Mostrando postagens com marcador POESIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POESIA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de março de 2020

TUDO NELA BRILHA E QUEIMA - Ryane Leão


O cotidiano, as ausências que sobram, as presenças que faltam, feridas abertas, cicatrizes que coçam, Ryane Leão fala de amores e dores com a mesma intensidade. 

À medida que ia lendo este livro por vezes me vi há vinte anos atrás, me jogando sozinha no mundo e enfrentando tudo o que viesse pela frente. Para quem decide se libertar dos padrões de comportamento que a sociedade patriarcal impõe, submissão, casamento, maternidade e a velha moral burguesa às avessas, aprender a resistir e a se reconstruir lutando contra tudo isso é um ato de amor e compaixão para consigo mesma.

O título já diz muito sobre Ryane Leão, ela brilha e queima linha por linha. O amor, as alegrias, revoltas e euforias que transbordam dos versos escritos encontram remanso no peito de quem lê. Afinal, além de verso e ritmo, poesia é também encontro.

As vozes de sua poesia transmitem força, doçura e revolta.     Sentimentos comuns às mulheres que se propõem a questionar sua existência e seu lugar no mundo, assim como criar seu próprio mapa e se aventurar em seus próprios caminhos. A luta e a resistência da mulher negra, são os pilares de sua poética, evocada com sabedoria e amor.

Com uma métrica própria e versos intensos, a autora nos convida a dar vida à nossa voz e nossa poética mais íntima. Afinal, sua poesia é como um chamado para a coragem de questionar, protestar e amar. O diferencial de seu estilo não está só na estrutura estética dos versos, mas também nos temas abordados. Amor, reflexões, desilusões, recomeços, racismo, machismo, luta e muita paixão pela palavra são marcas de seu trabalho. Difícil não se entusiasmar com versos tão empoderadores. Questionamentos, vontade de lutar e reivindicar o seu lugar sem medo de se posicionar. Uma voz poética que ecoa e se expande, indo muito além dos cafés elitizados ou manuais literários acadêmicos de outrora. 

 Ícone da literatura brasileira contemporânea, Ryane Leão é a poesia do hoje, do agora, do momento de luta e amor de cada mulher. É atual, sem ser rasa, simples sem ser supérflua e ao mesmo tempo complexa o bastante para nos levar à reflexões sobre nós mesmos, nossas relações e nossa luta diária.
  
Durante a leitura senti uma vontade imensa de ouvir Nina Simone, Aretha Franklin, Gloria Gayor, Beyoncé, mulheres que usaram a arte como instrumento de resistência e luta. E não só ouvir suas canções, mas compreender suas histórias de vida.  É  absolutamente incrível a sede de conhecimento que uma poesia engajada na concretude das relações sociais pode nos provocar.

Talvez a poesia de Ryane Leão seja um convite a olhar para si mesmo, se conhecer e buscar em nossa ancestralidade toda força de resistência necessária para se manter de pé, de cabeça erguida e em luta. Porém sem abrir mão da capacidade e vontade de amar.



+ SOBRE A AUTORA:

Poeta, professora, Ryane Leão começou a  publicação de seus poemas em lambe-lambes e espalhando pela cidade e também no Twitter.  O projeto @ondejazzmeucoracao, tem milhares de seguidores no Instagram e propõe um grito de poesia e de luta.

Em 2016 realizou uma campanha de financiamento coletivo para o lançamento de seu primeiro livro. No ano seguinte publicou “Tudo Nela Brilha e Queima” (Editora Planeta), marcado pelo ativismo em defesa dos direitos das mulheres negras, que em 2018 lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Jabuti de literatura.

Ryane também é fundadora do Odara- English School for Black Girls, escola de inglês para mulheres negras, onde o trabalho é pautado na resistência da arte e da educação.

Empoderamento e ancestralidade dão um tom de luta na cadência de seus versos. Lançou o segundo livro “Jamais peço desculpas por me derramar” (Editora Planeta) em 2019.

É considerada um nos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

 

Karina Guedes
@okarapoetica




sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO - Angélica Freitas

Simplesmente amo poesia, vocês sabem. Mas tem um tipo de poesia que me encanta mais, que é aquela que me tira da zona de conforto, me intriga e leva para algum lugar para além do chão batido do cotidiano.  Acho que já disse isso por aqui...

um útero é do tamanho de um punho foi minha última leitura de 2019, e que leitura! Posso dizer que encerrei o ano com chave de ouro. A poesia de Angélica Freitas nos trasntorna, nos desajeita, incomoda e ao trazer em versos questões do chamado feminino, faz pensar naquilo que muitas vezes deixamos pra lá, pra depois, tudo aquilo que incomoda em ser mulher. 
A cobrança pela aparência padrão, pela maternidade, os preconceitos de gênero, homossexualidade, transsexualidade. Enfim, não é um livro que me faz ficar divagando, sonhando ou inebriada com a sonoridade das palavras, não. Fiquei tonta, inquieta, com raiva às vezes e rindo em outras. Seus versos são carregados de questionamentos, de incômodos e bastas. Mas são também cheios de ironia e sarcasmo, que nos faz até rir de certos absurdos do patriarcado. 

Com um estilo muito único e original, a poesia de Angélica Freitas vai nos tomando verso a verso, página por página. Em seus versos livres e bem articulados, contemporâneos por assim dizer, são denunciadas as opressões e violências sofridas por nós mulheres e como lidamos com isso.  Numa escrita franca, ela fala do ser mulher de uma maneira autêntica que faz coro com nossas vozes mais íntimas.

Agélica contou em entrevista ao Estratégias Narrativas, que quando criança ganhou de presente uma enciclopédia chamada O mundo da criança, e o primeiro volume  era de Poesia para criança, ao ler foi tomada de uma alegria enorme por achar aquilo uma brincadeira, um jogo e essa foi a sua entrada na poesia, lendo poesia para criança, uma poesia mais lúdica e que de certa forma influenciou seus primeiros poemas que eram cheios de humor. E a partir daí descobriu um imenso prazer em escrever poemas.
É visível que o humor e até mesmo a ludicidade fazem parte de sues versos até hoje. A autora brinca com as palavras num jogo poético que ora faz rir, ora faz pensar, ao mesmo tempo que diverte, inquieta.

"im itiri i di timinhi di im pinhi
quem pode dizer que tenho um útero
(o médico) quem pode dizer que funciona (o médico)
i midici
o medo de que não funcione
para que serve um útero quando não se faz filhos


para quê


piri qui"


Questionamentos, reflexões, inquietações. Tudo isso veio à tona enquanto eu lia e acho que não é um livro pra ler e encostar na estante, pelo contrário, é pra ler e reler, porque o tema abortado é um tema que não se esgota: Mulher! ou Mulheres! ou Nós!
O poema que mais gostei é o que dá nome ao livro, ele traz uma reflexão profunda sobre a propriedade do corpo da mulher, quem manda em nosso útero? Por que temos que passar por tantas instituições, estado, igreja, família, para poder decidir sobre nosso próprio corpo?

"pra que serve um útero quando não se faz filhos", esse verso me tocou sensivelmente, pois vem de encontro a uma reflexão que tenho feito nos últimos anos, a não-maternidade. Parece ser fácil, escolher não ter filhos, porém não se pode fugir do tribunal armado que a sociedade nos reserva pelo simples fato de você não querer cumprir um papel ditado pelo patriarcado. Quando você diz não quero ter filhos, logo vem a pergunta, "mas então o que você vai fazer da vida?" Como se parir fosse nosso único propósito.

Pra terminar, devo avisar aos leitores interessados que caso não tenha nenhuma familiaridade com os temas abordados, seria interessante ler a respeito antes. Acredito que pode tornar a leitura mais saborosa.


Sobre a autora:

Angélica Freitas, poeta e tradutora. Nasceu em Pelotas, RS em 1973. Chegou a cursar Letras mas desistiu do curso porque queria mesmo era escrever. Afinal escreve poemas desde de quando era criança. Formou- se em jornalismo e mudou-se mais tarde para São Paulo, onde trabalhou como repórter para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Informática Hoje.

Publicou o livro Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2013). Angélica Freitas foi coeditora, com os poetas Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, da revista de poesia Modo de Usar & Co.

Seus poemas já foram publicados e traduzidos na  Espanha, México, Estados Unidos, Alemanha e França.


Karina Guedes
@okarapoetica

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
#umuteroedotamanhodeumpunho
#angelicafreitas
#poesia
#okarapoetica
#leiamulheres

sábado, 30 de novembro de 2019

VENDO PÓ...ESIA! - Rodrigo Ciríaco

Gosto de poesia que me tira do lugar, me arranca o chão batido do cotidiano. E definitivamente esse livro do Rodrigo Ciríaco é dessas poesias de fazer a gente gritar, de raiva, de alegria, de indignação e de paixão. Acho que é isso, uma poesia apaixonante. Que rasga o peito e infla-a-alma, inflama, incendeia e nos revela a vida pelas víceras. ADORO!

Vendo Pó...esia! é um livro diferente de muita coisa que se tem lançado por aí. Não só em seu inquietante projeto gráfico, que faz com que você leia até de ponta cabeça, mas principalmente por trazer em seu ritmo uma explosão de sons. Do grito ao sussuro, do barulho ao silêncio. Poemas para serem lidos em voz alta, mesmo no silêncio. Para serem relidos e semeados por aí. Porque acima de tudo são gritos de luta, de manifestAÇÃO de um poeta militante, educador persistente e insistente na arte de provocar. Um poeta da Rua mais do que da lua!  Da Periferia! Da Resistência! Da verdade nua e crua!


Enfim, é difício resenhar esse livro sem entregar o ouro, rs. A poesia do Rodrigo Ciríaco é assim, contagiante! Não se espante se logo depois de ler os primeiros poemas, você sentir uma vontade descontrolada de pegar papel e caneta e começar e desenhar seus próprios gritos. O jogo poético do autor é sedutor, ele te provoca e você aceita e logo grita tua manifestAÇÃO também!
Recomendo este Pó...esia, três dosses ao dia. Só pra começar.

A primeira vez que vi o Rodrígo em cena, foi no Sarau da Cooperifa há uns 13 anos. E de lá pra cá acompanho suas redes sociais e projetos literários. Sempre o vi como um escritor e educador muito engajado e mais do que isso muito entregue e disposto ao trabalho que desenvolve. Recentemente participei de uma oficina ministrada por ele, "A Pedagogia dos Saraus", foi muito incrível. Ele é um genuíno provocador poético,  desses de fazer você sentir vontade e sede de poesia, simples assim.
Em seu trabalho segue semeando vontades literárias por onde passa e de certa forma, essa peregrinação poética está presente em seus textos. Trazendo para o papel sempre um olhar crítico sobre a sociedade e sobre nosso próprio modo de estar neste mundo.



Um pouco mais sobre o autor:

Rodrigo Ciríaco é educador e escritor, autor dos livros “Te Pego Lá Fora”, “100 Mágoas” e “Vendo Pó…esia”. Participa há mais de 10 anos do movimento de saraus da periferia. É idealizador do projeto “Literatura (é) Possível”, que desde 2006 desenvolve ações de incentivo a leitura, produção escrita e difusão literária em escolas públicas estaduais e municipais, com o “Sarauzim – Sarau dos Mesquiteiros”. Foi autor convidado do Salão de Paris (2015 e 2013), FELIV – Festival do Livro e Literatura Infanto-Juvenil da Argelia (2014), 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (2014), FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (2011), entre outros.




Karina Guedes
@okarapoetica


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
#vendopo...esia
#vendopoesia
#rodrigociriaco
#poesia
#okarapoetica

sexta-feira, 1 de março de 2019

OKARA POÉTICA - Um longo percurso...


Tínhamos uma inquietação pulsante em nossos jovens corações, uma vontade de saber mais sobre nós e o mundo, tudo girava em torno das perguntas elementares, Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? O que é ser brasileiro?

O Projeto Okara Poética começou lá na zona sul de São Paulo por volta de 2010, com uma vontade imensa de descobrir e compartilhar. Eu não sabia muito bem o quê e nem com quem. Havia muita inquietação em minha mente e em meu coração, quase explodindo de tanta curiosidade e euforia pelos mistérios que pudesse desvendar. Descobrir mais sobre nós mesmos e nossa cultura brasileira e compartilhar as descobertas com quem estivesse a fim. E de repente encontrei mais gente muito afim, com as mesmas inquietações e vontades. A princípio nos tornamos uma dupla e começamos esboçar caminhos e objetivos para essas vontades. Estávamos muito ligados com estudos sobre a cultura indígena e cultura popular brasileira. Escrevi então, um artigo sobre a recente literatura indígena em língua portuguesa que começava a ganhar espaço no meio literário e fiquei fascinada por ela. (Esse artigo foi meu TCC do curso de Letras)

Ao compartilhar vontades e descobertas com mais pessoas afins, em pouco tempo tínhamos um grupo. Éramos então cinco pessoas de diferentes áreas de estudo interessados em saber mais sobre as raízes formadoras da cultura brasileira. Começamos a dar vida ao projeto. Fizemos um sarau inesquecível e começamos a sonhar com novos rumos. Seguimos juntos por algum tempo, até que infelizmente o grupo se separou. Novas vontades e inquietações surgiram nos corações de cada um e novos caminhos também. Mas pra mim o Okara era algo muito mais forte que um projeto, algo que até hoje tenho dificuldade de explicar em palavras, algo que sinto pulsar intensamente em meu coração e que precisa acontecer. Então guardei-o no peito para que voltasse a vida quando fosse a hora. 

Bem, minha trilha de projetos pessoais trouxe-me para o Litoral Norte de São Paulo e aqui estou desde 2014. Durante o difícil começo de uma nova vida à beira mar, cheguei a pensar que o Okara Poética teria sido só um sonho de juventude, mas os ventos do sul sopraram forte em meu coração e reacenderam a vontade de descobrir e compartilhar tudo de novo. E foi assim que em 2017 retomei as trilhas da literatura. Retomei os estudos sobre a literatura indígena (que a essa altura já estava sendo chamada de textualidades inndígenas), que me levaram para os caminhos das narrativas ancestrais e do fascínio que nós seres humanos temos pela ficção, pelas histórias, pela manifestação da palavra. A poesia sempre fez parte da minha vida e hoje é um dos mais fortes motivos para me manter de pé e seguir em frente. “Sempre em frente” me disse o poeta...

Portanto, eis me aqui. Levantando a Okara Poética novamente! A-ho!

As pessoas têm me perguntado, mas o que é Okara Poética afinal?  Bem, aprendi há muitos anos atrás que Ocara (okara) é uma palavra que em tupi-guarani significa o centro da aldeia, onde se realizam as manifestações, as festas, os ritos, o lugar daquilo que é comum, público, te todos sem exceção! (Em oposição a Oca (oka), que seria um espaço mais ou menos reservado). O que seria equivalente em português a palavra praça. Mas descobri recentemente que os gregos, por incrível que pareça, também tinham uma palavra que representava a mesma ideia: Ágora. Incrível, não? 

Pra mim ficou marcado desde o início essa ideia de um espaço coletivo para o fruir da poética! E isso não saiu da minha cabeça e daí vieram as outras ideias. Adorei essa palavra, para mim é como um chamado e hoje faço dela meu território, meu lugar, minha aldeia, onde convido a todos para brincar de poesia comigo. \o/

Sendo assim, Okara Poética torna-se um lugar, físico ou não, para nossas manifestações, onde os diversos tipos narrativas e celebração da palavra ganham voz e luz, emanando e compartilhando a poética que habita em nós. 

Este blog é só um ponto de encontro para orientarmos nossas bússolas e seguirmos juntos nas trilhas da literatura e das fruições e curas que ela é capaz de nos trazer. Aqui, compartilho leituras, vivências literárias, fruições artísticas e convites para atividades culturais. A ideia é sempre incentivar a leitura e fomentar a curiosidade pela leitura e pelas nossas culturas. Sejam todos e todas muito bem vindos (as)!

Viva a poesia! Viva a literatura! Viva essa vontade nossa de ir além e buscar algo a mais!

A-ho!

Karina Guedes

@okarapoetica

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

poema: QUANDO ÁRVORE

Das raízes que se entrelaçam
às folhas que se desfazem

Dos solos que nos sugam
aos ventos que nos levam

Afloram sentidos mais profundos,
desabrochando liberdades do ser

Ente que se reconhece no outro,
bicho estranho que se entrega

Sem questionar a razão que o faz estar aqui
tão liberto em mim...

Ramificamos nossa essência!

Se sou ele ou ele sou eu,
não importa a traço

Enquanto estado de trocas,
dispensamos as formas convencionais

Nos construímos enquanto um novo
se desfazendo do que pensávamos ser

Em verdade sempre estivemos ali
Existindo... distante no mesmo espaço
Um no outro e o outro num

Transcendências!

(Karina Guedes - fevereiro/2016)

domingo, 30 de maio de 2010

poema:ANDARILHO

Muitos anos
Tantas moradas
De todos os lugares para onde migrei
Dentro de mim a viagem mais profunda
A cada migração um novo olhar
A cada migração uma nova condição
A cada migração uma nova pessoa
Diante do espelho, reflexos
Do que se vê
De como se vê
Não há como fugir
Diante do espelho que mostra
Aos olhos a ilusão do que sou
Nada mais que uma pessoa
No vai e vem da transformação do ser


(Karina Guedes  - maio/ 2010)