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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

A SUCESSORA - Carolina Nabuco

A Sucessora, romance escrito por Carolina Nabuco e publicado em 1934, que além de nos contar uma história de duas pessoas apaixonadas, uma moça do campo e um viúvo da cidade que são assombrados pela imagem da primeira esposa dele já falecida, traz como pano de fundo um belo retrato do Brasil do início do séc. XX, narrado com leveza e com certo caráter intimista.

    Neste livro acompanhamos a história de Marina, uma moça na casa dos 20 anos que viveu a vida toda na fazenda de Santa Rosa, interior do Rio de Janeiro, onde conhece Roberto que viria a se tornar seu marido. Ele é um industrial da cidade do Rio de Janeiro, viúvo recente e viaja para Santa Rosa a negócios. Ao se conhecerem se apaixonam e se casam rapidamente. Então, Marina se muda para a bela casa dele no bairro do Paissandu. E essa mudança vai ser um muito perturbadora para Marina, que se vê diante do desafio de enfrentar a memória da falecida, Alice. 

    Logo na chegada ao palacete se deparam com o quadro da finada esposa, o que causa certo desconforto aos recém casados. Roberto se desculpa pelo mal entendido, pois havia dado ordens para que o quadro fosse retirado, mas não se desfaz totalmente dele, apenas o remove para uma sala menor, menos usada, afinal o quadro fora pintado por um famoso artista francês, sendo muito valioso. 

    Acontece que é nesta sala que Marina acaba passando a maior parte de seu tempo, ela ocupa as estantes vazias com seus livros trazidos de Santa Rosa e faz desta sala seu canto particular. Além do quadro, Marina percebe a presença de Alice nos objetos da casa e nas memórias de todos que a conheciam e assim descobre que Alice era uma mulher, bonita, inteligente, exuberante, com muito traquejo social, chique, muitos amigos, excelente anfitriã e tinha uma presença marcante. E esse perfil de mulher tão perfeita, começa a gerar nela certa insegurança. Afinal, Marina é o oposto disso. Ela é uma moça tímida do campo, que embora sendo de uma família abastada, tinha hábitos simples. Apreciadora de literatura, da beleza da natureza, dos costumes do campo e suas festas populares, como a festa junina por exemplo. Ao constatar a grande diferença entre ela e Alice, começa a tecer as comparações e notar o quanto as pessoas esperam que ela seja como Alice e se sente muito mal em relação a isso. Aos poucos começa criar uma certa obsessão pela figura da finada e o quadro exposto na salinha alimenta dia após dia essa obsessão. O que a leva a um desequilíbrio psicológico que culmina numa crise existencial intensa que pode comprometer seu casamento. 

Uma história leve, apesar da personagem principal entrar num profundo poço de tormentos psicológicos causados pela sua própria insegurança, mas a narrativa é fluida, sem grandes reviravoltas, ou grandes surpresas no final. A linguagem é elegante e objetiva, típica dos romances deste período, com certa erudição na fala de alguns personagens mais letrados. Apresenta uso de vocábulos e adjetivos comum da época em que foi escrito.


ROMANCE PSICOLÓGICO E INTIMISTA

    No começo parece só mais uma história sobre uma jovem em busca de um grande amor e que depois de casada,  tenta cumprir, o que naquele tempo era considerado uma das principais obrigações da mulher no casamento: agradar ao marido. Tarefa que para muitas mulheres pode parecer exagerada ou até mesmo injusta, mas que tanto naquele tempo como nos dias de hoje ainda é uma prática muito enraizada na cultura machista em que vivemos. 

    Como percebemos isso na história? Bem, tudo o que Marina faz é pensando em agradar Roberto e mostrar que pode ser tão competente quanto a falecida, que inclusive deixa um caderninho com tudo anotado, para que sua sucessora não falhe na missão. Roberto por sua vez, em vários momentos demostra aparentemente ter superado a morte de Alice. Inclusive, não se agrada quando Marina tenta imitá-la. Ele se diz ciente da diferença entre elas e que a ama em seu modo de ser. Porém, em vários momentos percebemos que ele sutilmente impõe seus gostos e sua cultura. É como se Marina tivesse que se adaptar a ele e não o contrário. Ao longo de toda a história acompanhamos Marina tentando se adaptar ao mundo de Roberto, fazer-lhe as vontades, sofrendo as comparações com a falecida e é justamente essa pressão que vai levá-la ao surto psicológico e dar vida a um retrato de parede. 

    A partir desse momento todo dilema de Marina gira em torno dessa obsessão que ela cria em relação ao quadro da falecida. Fazendo com que sua  antagonista seja não exatamente a Alice, mas sua própria insegurança e esse  sentimento de inferioridade que lhe surge durante esse processo  de adaptação à vida matrimonial culmina em esgotamento emocional. E é aí que o quadro da falecida, vai encarnar todas as suas angústias e ser seu grande inimigo. Um inimigo que na realidade não faz nada. Fica só pendurado na parede. Qualquer ação relacionada a ele é  movida pelas emoções de Marina.

        Toda essa pressão faz com que ela se esforce para ser a nova dona da casa, mas muitas coisas incomodam profundamente a protagonista, como por exemplo a superficialidade dos costumes da sociedade urbana e industrial na qual fora inserida através do casamento. Isso lhe provoca um profundo tédio. E mesmo sendo mais bonita, mais jovem e mais inteligente do que a falecida, Marina se deixa abater por comparações. Ela não consegue ver que a profundidade de seu caráter se sobrepõe a superficialidade da imagem de Alice, que se apresenta apenas como o mais bem moldado fetiche burguês de mulher ideal. Marina é superior, mas não vê isso e se esgota numa crise profunda. 

    A atitude que ela vai tomar para não padecer de vez, é bem inusitada para histórias desse gênero. Achei isso muito positivo no enredo. Ela dá um "basta" e o fato de estar disposta a encarar a separação e a solidão, demonstra que pode manter em si um resquício dessa inclinação para liberdade que o casamento aparentemente lhe roubara. Se ela vai levar isso adiante ou não, não posso contar para não estragar a leitura de vocês.

    A única coisa que realmente não gostei foi o final, que me decepcionou um pouco. Na tentativa de expor o que se esperava da mulher naquela época, a autora enfatizada na narrativa a visão burguesa e patriarcal do papel da mulher na sociedade. O que na minha avaliação foi ruim, porque Marina desde o início apontou várias vezes para uma visão mais progressista do mundo e da vida, e a força com que ela lutava contra os valores contrários aos seus durante toda a história, me levou a criar uma expectativa de que no final ela triunfaria. Claro que de uma visão patriarcal do papel da mulher Marina "venceu" Alice. Mas para mim não, ela perdeu. Pois, seu intelecto, sua capacidade analítica, sua autonomia de pensamento e auto superação era sua verdadeira superioridade em relação a Alice e nada disso foi utilizado para dar a heroína do romance um final que ela, a meu ver, merecia. 


POSSÍVEIS LEITURAS

    Um lado interessante deste romance é a representação do Brasil do começo do século XX. Um Brasil que contrapunha campo e cidade e que de um lado vivia o declínio das fazendas após a abolição da escravatura e do outro uma ascensão das cidades e do desenvolvimento das indústrias. Marina representa o velho Brasil, enquanto Roberto representa o que foi chamado de novo Brasil, o país que emergia economicamente naquela época e que trazia essas marcas nos contrapontos culturais. 

    A burguesia urbana da época era muito apegada a estética europeia, sobretudo a francesa. A França estava na moda no Rio de Janeiro da década de 20. Isso vai ser muito bem retratado nos costumes do círculo social de Roberto. A preocupação com a moda, as várias reuniões, visitas, festas, jantares, ser bem visto na alta sociedade era estar bem alinhado com os valores europeus daquele tempo. Marina sendo uma moça do campo, letrada e muito apegada as suas raízes populares vai criticar tudo isso, todo esse burburinho pró Europa. Ela prefere discutir literatura à modas do momento. E toda essa atmosfera em que se vê obrigada a se adaptar devido ao seu casamento, vai contribuir para o desenvolvimento de sua crise psicológica no decorrer da história.

    A festa junina e o carnaval são dois momentos muito marcantes na narrativa e que de certa forma também ilustram esse contraponto, entre campo e cidade. E no carnaval do Rio, é evidenciado os vestígios do Brasil escravocrata, quando os personagens principais vão ver o desfile do chamado blocos dos pretos. E ali tem-se um dos momentos curiosos da história, pois os personagens usam uma linguagem carregada de racismo para se referir aos negros, uma linguagem que pode nos parecer pesada e pejorativa hoje em dia, mas que era comum. Não sabemos esse recurso foi por mera expressão, na tentativa de apenas retratar os vocabulário da época ou se a autora teve uma intensão fazer uma denúncia. Carolina Nabuco era filha de um abolicionista, mas é preciso lembrar que ser abolicionista não significa ser necessariamente um admirador ou ter o mínimo de compaixão pelos negros e sua cultura. A historiografia nos mostra que havia outro interesses em jogo no desfecho da abolição  e mesmo os escravizados sendo libertados, não houve nenhum esforço para a inserção das pessoas negras no mercado de trabalho e na sociedade. Portanto, menos para mim ficou essa incógnita em relação a essa passagem do texto.

    Toda essa atmosfera de contraste e contradições torna esse romance um verdadeiro registro histórico do Brasil da década de 20. Trata-se também de uma narrativa fluida, direta sem muitos rodeios ou descrições intermináveis. Esse é um mérito da autora, ela é objetiva e isso faz com que a leitura seja prazerosa.


CURIOSIDADES
  •  A obra foi adaptada para televisão em 1978 , e tinha Suzana Vieira e Rubens de Falco no papel do casal Marina e Roberto.
  •  Sobre a suposta questão do plágio que Carolina Nabuco comenta em seu livro de memórias, em relação ao romance Rebecca de Daphne Du Maurier (resenha aqui), comentei em outro texto somente sobre isso, que você pode LER AQUI. 
Nesta resenha de A Sucessora fiz questão de dar ênfase a interpretação da obra, coisa que é meio difícil encontrar para ler, pois a maioria das pessoas gastam quase que a resenha inteira falando da questão do plágio e não se atentam a apreciação da obra.

Recomendo também ler a resenha de Encarnação, de José de Alencar (resenha aqui).

SOBRE A AUTORA

Carolina Nabuco,  (Rio de Janeiro, 9 de fevereiro de 1890 — 18 de agosto de 1981) foi uma escritora e tradutora brasileira. Era filha de de Evelina Torres Ribeiro Nabuco e de Joaquim Nabuco, escritor, diplomata e deputado geral do Império do Brasil, co-fundador da Academia Brasileira de Letras. Carolina passou boa parte da infância em Petrópolis, mas a adolescência foi nos Estados Unidos, onde o pai, era embaixador do Brasil.

Em 1928, publicou seu primeiro livro, a biografia de seu pai, Joaquim Nabuco, livro premiado com o Prêmio de Ensaio da Academia Brasileira de Letras. Trabalhou como tradutora e escritora, tendo uma vida bastante discreta, sem nunca ter se casado ou tido filhos.
Em 1978, Carolina recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

É considerada uma das grandes escritoras da literatura brasileira.


Karina Guedes
@okarapoetica

ENCARNAÇÃO - José de Alencar

  Encarnação é o último romance escrito por José de Alencar, publicado postumamente em 1839 e conta a história de Amália, moça jovem, bela, que desfruta muito bem do frescor e prazeres da juventude e de Hermano, um viúvo de hábitos estranhos, cuja a história de vida e traços de sua personalidade esquisita vão sendo revelados no decorrer do enredo. 

   Logo no início somos apresentados à figura de Hermano que se casou pela primeira vez com Julieta e durante um bom tempo formaram um belo casal apaixonado, porém Julieta morre em decorrências de um aborto espontâneo. Ele sofre com a ausência da esposa e cria uma espécie de fascinação pela sua memória, se mantendo viúvo e fiel à falecida por muitos anos. Até que um belo dia, através do médico e amigo de infância Henrique, ele conhece Amália sua vizinha que era apenas uma menina quando se casou pela primeira vez, mas que agora já é uma moça e se interessou pela figura excêntrica de Hermano. 

    A princípio Amália se sentiu atraída tanto pela figura de Julieta, quanto pelo fascínio que Hermano cultivava. Os dois acabam se apaixonando, porém Hermano fica confuso com esse amor, pois  ainda se sente ligado a primeira esposa. Amália também tem certo receio de início, mas mesmo assim se casam. Amália muda-se para casa de Hermano e aqui começa um série de eventos que vão fazer dessa relação, uma história no mínimo curiosa. No começo Amália tem dificuldades de se estabelecer como dona da casa e não é reconhecida como tal nem pelos empregados, sobretudo por Abreu, um criado antigo que tinha a falecida esposa como filha e não aceita presença de Amália. 

    Além disso, ela enfrenta também problemas matrimoniais com Hermano, pois passados os primeiros dias de lua de mel, Amália se sente rejeitada pelo marido que até então nunca lhe oferecera uma carícia sequer, nem um beijo na boca. No máximo ele lhe beijava a testa. Prestes a desistir deste casamento e propor uma separação, Amália descobre o grande segredo de Hermano e que de certa forma explica muito de sua personalidade esquisita e doentia. É aqui que a narrativa ganha certo fôlego e ao tentar salvar o casamento e tentar ser amada por Hermano, Amália entra num jogo de sedução perigoso e quase tão doentio quanto a mente enlouquecida do marido. Uma série de eventos acontecem num ritmo bem acelerado, e leva a história para um desfecho intrigante e duvidoso. 


UMA HISTÓRIA ESTRANHA

    Um enredo simples, mas que aos poucos apresenta um conflito psicológico tenso. Um homem obcecado por um ideal de mulher e a medida que vai conhecendo mulheres reais, tenta encaixá-las nesse ideal. Num primeiro momento, me passou a impressão de que José de Alencar estava apenas tentando elaborar uma defesa prévia, para justificar o direito do homem de se casar novamente. Mas não é bem assim, afinal viúvos se casarem novamente era mais comum e aceitável nessa época, do que divórcios ou do que as segundas núpcias femininas que costumavam ser considerados grandes escândalos.

    A linguagem é elegante e simples. A narrativa é bem construída e as personagens femininas apresentam mudanças de comportamento interessantes, enquanto que os personagens masculinos se mantem previsíveis, principalmente se você observá-los bem no início. 


A IDEALIZAÇÃO DO AMOR

    Um detalhe curioso que nos dá pistas importantes para a história é que Hermano não estava buscando casamento quando conhece Julieta (primeira esposa) , ele se apaixona primeiramente pela voz dela que o faz imaginar a donzela protagonista da referida canção que ele adorava, uma ária de Lúcia de Lammermoor (ópera de Gaetano Donizetti que conta a história de uma donzela que enlouquece e morre por seu amor), e pode ser uma pista para compreender o desfecho da história. 

   Quando Hermano conhece Julieta se apaixona pela sua inconfundível presença.  Ela via o casamento como uma fatalidade e que deviam pertencer uma ao outro de corpo e alma. Ele acreditava que o casamento não devia ser apenas uma união social, mas a união de duas lamas gêmeas inseparáveis. Uma forte representação do amor idealizado, eterno, imaculado. Aqui, podemos observar a idealização do amor para além da questão física, a ideia de almas gêmeas, ligações eternas, etc. e nem a morte os separa aqui, o casamento é colocado de uma maneira romantizada para além do contrato social. Casaram-se por amor e não pelas costumeiras convenções da época. Mesmo depois de morta Julieta, a imagem dela torna-se um espectro vivo e presente na vida de Hermano. 

    Já a jovem Amália, se apresenta como uma garota que desfruta de sua juventude e liberdade de mulher solteira, e não tem a mínima vontade de se casar, mas se sente atraída pela fidelidade e devoção que Hermano tem pela falecida Julieta, ou seja por aquilo que considera  amor ideal.


A IDEALIZAÇÃO DA MULHER

    Essa é uma marca interessante de se observar no romance, a idealização das mulher. Hermano é um homem que tem um ideal de mulher na mente e dentro desse ideal ele não valoriza "forma" e sim "conteúdo". Ele se apaixona pela primeira esposa ao ouvir a sua voz, e casa-se com ela mesmo ela não sendo bela e nem rica, convenções comuns da época. Mas ele se encanta pela sua presença.

    Hermano, só se interesse por Amália somente quando ele a ouve a cantar, pois sua voz o faz lembrar de Julieta por quem se apaixonou também ao ouvir a voz. Ele despreza seus atributos físicos e intelectuais. 

    Quando seu segredo é revelado e toda a sua demência vem à tona, temos então a verdadeira face do fantasma que assombra Hermano. Desde o princípio ele nunca amou nem Julieta e nem Amália e sim um ideal de mulher baseado numa certa pureza, numa essência de padrões inventados por ele e no qual ele tentou encaixar as mulheres reais que ele conheceu. Falhou ao tentar lidar com essa ilusão, e tenta fugir disso. 


POSSÍVEIS LEITURAS

    Não achei uma grande história e talvez não seja o melhor de José de Alencar. O personagem principal me dava nos nervos enquanto lia. Que cara chato! Porém, trata-se de um livro no mínimo curioso, por apresentar em sua narrativa, vários elementos que foram retomados em outros romances posteriores, por exemplo: segundas núpcias do homem de posses, o fantasma da falecida que assombra  a nova esposa e a impede de ser a dona da casa, a personalidade obscura do marido que só se explica no final mediante a descoberta de um segredo, o "exorcismo" do fantasma da primeira esposa através de um jogo psicológico de inversão de perspectivas, um incêndio fatal e a maternidade como consolidação da nova união e promessas de viverão felizes para sempre. 

    Esses elementos te fizeram lembrar de alguma outra história? Certamente, pois eles estão presente em A Sucessora de Carolina Nabuco (resenha aqui), em Rebecca de Daphine du Maurier (resenha aqui), e também em vários outros romances do século XIX e começo de século XX. Histórias diversas, muitas escritas por mulheres , porém com diferentes desenvolvimentos. 

    Sobre esses semelhanças e principalmente sobre as diferenças fiz uma análise que você pode LER AQUI. 

    De toda forma, acho interessante a leitura deste livro tanto para conhecer melhor a obra de José de Alencar, mas  principalmente se você tem interesse nesses temas recorrentes em romances dessa época e no curioso caso da semelhança entre os romances citados acima.


SOBRE O AUTOR

José de Alencar, (Messejana, atual Fortaleza- CE, 1 de maio de 1829 — Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1877)  foi um escritor e político brasileiro. Notável como escritor por ter sido o fundador do romance de temática nacional, e por ser o patrono da cadeira fundada por Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras.

Na carreira política, foi notória a sua tenaz defesa da escravidão no Brasil quando ministro da Justiça do segundo reinado (ver Gabinete Itaboraí de 1868). Era neto de Bárbara de Alencar, uma heroína da Revolução Pernambucana.

Em 1856, publicou o seu primeiro romance conhecido: Cinco minutos. Em 1857, revelou-se um escritor mais maduro com a publicação, em folhetins, de O Guarani, que lhe granjeou grande popularidade. Daí para frente escreveu romances indianistas, urbanos, regionais, históricos, romances-poemas de natureza lendária, obras teatrais, poesias, crônicas, ensaios e polêmicas literárias, escritos políticos e estudos filológicos. A parte de ficção histórica, testemunho da sua busca de tema nacional para o romance, concretizou-se em duas direções: os romances de temas propriamente históricos e os de lendas indígenas. Por estes últimos, José de Alencar incorporou-se no movimento do Indianismo na literatura brasileira do século XIX, em que a fórmula nacionalista consistia na apropriação da tradição indígena na ficção, a exemplo do que fez Gonçalves Dias na poesia.

É considerado um dos grandes nomes da literatura brasileira.

Karina Guedes
@okarapoetica

sexta-feira, 1 de maio de 2020

METADE CARA, METADE MÁSCARA - Eliane Potiguara

Metade Cara, Metade Máscara é um livro muito interessante escrito por Eliane Potiguara, escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica potiguara de seus avós.  Neste livro revela-se uma escrita literária que mescla diferentes gêneros textuais. 

No início são apresentadas informações e reflexões sobre identidade, invasão das terras indígenas e migração. Acontecimentos que vão colocar os povos indígenas em marcha e em luta pela sobrevivência.

Ao relatar de forma brilhante a diáspora indígena, a autora denuncia verdades sobre o doloroso processo de colonização, chamando atenção para as questões que tangem especialmente a mulher indígena.  O olhar feminino está presente em toda obra, colocando em evidência o universo feminino com textos que abordam: amor, família, pertencimento, violência, identidade e direitos humanos, entre outros temas. E essa temática se concretiza em torno das histórias das mulheres, ou seja, aquelas que não foram contadas.

Ancestralidade, espiritualidade, culto a terra e a busca pela preservação da identidade são assuntos abordados e colocados em questão pela autora. A narrativa se encerra tecendo uma verdadeira evocação de luta e resistência. Toda essa presença indígena traduzida numa composição lírica inclassificável, se desenvolve numa trama minuciosamente construída entre a prosa e a poesia.

A tessitura da composição estética traz sons, cores e vozes de povos que contam sua própria história, fazendo-se sujeito e personagem ao mesmo tempo. Eliane Potiguara cria um caminho didático ao apresentar textos de gêneros diversos, de modo que fica colocado para ao leitor as diferentes portas abertas que ele poderá adentrar para compreender as questões sociais colocadas e posições políticas defendidas. É como se ela usasse diferentes códigos para transmitir a mesma mensagem. 

Ao contar a história e movimentos de Jurupiranga e Cunhataí, a autora vai usar  poesia e prosa poética como forma de transmitir a imagem, presença e trajetória da família indígena simbolicamente representada por esses personagens. A linguagem do livro se dá numa mistura textual, tão bem elaborada que nos envolve, nos intriga e nos comove do começo ao fim. 

Há muito tempo que eu queria ler esse livro e quando finalmente consegui foi um baque forte, porque Eliane tem um jeito muito próprio de narrar, relatar, contar. Os caminhos que ela escolhe para trazer seu pensar são sempre um convite a uma experiência desafiadora de leitura. Tanto do ponto de vista da fruição literária, quanto do ponto de vista da reflexão política. Ela nos envolve, nos faz pensar e ver tudo com outro olhar. O olhar de quem durante todo esse tempo, esteve do outro lado, o lado dos oprimidos e silenciados. E isso mexe com a gente, nos transforma. 

Ao final da leitura a sensação foi como se aqueles personagens indígenas de que tanto ouvimos falar nas aulas de história, de repente saíssem do livro e dissessem: Agora sou eu que vou falar. Ouça. E você se vê, não diante de uma nova versão da história, mas sim de outra história. Aquela não contada, escondida embaixo do tapete, ou até mesmo apagada da chamada historiografia oficial. 

Ler Eliane Potiguara é como receber um orelhão na cabeça, porque não é só uma ficha que cai, são várias. Ela tem um jeito didático/poético/único de contar verdades e nos ensinar a reconhecer mentiras. Aliás, essa foi uma impressão que ficou muito forte para mim, quanta mentira nos contam sobre os indígenas e nós na inocência ou na preguiça, simplesmente acreditamos.

Tenho dedicado um tempo da minha vida e do meu coração, para entender os movimentos indígenas. E  ler a literatura que se escreve a partir daí, para mim é sempre a melhor e mais deliciosa trilha. Adoro ler livros, artigos, músicas, textos de todos os tipos escritos por indígenas, porque é como se eu adentrasse nas aldeias, das florestas ou cidades, como convidada e não como intrusa. E eu adoro ser convidada a conhecer o outro a partir de sua própria perspectiva. Para mim é uma honra.


SOBRE O AUTORA:  

Profª Eliane Potiguara é escritora, poeta, ativista, empreendedora social de origem étnica potiguara de seus avós, migrantes nordestinos. É formada em Letras e Educação pela UFRJ e extensão em Educação e Meio ambiente pela UFOP. É contadora de histórias. Nasceu em 29/09/1950 na cidade do Rio de Janeiro. Recebeu o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil pelo Ministério da Cultura entregue em mãos pela Presidência da República. Fellow da organização internacional Ashoka (empreendedores sociais), fundadora do GRUMIN (Grupo Mulher - Educação Indígena) e Enlace Continental de Mujeres indígenas e Embaixadora da Paz pelo Círculo de Escritores da França. Participou da elaboração da Declaração Universal dos Povos Indígenas/ONU por 6 anos nas sessões em Genebra. Possui 7 livros publicados. Teve seus textos publicados em diversos sites, antologias e e-books nacional e internacional. Premiada pelo Pen Club da Inglaterra e Fundo Livre de Expressão (USA). 

EMBAIXADORA UNIVERSAL DA PAZ: Eliane Potiguara foi nomeada Embaixadora Universal da Paz em Genebra (Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix – Genebra – Suíça). 

Além de tudo isso que está na biografia oficial em seu site, ela é também uma pessoa muito, mas muito gentil, maravilhosa e inspiradora que eu tive a honra de conhecer pessoalmente numa festa literária. 💗Site: http://www.elianepotiguara.org.br


Karina Guedes

@okarapóetica


sexta-feira, 27 de março de 2020

TUDO NELA BRILHA E QUEIMA - Ryane Leão


O cotidiano, as ausências que sobram, as presenças que faltam, feridas abertas, cicatrizes que coçam, Ryane Leão fala de amores e dores com a mesma intensidade. 

À medida que ia lendo este livro por vezes me vi há vinte anos atrás, me jogando sozinha no mundo e enfrentando tudo o que viesse pela frente. Para quem decide se libertar dos padrões de comportamento que a sociedade patriarcal impõe, submissão, casamento, maternidade e a velha moral burguesa às avessas, aprender a resistir e a se reconstruir lutando contra tudo isso é um ato de amor e compaixão para consigo mesma.

O título já diz muito sobre Ryane Leão, ela brilha e queima linha por linha. O amor, as alegrias, revoltas e euforias que transbordam dos versos escritos encontram remanso no peito de quem lê. Afinal, além de verso e ritmo, poesia é também encontro.

As vozes de sua poesia transmitem força, doçura e revolta.     Sentimentos comuns às mulheres que se propõem a questionar sua existência e seu lugar no mundo, assim como criar seu próprio mapa e se aventurar em seus próprios caminhos. A luta e a resistência da mulher negra, são os pilares de sua poética, evocada com sabedoria e amor.

Com uma métrica própria e versos intensos, a autora nos convida a dar vida à nossa voz e nossa poética mais íntima. Afinal, sua poesia é como um chamado para a coragem de questionar, protestar e amar. O diferencial de seu estilo não está só na estrutura estética dos versos, mas também nos temas abordados. Amor, reflexões, desilusões, recomeços, racismo, machismo, luta e muita paixão pela palavra são marcas de seu trabalho. Difícil não se entusiasmar com versos tão empoderadores. Questionamentos, vontade de lutar e reivindicar o seu lugar sem medo de se posicionar. Uma voz poética que ecoa e se expande, indo muito além dos cafés elitizados ou manuais literários acadêmicos de outrora. 

 Ícone da literatura brasileira contemporânea, Ryane Leão é a poesia do hoje, do agora, do momento de luta e amor de cada mulher. É atual, sem ser rasa, simples sem ser supérflua e ao mesmo tempo complexa o bastante para nos levar à reflexões sobre nós mesmos, nossas relações e nossa luta diária.
  
Durante a leitura senti uma vontade imensa de ouvir Nina Simone, Aretha Franklin, Gloria Gayor, Beyoncé, mulheres que usaram a arte como instrumento de resistência e luta. E não só ouvir suas canções, mas compreender suas histórias de vida.  É  absolutamente incrível a sede de conhecimento que uma poesia engajada na concretude das relações sociais pode nos provocar.

Talvez a poesia de Ryane Leão seja um convite a olhar para si mesmo, se conhecer e buscar em nossa ancestralidade toda força de resistência necessária para se manter de pé, de cabeça erguida e em luta. Porém sem abrir mão da capacidade e vontade de amar.



+ SOBRE A AUTORA:

Poeta, professora, Ryane Leão começou a  publicação de seus poemas em lambe-lambes e espalhando pela cidade e também no Twitter.  O projeto @ondejazzmeucoracao, tem milhares de seguidores no Instagram e propõe um grito de poesia e de luta.

Em 2016 realizou uma campanha de financiamento coletivo para o lançamento de seu primeiro livro. No ano seguinte publicou “Tudo Nela Brilha e Queima” (Editora Planeta), marcado pelo ativismo em defesa dos direitos das mulheres negras, que em 2018 lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Jabuti de literatura.

Ryane também é fundadora do Odara- English School for Black Girls, escola de inglês para mulheres negras, onde o trabalho é pautado na resistência da arte e da educação.

Empoderamento e ancestralidade dão um tom de luta na cadência de seus versos. Lançou o segundo livro “Jamais peço desculpas por me derramar” (Editora Planeta) em 2019.

É considerada um nos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

 

Karina Guedes
@okarapoetica




sábado, 22 de fevereiro de 2020

O PAÍS DO CARNAVAL - Jorge Amado


LEITURAS CARNAVALESCAS II

O País do Carnaval conta a história de Paulo Rigger, um brasileiro, nascido na Bahia e que vai a pedido do pai estudar na Europa e por lá fica alguns anos. Ao retornar para o Brasil, Paulo inicia sua jornada buscando dar conta de suas inquietações, de descobrir do significado da felicidade e do sentido da vida. Conhece alguns intelectuais com que estabelece vínculos de amizade e de genuína parceria intelectual. Nos botecos de Salvador o grupo mantem encontros casuais e passam a vida e discutir sobre política, amor, religião e filosofia. Nesse tortuoso caminho que o faz ver o Brasil tal qual o próprio carnaval, cheio de contradições, Paulo Rigger segue uma trajetória que oscila entre transcendência intelectual e acomodação à sua condição de homem burguês, branco e rico. 

Durante esse tempo no Brasil, ele também conhece as alegrias e dores do amor e quando se vê diante de um dilema que coloca em xeque suas convicções intelectuais, nos mostra seu caráter conservador e machista, incapaz de transpor a linha confortável do discurso intelectualizado burguês tão contraditório quanto o país que ele chama o tempo todo de país do carnaval. Um personagem no mínimo intrigante.  

Obra inicial

Este foi o livro de estreia de Jorge Amado aos 19 anos, no ano de 1931. Aqui se apresenta um escritor crítico e talentoso, interessado em questões como identidade, política, mestiçagem, racismo e cultura popular. Todo o embrião de uma vasta obra que conheceríamos nos anos posteriores. Este livro tem um enredo bem simples,  no entanto  a inquietação intelectual e sentimental do protagonista e seu profundo dilema entre razão e emoção, faz do romance juvenil uma obra substancial e revela um autor já preocupado com o enigma Brasil. Penso até que Paulo Rigger, protagonista do romance, se assemelha em partes com o espírito inquieto e juvenil de seu criador que aos 14 anos já figurava na cena literária de Salvador e foi um dos criadores da "Academia dos Rebeldes", que publicava trabalhos em revistas criadas por eles mesmos.

Gostei do livro. Fiquei com a impressão de que naquele momento aos olhos do autor o Brasil era ainda apenas uma festa, mas não qualquer festa. Uma festa completa com música, beleza, gente alegre, muita bagunça, embriaguez coletiva e a funesta melancolia do dia seguinte; ressaca de um povo diferente e misturado, sobreviventes de uma nau meio sem rumo, com capitão errante, tripulação desgraçada e brincante que não se importa muito onde vai chegar, no entanto insiste em partir. Uma narrativa intrigante, criativa, crítica, e com desfecho um pouco pessimista, na minha avaliação.


Sobre o Autor:

Jorge Amado é mais que um clássico da literatura brasileira, sobretudo da literatura que retrata o Brasil-Bahia, o Brasil- Crioca, o Brasil-Brasil, a cultura popular do povo mestiço e dos infortunados e abandonados do sistema capitalista. Crítico e ousado, trouxe para sua obra nuances da rica diversidade da cultura popular brasileira. Um escritor atemporal, cuja obra já foi publicada em mais de 50 países e é talvez o escritor mais adaptado da dramaturgia brasileira. 


Karina Guedes
@okarapoetica


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ANTES DO BAILE VERDE - Lygia Fagundes Telles


LEITURAS CARNAVALESCAS I

Adoro contos! Sem dúvida é um dos meus gêneros favoritos e Antes do Baile 
Verde é um livro excelente que nos permite experimentar um pouco da deliciosa prosa de Lygia Fagundes Telles. 

Cada história, um mergulho na astúcia e talento da autora em capturar nossa atenção e nos intrigar com dramas envolventes. Inveja, ódio, amor, posse, ciúmes e malícia, entre provocações e reflexões, as histórias são cheias de ironias acerca do comportamento humano e de nosso senso de humanidade, ou falta dele. Seus personagens são revelados em detalhes, ficando nus e expostos ao nosso olhar ora surpreendido, ora desconfiado, mas sempre curioso com o próximo passo. A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.

O conto que dá nome ao livro, é um convite a reflexão sobre vida e morte, responsabilidade e fuga da realidade, contradições internas alegoricamente representada simbolicamente por nossa festa mais popular, o carnaval. Que serve de pano de fundo para o desenvolvimento do drama de duas mulheres de classes distintas e opostas diante de um dilema ético cujo desfecho não é nem um pouco o mais esperado.  Já o conto Verde Lagarto Amarelo expõe a fragilidade das relações familiares, uma perturbadora narração de um personagem passivo/violento que dilacera seu inimigo com palavras afiadas e cortantes. E assim, sucessivamente cada história nos dá a breve sensação de uma viagem ao mundo peculiar de cada protagonista, seus anseios e devaneios, medos e loucuras, seus sofrimentos e contradições.  Antes do baile Verde reúne contos escritos por Lygia entre 1949 a 1969 e são apresentados em ordem decrescente do mais antigo ao mais recente.

Para quem ainda não conhece a vasta obra da autora, este pode ser um bom começo. E se ao final da leitura você sentir um desconforto estomacal e ao mesmo tempo uma sensação de euforia, não se preocupe. Significa apenas que você se embriagou com as 18 doses de Lygia Fagundes Telles, servidas no livro.


Sobre a autora:
Lygia Fagundes Telles dispensa apresentações. Premiada escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Além de advogada, romancista e contista, Lygia tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.


Karina Guedes
@okarapoetica


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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO - Angélica Freitas

Simplesmente amo poesia, vocês sabem. Mas tem um tipo de poesia que me encanta mais, que é aquela que me tira da zona de conforto, me intriga e leva para algum lugar para além do chão batido do cotidiano.  Acho que já disse isso por aqui...

um útero é do tamanho de um punho foi minha última leitura de 2019, e que leitura! Posso dizer que encerrei o ano com chave de ouro. A poesia de Angélica Freitas nos trasntorna, nos desajeita, incomoda e ao trazer em versos questões do chamado feminino, faz pensar naquilo que muitas vezes deixamos pra lá, pra depois, tudo aquilo que incomoda em ser mulher. 
A cobrança pela aparência padrão, pela maternidade, os preconceitos de gênero, homossexualidade, transsexualidade. Enfim, não é um livro que me faz ficar divagando, sonhando ou inebriada com a sonoridade das palavras, não. Fiquei tonta, inquieta, com raiva às vezes e rindo em outras. Seus versos são carregados de questionamentos, de incômodos e bastas. Mas são também cheios de ironia e sarcasmo, que nos faz até rir de certos absurdos do patriarcado. 

Com um estilo muito único e original, a poesia de Angélica Freitas vai nos tomando verso a verso, página por página. Em seus versos livres e bem articulados, contemporâneos por assim dizer, são denunciadas as opressões e violências sofridas por nós mulheres e como lidamos com isso.  Numa escrita franca, ela fala do ser mulher de uma maneira autêntica que faz coro com nossas vozes mais íntimas.

Agélica contou em entrevista ao Estratégias Narrativas, que quando criança ganhou de presente uma enciclopédia chamada O mundo da criança, e o primeiro volume  era de Poesia para criança, ao ler foi tomada de uma alegria enorme por achar aquilo uma brincadeira, um jogo e essa foi a sua entrada na poesia, lendo poesia para criança, uma poesia mais lúdica e que de certa forma influenciou seus primeiros poemas que eram cheios de humor. E a partir daí descobriu um imenso prazer em escrever poemas.
É visível que o humor e até mesmo a ludicidade fazem parte de sues versos até hoje. A autora brinca com as palavras num jogo poético que ora faz rir, ora faz pensar, ao mesmo tempo que diverte, inquieta.

"im itiri i di timinhi di im pinhi
quem pode dizer que tenho um útero
(o médico) quem pode dizer que funciona (o médico)
i midici
o medo de que não funcione
para que serve um útero quando não se faz filhos


para quê


piri qui"


Questionamentos, reflexões, inquietações. Tudo isso veio à tona enquanto eu lia e acho que não é um livro pra ler e encostar na estante, pelo contrário, é pra ler e reler, porque o tema abortado é um tema que não se esgota: Mulher! ou Mulheres! ou Nós!
O poema que mais gostei é o que dá nome ao livro, ele traz uma reflexão profunda sobre a propriedade do corpo da mulher, quem manda em nosso útero? Por que temos que passar por tantas instituições, estado, igreja, família, para poder decidir sobre nosso próprio corpo?

"pra que serve um útero quando não se faz filhos", esse verso me tocou sensivelmente, pois vem de encontro a uma reflexão que tenho feito nos últimos anos, a não-maternidade. Parece ser fácil, escolher não ter filhos, porém não se pode fugir do tribunal armado que a sociedade nos reserva pelo simples fato de você não querer cumprir um papel ditado pelo patriarcado. Quando você diz não quero ter filhos, logo vem a pergunta, "mas então o que você vai fazer da vida?" Como se parir fosse nosso único propósito.

Pra terminar, devo avisar aos leitores interessados que caso não tenha nenhuma familiaridade com os temas abordados, seria interessante ler a respeito antes. Acredito que pode tornar a leitura mais saborosa.


Sobre a autora:

Angélica Freitas, poeta e tradutora. Nasceu em Pelotas, RS em 1973. Chegou a cursar Letras mas desistiu do curso porque queria mesmo era escrever. Afinal escreve poemas desde de quando era criança. Formou- se em jornalismo e mudou-se mais tarde para São Paulo, onde trabalhou como repórter para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Informática Hoje.

Publicou o livro Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2013). Angélica Freitas foi coeditora, com os poetas Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, da revista de poesia Modo de Usar & Co.

Seus poemas já foram publicados e traduzidos na  Espanha, México, Estados Unidos, Alemanha e França.


Karina Guedes
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sábado, 30 de novembro de 2019

VENDO PÓ...ESIA! - Rodrigo Ciríaco

Gosto de poesia que me tira do lugar, me arranca o chão batido do cotidiano. E definitivamente esse livro do Rodrigo Ciríaco é dessas poesias de fazer a gente gritar, de raiva, de alegria, de indignação e de paixão. Acho que é isso, uma poesia apaixonante. Que rasga o peito e infla-a-alma, inflama, incendeia e nos revela a vida pelas víceras. ADORO!

Vendo Pó...esia! é um livro diferente de muita coisa que se tem lançado por aí. Não só em seu inquietante projeto gráfico, que faz com que você leia até de ponta cabeça, mas principalmente por trazer em seu ritmo uma explosão de sons. Do grito ao sussuro, do barulho ao silêncio. Poemas para serem lidos em voz alta, mesmo no silêncio. Para serem relidos e semeados por aí. Porque acima de tudo são gritos de luta, de manifestAÇÃO de um poeta militante, educador persistente e insistente na arte de provocar. Um poeta da Rua mais do que da lua!  Da Periferia! Da Resistência! Da verdade nua e crua!


Enfim, é difício resenhar esse livro sem entregar o ouro, rs. A poesia do Rodrigo Ciríaco é assim, contagiante! Não se espante se logo depois de ler os primeiros poemas, você sentir uma vontade descontrolada de pegar papel e caneta e começar e desenhar seus próprios gritos. O jogo poético do autor é sedutor, ele te provoca e você aceita e logo grita tua manifestAÇÃO também!
Recomendo este Pó...esia, três dosses ao dia. Só pra começar.

A primeira vez que vi o Rodrígo em cena, foi no Sarau da Cooperifa há uns 13 anos. E de lá pra cá acompanho suas redes sociais e projetos literários. Sempre o vi como um escritor e educador muito engajado e mais do que isso muito entregue e disposto ao trabalho que desenvolve. Recentemente participei de uma oficina ministrada por ele, "A Pedagogia dos Saraus", foi muito incrível. Ele é um genuíno provocador poético,  desses de fazer você sentir vontade e sede de poesia, simples assim.
Em seu trabalho segue semeando vontades literárias por onde passa e de certa forma, essa peregrinação poética está presente em seus textos. Trazendo para o papel sempre um olhar crítico sobre a sociedade e sobre nosso próprio modo de estar neste mundo.



Um pouco mais sobre o autor:

Rodrigo Ciríaco é educador e escritor, autor dos livros “Te Pego Lá Fora”, “100 Mágoas” e “Vendo Pó…esia”. Participa há mais de 10 anos do movimento de saraus da periferia. É idealizador do projeto “Literatura (é) Possível”, que desde 2006 desenvolve ações de incentivo a leitura, produção escrita e difusão literária em escolas públicas estaduais e municipais, com o “Sarauzim – Sarau dos Mesquiteiros”. Foi autor convidado do Salão de Paris (2015 e 2013), FELIV – Festival do Livro e Literatura Infanto-Juvenil da Argelia (2014), 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (2014), FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (2011), entre outros.




Karina Guedes
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