor é sedutor, ele te provoca e você aceita e logo grita tua manifestAÇÃO também!
Recomendo este Pó...esia, três dosses ao dia. Só pra começar.

A primeira vez que vi o Rodrígo em cena, foi no Sarau da Cooperifa há uns 13 anos. E de lá pra cá acompanho suas redes sociais e projetos literários. Sempre o vi como um escritor e educador muito engajado e mais do que isso muito entregue e disposto ao trabalho que desenvolve. Recentemente participei de uma oficina ministrada por ele, "A Pedagogia dos Saraus", foi muito incrível. Ele é um genuíno provocador poético,  desses de fazer você sentir vontade e sede de poesia, simples assim.
Em seu trabalho segue semeando vontades literárias por onde passa e de certa forma, essa peregrinação poética está presente em seus textos. Trazendo para o papel sempre um olhar crítico sobre a sociedade e sobre nosso próprio modo de estar neste mundo.



Um pouco mais sobre o autor:

Rodrigo Ciríaco é educador e escritor, autor dos livros “Te Pego Lá Fora”, “100 Mágoas” e “Vendo Pó…esia”. Participa há mais de 10 anos do movimento de saraus da periferia. É idealizador do projeto “Literatura (é) Possível”, que desde 2006 desenvolve ações de incentivo a leitura, produção escrita e difusão literária em escolas públicas estaduais e municipais, com o “Sarauzim – Sarau dos Mesquiteiros”. Foi autor convidado do Salão de Paris (2015 e 2013), FELIV – Festival do Livro e Literatura Infanto-Juvenil da Argelia (2014), 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (2014), FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (2011), entre outros.




Karina Guedes
@okarapoetica


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domingo, 12 de maio de 2019

MÃES ARREPENDIDAS – uma outra visão da maternidade


Livro: Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade
Autora: Orna Donath
Ano: 2016
Editora: Civilização Brasileira

Sobre a autora:
Orna Donath é antropóloga, doutora em sociologia e pesquisadora na Ben- GurionUniversity de Negev, em Israel. Seu trabalho concentra na discussão dos direitos reprodutivos das mulheres e em estudos de gênero. Foi presidenta da Hasharon Rape Crisis Center – organização israelense cujo objetivo é combater a violência sexual -, da qual continua ser voluntária. É autora de Making a Choice: BeingChildfree in Israel (sem tradução no Brasil).

Sobre a obra:
O título deste livro é impactante e provocativo e o desenrolar da narrativa segue essa premissa, de nos impactar e prender a atenção a cada fato apresentado e analisado, a cada depoimento apresentado e a cada reflexão colocada. Talvez esse impacto se deva ao assunto tratado, que é muito comum a todas as mulheres e ao mesmo tempo polêmico para muitas de nós: a maternidade.

Depois de um enorme alvoroço causado por um debate na internet intitulado “#regretingmotherhood”, seguido de um artigo escrito pela autora sobre o assunto e publicado na revista Sings. Orna desenvolveu um estudo em Israel com um grupo de mulheres que se dispuseram a falar sobre o arrependimento que sentem em relação à maternidade. Importante ressaltar que Israel é o país com o índice de fertilidade mais elevado do mundo, 3 filhos a cada mulher. Enquanto entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) o índice é de 1,9 (EUA) a 1,4 (Europa). Dados que impressionam e nos levam a questionamentos sobre como se desenvolve a transição para a maternidade e porque surge o arrependimento.

 “Insisti em abordar essa situação guiando-me pelo pressuposto de que nosso campo de visão social é limitado, pois não nos deixa ver nem ouvir algo que existe, mas para o qual ainda não há uma via de expressão.”,diz Orna.

Para apresentar a questão do arrependimento e as conclusões de seu estudo a autora traça uma análise das trajetórias das mulheres-mães, desde os caminhos para a maternidade até os desdobramentos que apresentam ao logo da vida, sobretudo quando a mulher-mãe se torna avó.

“...a maior parte da literatura existente sobre os relatos das mães se concentra nos sentimentos e nas vivências de mães de bebês ou crianças pequenas, ou seja, no período logo após a transição para a maternidade. A relativa escassez de referências às experiências de mães de crianças mais velhas sugere que se dá pouco espaço às narrativas retrospectivas das mães ao longo dos anos.”, conclui a autora.

A maternidade pode ser uma experiência positiva e intensa para as mulheres que desejam vivê-la dentro desse âmbito do “querer ser mãe”. É comum ouvirmos relatos sinceros de sentimentos de realização, alegria e satisfação genuína por parte dessas mulheres. Porém, isso não significa que esse desejo e anseio por tal experiência seja compartilhado por todas as mulheres. É preciso compreender que existem mulheres que querem ser mães e mulheres que não querem, porém, o fato de existir mulheres que não desejam a experiência da maternidade não diminui ou invalida as experiências daquelas que se realizam nessa transição.

Tal experiência deveria ser uma opção, algo que se realiza mediante a uma escolha. No entanto, ao investigarmos os caminhos que levam uma mulher a tornar-se mãe, constatamos que nem sempre foi por que quis ou escolheu. Este é mais um fato que precisamos reconhecer, boa parte das mulheres que transitam para a maternidade o fazem mediante a uma decisão passiva, ou seja, fazem por falta de opção para escolher outro caminho ou por algum tipo de pressão, seja da família, da religião que segue ou da sociedade como um todo.  Ao mesmo tempo as mulheres que não desejam a maternidade, e têm o privilégio de fazer essa escolha, são criticadas e julgadas pelos mesmos núcleos.

Vivemos numa sociedade ancorada nos valores burgueses de família e propriedade privada, nesse contexto ser mãe é mais um papel a ser cumprido pela mulher. Ancorados em discursos rasos sobre a naturalidade da maternidade, da função biológica da mulher, da sobrevivência da espécie e da promessa de completude do ser feminino, a sociedade paternalista/capitalista em que vivemos praticamente obriga, direta ou indiretamente, mulheres a parir.

Para muitas mulheres ser mãe não é um desejo íntimo, mas dependendo do quão inseridas estão nesses valores, acabam se tornando mães simplesmente deixando-se levar por esse fluxo de pressão e opressão. Uma vez mãe, eternamente mãe. A maternidade é uma transição irreversível. A vida de uma mulher muda completamente para sempre, como uma marca, uma cicatriz que fica eternamente. Uma mulher que transita para a maternidade, morre como mãe e não como mulher.

Dentre essas mulheres que transitam maternidade por não ter meios ou condições de questionar ou se opor a pressão que sofrem para que se tornem mães, temos aquelas que se arrependem. Algumas tem coragem de admitir e enfrentam os dilemas e conflitos desse estado consciência. Outras, carregarão em silêncio mais esse fardo, o de ter que viver uma vida que não desejou e não poder dizer nada sobre isso. Afinal, o arrependimento é uma postura emocional cuja compreensão e aceitação é relativa e equivocada. Em certos contextos como no jurídico, por exemplo, espera-se que os réus se arrependam de seus crimes, já na maternidade o arrependimento é inconcebível aos olhos da sociedade que impõe a maternidade como uma obrigação da mulher e até mesmo a culpabiliza por essa transição em certas circunstâncias.

Um exemplo disso é constatado quando tratamos da responsabilidade da contracepção, que recai sempre sobre a mulher. Ignora-se a falta de informação sobre métodos contraceptivos - uma vez que educação sexual é um  tabu gigantesco em pleno século XXI ; as possíveis falhas desses métodos; a dificuldade de acesso a eles por parte de mulheres de baixa renda e que não possuem assistência médica nem para orientação, tampouco para acompanhamento; e o total descompromisso da maior parte dos homens em relação a tudo isso. O discurso moralista que ecoa e impera em nossa sociedade é “engravidou porque quis”, no entanto, podemos ver pelos exemplos citados que isso não é verdade. Muitas mulheres engravidam porque são condicionadas a fazê-lo.

Analisando todos esses aspectos que envolvem o destino das mulheres e o que a sociedade reserva para elas, a antropóloga Orna Donath desenvolve esse estudo profundo sobre um fato que até então tem sido obscurecido nas discussões sobre a maternidade, inclusive no movimento feminista, o arrependimento.  O livro “Mães Arrependidas – Uma outra visão da maternidade” traz ao centro das discussões uma realidade pouco reconhecida, a existência de mães que se arrependeram de terem se tornado mães. Através deste estudo realizado em Israel, a autora aponta para a diferença entre o desejo de ser mãe e o fato de ser mãe. E a incômoda existência do arrependimento.

Esse arrependimento não é um fenômeno individual que poucas mulheres manifestam devido a sua incapacidade de se adaptar a maternidade, trata-se de um alerta a toda a sociedade que se torna a grande culpada por esse sofrimento, afinal, a sociedade como um todo, empurra e persuade as mulheres à maternidade,mesmo que sem condições emocionais ou sociais de fazê-lo, sem oferecer políticas de reprodução que as permitam vivenciar a maternidade em sua plenitude.
“Se pensarmos nas emoções como maneira de se manifestar contra sistemas de poder, então o arrependimento é um alarme que deveria não apenas instar as sociedades a facilitarem as coisas para as mães, mas nos convidar a repensar as políticas de reprodução e nossas ideias sobre a obrigação de ser mãe.”, enfatiza a antropóloga.

Esse fato não pode ser ignorado, tampouco ocultado ou empobrecido por julgamentos moralistas. Existem mulheres que sofrem a maternidade e ao propor um estudo sério e comprometido em relação ao assunto, Orna dá voz a essas mulheres muitas vezes silenciadas. Seu livro é estruturado em capítulos organizados de forma a conduzir o leitor gradativamente a uma reflexão profunda sobre o tema. Ampliando as possibilidades de escuta dessas vozes que gritam o arrependimento da maternidade. Ou melhor, pelo reconhecimento e compreensão dessa emoção.Compreender o arrependimento como uma postura emocional legítima, é uma das propostas do livro. A outra, é de que a maternidade deixe de ser vista como um papel a ser cumprido obrigatoriamente pelas mulheres e passe a ser compreendida como uma relação entre a mulher-mãe enquanto sujeito de sua própria história, que reflete, analisa e avalia constantemente a relação que estabelece com o outro ser a quem chama de filho. Vista como uma relação, a maternidade tira um certo peso dessa experiência, o peso da dependência tanto da mãe quanto dos filhos.
Permitindo um desenvolvimento mais autêntico, pleno e furtivo para ambos, livre da ditadura dos padrões estabelecidos pela sociedade que assim como determina o papel de mãe, também determina o papel de filho.

O estudo apresentado no livro, juntamente com os trechos dos relatos das mulheres que participaram dele, compõe um tratado que convida a todos a uma reflexão profunda sobre a maternidade e nos instiga a pensar em possíveis caminhos para que ela não seja instrumento de opressão sobre as mulheres, mas apenas um caminho possível, nunca obrigatório. Talvez reconhecer a legitimidade do arrependimento, possa ser um início algum avanço nessa questão tão pungente para nós mulheres, que em algum momento da vida nos deparamos com o dilema:ser ou não ser mãe?

O livro divide-se em seis capítulos. A seguir um breve resumo dos assuntos abordados em cada um deles.

1- Os caminhos para a maternidade: O que a sociedade dita versus as experiências das mulheres.

Neste capítulo, são apresentados os diversos caminhos que levam as mulheres à maternidade. Os conflitos entre a maternidade naturalizada e a maternidade realizada, contrapondo o “caminho natural” à “liberdade de escolha”. Através dos relatos das mulheres que participaram do estudo,a autora aponta para o fato de que muitas mulheres não desejam ser mães e apenas se deixam levar pela corrente. Os desejos e motivos para transitar para maternidade são diversos e muitas vezes ocultos, o que leva mulheres a consentirem ser mães, porém sem vontade nenhuma, o que ela chama de decisão passiva. Ao fazer uma análise mais concreta e com base nas razões das mulheres que participaram do estudo, dando eco a suas vozes, a autora também desmistifica a ideal neoliberal/capitalista do poder de escolha.

2- As exigências da maternidade: Aparência, comportamento e sentimentos que as mães deveriam ter.

Os relatos das mulheres que participaram do estudo nos dão uma pequena amostra do quão pesado o fardo da maternidade pode ser, como as cobranças e julgamentos para que sejam boas mães e para que cumpram determinado papel padronizado e imposto pela sociedade paternalista/machista em que vivemos. São apresentados também os sentimentos ambíguos que a maternidade pode gerar, tanto como amar os filhos, detestar os filhos ou apenas detestar a maternidade. A partir dessas constatações a autora aprofunda a distinção entre arrependimento e sentimentos de ambivalência.


3- Mães arrependidas: Se eu pudesse não ser mãe de ninguém.

O arrependimento está ligado à nossa noção de tempo e memória, posto como uma postura emocional que nos coloca a olhar para traz, rever, reavaliar, reconsiderar. Comportamento desvalorizado na sociedade contemporânea onde o pensamento neoliberal considera que progresso é um caminho em linha reta, sempre olhando para frente e nunca para trás. Neste contexto, o arrependimento da maternidade é considerado em nossa sociedade como uma postura emocional ilícita para as mães que tem filhos e ao mesmo tempo é utilizado como condenação prévia para aquelas que não desejam ser mães.
Ao fazer uma análise de suas próprias trajetórias, algumas mulheres se arrependem e consideram um erro terem engravidado. Porém arrepender-se da maternidade, não significa arrepender-se dos filhos. Muitas mulheres vão concordar com a seguinte afirmação “amo meus filhos e detesto a maternidade”.  Neste capitulo são apresentados as vantagens e desvantagens da maternidade e como as mães que se arrependem lidam com essas questões.

4- Experiências de maternidade e práticas de arrependimento: Viver com um sentimento ilícito. 

A maternidade traz uma grande mudança na vida de uma mulher, uma mudança irreversível. As transformações que a maternidade pode trazer, tanto podem estar no campo emocional da satisfação e da realização, assim como pode estar no campo da frustração e do arrependimento. A maternidade é irreversível e torna-se traumática a medida que as mães vão tomando consciência do quanto suas vidas não lhes pertencem mais. A prometida sensação de completude da maternidade é ocupada por uma sensação infinita de comprometimento e responsabilidade que se estenderá mesmo depois dos filhos estarem crescidos. Neste capítulo, a autora expõe as diversas práticas que se originam do conflito entre ser mãe e desejar não ser, como o suposto conflito entre o desejo de não ter filhos e o amor pelos filhos reais.

5- Quem é você, mãe? As mães arrependidas entre o silêncio e o discurso.

A consciência do fardo da maternidade traz vários dilemas e desafios. Dentre eles, a necessidade de compartilhar seus sentimentos e o conflito com sua voz silenciada pela sociedade que não deseja ouvir seu arrependimento, suas confusões, suas angústias. A responsabilidade para com a saúde emocional dos filhos e o medo de que se sintam indesejados, se confronta com a vontade de ser transparente e honesta com os próprios sentimentos. Neste capitulo é apresentado uma investigação mais profunda da consciência desperta das mães arrependidas. E como lidam na prática com esse despertar.


6 - Mães- sujeitos: Investigar o estado das mães por meio do arrependimento.

A investigação mais profunda do arrependimento da maternidade aponta para dois significados importantes, que devem ser considerados antes de criticar ou condená-lo. Primeiro, a satisfação com a maternidade não tem a ver somente com as boas condições materiais para vivê-la. Mulheres que vem de classes economicamente abastadas, compartilham dos mesmos conflitos e sentimentos que mulheres de classes de baixa renda.  As conclusões do estudo também questionam as premissas de que o arrependimento surge quando as mulheres não conseguem conciliar a carreira profissional com a maternidade. Este capítulo também sugere que para uma compreensão mais ampla da maternidade, precisamos deixar de vê-la como um papel a ser cumprido pela mulher e começar a compreendê-la como uma relação na qual as mães sejam sujeitos que examinam, pensam, avaliam e buscam equilíbrios.

Bem, o que mais posso dizer? Amei este livro assim como transitar pelas reflexões que ele traz.
Espero que gostem também, boa leitura!

Se já leu, deixe seu comentário, bora somar ideia. Abraço.

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