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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

INTO THE WILD - Jon Krakauer + presentinho no final da resenha.


"dois anos ele caminha pela terra. sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros,. liberdade definitiva. um extremista. um viajante estético cujo lar é A ESTRADA."

(Grafite no Magic Bus, escrito por Chris McCandlles)

Into the Wild ( Na natureza Selvagem), conta a história de Christopher Johnson McCandless, um jovem de uma família abastada da costa leste dos Estados Unidos que foi de carona até o Alasca e adentrou sozinho a região selvagem e desabitada ao norte do monte McKinley. Quatro meses depois, seu corpo decomposto foi encontrado por um grupo de caçadores de alce. No verão de 1990, logo após se formar, com distinção, na Universidade Emory, McCandless sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira. Inventou então uma vida nova para si, instalando-se na margem maltrapilha de nossa sociedade, perambulando pela América do Norte em busca de experiências cruas, transcendentes. Sua família não tinha ideia de onde estava ou que fim tivera até que seus restos apareceram no Alasca. (nota do autor)

Uma história tocante

Meu primeiro contato com essa história foi através do filme Into the Wild (2007), adaptação dirigida por Sean Penn. Na época fiquei absolutamente cativada pela trajetória de Christopher McCandless e sua aventura. Confesso que a trilha sonora composta por Eddie Vedder contribuiu muito para isso, acho que a profundidade poética das letras dialogam perfeitamente com o espírito da história, somadas ao drama e carisma do personagem principal, nos levam a trilhar com ele e se emocionar com sua fatídica aventura.

No entanto, demorou uns seis anos para que pudesse ler o livro que deu origem ao filme e acho que isso foi bom. Primeiro, porque talvez se eu tivesse lido antes provavelmente não teria me envolvido tanto, pois ainda estava muito influenciada pelas imagens do filme. E segundo, porque as melhores trilhas da minha vida, fiz nesse intervalo de tempo. Portanto, esse distanciamento contribuiu para que eu fosse absolutamente absolvida pela narrativa do livro. E mesmo já conhecendo o desfecho da história, me envolvi e me emocionei página por página, com direito a lágrimas e soluços. Existe algo na história de McCandless que só quem já se aventurou na natureza ou descobriu o prazer de estar sozinho, é capaz de compreender. 

O filme é lindo e comovente, tem uma trilha sonora maravilhosa e tals, mas nos dá uma visão romantizada na história do Chris. Já a narrativa, não menos apaixonada de Jon Krakauer,  nos revela em profundidade o drama da vida do jovem aventureiro. Não se trata aqui da velha questão livro x filme, até porque para mim essa questão nem existe. Cinema e literatura são linguagens diferentes e uma nunca vai ser igual a outra. Jamais vejo uma adaptação literária para o cinema com a intenção de que o filme seja idêntico ao livro. Cada linguagem tem seus recursos próprios para contar uma história. Tendo isso em mente, torna-se inevitável  reconhecer as diferenças entre um e outro e se divertir com isso, pois reconhecer as diferenças construtivas torna a leitura mais completa.

No caso aqui ambos são ótimos, mas o livro obviamente contém mais detalhes e informações que nos levam a compreender a jornada de Chris McCandless com menos julgamento e mais empatia.


Diferenças construtivas 

A primeira coisa que faz diferença no livro é o foco narrativo. A história é contada a partir do relato apaixonado de Jon Krakauer que pesquisou profundamente a história de Chris, fazendo inclusive o mesmo percurso, coletando materiais para compor o livro. A narrativa entrelaça relatos de pessoas que conheceram e conviveram com Chris McCandless durante e até mesmo antes de sua aventura, com as reflexões e observações do autor. 

Ao refazer a trajetória de McCandless, Jon faz um paralelo entre a história dele com sua própria história. O que também é um aventureiro, alpinista, nos conta uma experiência semelhante em muitos aspectos com a que Chris passou, porém com um final mais feliz. Então, essa perspectiva narrativa faz toda a diferença ao acompanharmos a trajetória daquele que viria a se tornar o famoso Alexander Supertramp. 

Outro ponto importante é que os conflitos familiares que culminaram no distanciamento e até mesmo a repulsa de Chris pelos seus pais, são revelados em maiores detalhes. O que nos leva a ter uma compreensão diferente de diversos enigmas de sua trajetória, inclusive do final dela. 

O filme termina com o que seria a grande epifania de Chris, “a felicidade só existe quando compartilhada”, em meio a imagens de supostas lembranças de sua família.

Mas no livro, que poderíamos até chamar de documental devido a riqueza de material apurado, nada nos leva a compreender que Chris teria ao final da vida, perdoado seus pais. O que podemos compreender a partir dos registros de seu diários e relatos das últimas pessoas que estiveram com ele, é que ele cumpriu seu propósito e se sentiu pronto para voltar. Porém, nada entre esses registros nos leva a pensar que esse voltar seria para a casa de seus pais, para o seio familiar, como sugere o filme. Acho que esse é um ponto muito interessante da história e que obviamente carece de mais investigação da minha parte, mas, por hora é como interpreto a questão. 

Uma pista para melhor interpretar essa questão seria ler o livro Dr. Jivago, que foi o livro que ele leu por último e ao que tudo indica o influenciou nesta epifania. Trata-se um livro bem controverso e polêmico acerca dos desdobramentos da Revolução Russa. Alguns o consideram uma crítica ao comunismo, enquanto outros dizem que se trata de uma apologia ao comunismo. Apesar de ficar claro durante a narrativa que Chris era avesso a “lados políticos definidos”, chegando a ser até controverso em suas posições, parecendo muitas vezes um anarquista nato, outras vezes nem tanto, algo me diz que a compreensão mais profunda de Dr. Jivago pode nos dar boas pistas dessa questão enigmática de sua jornada. 

O terceiro ponto interessante na narrativa de  Jon Krakauer é a descrição da paisagem. Dá vontade de entrar no livro e fazer parte da história. A maneira como ele retrata as paisagens de toda a trajetória de Chris, principalmente da Stempede Trail e do Monte McKinley, é emocionante e envolvente com um tom de paixão intenso. Afinal, quem narra é também um aventureiro de alma selvagem e tem sua vida completamente envolvida com a natureza. Assim, as paisagens descritas dos lugares visitados por Chris se entrelaçam com as paisagens dos lugares visitados por Jon, dando certa intensidade ao mergulho na natureza selvagem e alimentando ainda mais nosso desejo de aventura. Quando digo nosso, refiro-me aos amantes do contato com a natureza e com essa prática tão ancestral e perturbadora que é seguir em trilhas por caminhos desconhecidos e atraentes do mundo natural. Tem gente que simplesmente precisa ir, e vai... 

E porque essa história é tão fascinante e tem movido pessoas em torno dela há mais de 30 anos?

Diversos motivos nos causam empatia pela trajetória de Chris McCandless, seja pela paixão por esportes radicais, por trilhas, aventuras e desafios de todos os tipos. A natureza desconhecida é sem dúvida um tema muito atraente para muitas pessoas. A possibilidade de testar nossos limites físicos e emocionais, o desafio da superação e da resistência, fazem parte da trajetória narrada nesse livro e isso se conecta com nossos instintos mais primitivos e ocultos dentro de nós. A (des) conexão ser humano-natureza, nos provoca reflexões e emerge conflitos sobre nosso papel e propósito no mundo. E talvez o fato de que assim como Chris, também sentimos repulsa à hipocrisia da sociedade e da escravidão institucionalizada pelo sistema capitalista em que estamos submetidos. 

O tema do desapego é também central nessa história, ele parte rumo ao desafio de desapegar de um mundo pré-fabricado, com regras pré-estabelecidas e valores pré-definidos e sai em busca de algo, que nem ele mesmo sabe exatamente bem o que é, ele simplesmente vai de encontro ao mundo selvagem onde acredita, a princípio, ser o oposto a tudo isso que conhece.  Esse chamado à rebeldia, de renegar um mundo que não fora construído por nós mesmos é sem dúvida muito atraente, sobretudo aos espíritos mais livres. 

De todos os motivos que me fascinam nessa história, o que mais me toca é o sentimento de solitude.  E a solitude não é a mesma coisa que a solidão. 

Solidão está geralmente associada a dor de estar só, sendo algo negativo, pois quem tem esse sentimento dentro do peito, deseja estar na companhia de alguém. 

Solitude está associado a glória de estar sozinho, pois revela-se uma satisfação imensa em não precisar da companhia de outra pessoa para sentir-se bem, sentir-se pleno.

Tem um texto muito bom sobre essa diferença no site Fãs da psicanálise, onde o autor Felipe de Souza escreve o seguinte: 

“De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra solitude é um palavra de uso poético. A poética, por sua vez, remete tanto à produção de algo novo como à apreciação e criação da beleza. Ou seja, a solitude permite o tempo e o espaço e o silêncio para fazer o útil ou o belo. Também permite não fazer nada. Também permite desenvolver a espiritualidade, encontrar-se enquanto uma pessoa diferente dos demais e se aceitar como se é – independentemente da aprovação do outro...”

E essa ideia é totalmente refletida na trajetória de Chris, principalmente quando ele adentra ao Parque Nacional Denali rumo a sua caminhada transcendental. Através das anotações de seu diário e principalmente das fotos que ele fez durante esse período, é possível ver esse sentimento em seu semblante. Talvez não possamos dizer que a solitude esteve em seu espírito cem por cento do tempo, mas os registros sugerem que pelo menos uma boa parte sim.   

Na última foto, em que segura um bilhete de despedida, pois já sabia que a morte estava a sua espera, é possível ver em seus olhos, a serenidade de quem percorre um longo percurso para dentro de si mesmo, se encontrou e se realizou. 

Quem passa pela experiência de ficar sozinho em algum momento da vida e se permite experimentar a solitude, aprende algo de extremo valor para a sobrevivência humana: não ser emocionalmente dependente de ninguém. Aliás, nenhum tipo de dependência é interessante para o desenvolvimento de uma vida saudável, plena e liberta. Mas acho que a dependência emocional pode ser das piores amarras que alguém possa ter na vida. Pois, ela nos leva ao aprisionamento do que há de mais íntimo em nosso ser: o desenvolvimento da capacidade de bastar-se e ser completo em si mesmo. 

E porque isso é importante? 

Porque uma pessoa que se sente completa por si só, jamais vai aprisionar alguém para suprir suas carências afetivas, uma vez que não as tem. E tampouco vai se deixar ser aprisionado. Não consigo ver mais representação do sentimento de libertação do que esse, a não necessidade emocional do outro.

Isso não significa que não precisamos dos outros ou da vida em sociedade. Viver em conjunto é produtivo e é natural estabelecermos vínculos e parcerias ao longo da vida. Ajudar e ser ajudado, apoiar e ser apoiado, assim como realizar trocas honestas e equilibradas de afetividade. Porém, essas relações que estabelecemos com o mundo e pessoas à nossa volta, não podem custar o aprisionamento da nossa alma. Acredito que é isso que a solitude pode nos trazer, além de estado de satisfação plena consigo mesmo, um estado de independência emocional do outro, o que nos torna pessoas mais libertas e mais completas.

 O que penso da história de Alex Supertramp? 

Bem, a intensidade da narrativa do livro me fez chegar a seguinte conclusão: não se trata só da história de um aventureiro. Trata-se de uma trajetória autêntica de busca de autoconhecimento, de coragem para viver de acordo com seus próprios princípios. Um belo exemplo de autenticidade: pensar, desejar, estabelecer uma meta e buscá-la. Manter o foco e não desistir jamais. Mesmo quando tudo à sua volta lhe disser não. Lutar pelo sim até o final. 

Chris McCandless conquistou seu objetivo, chegou ao Alasca, viveu da natureza, transcendeu à vida selvagem. Encontrou respostas e decidiu voltar. Porém, o acaso do destino lhe trouxe uma surpresa, essa talvez tenha sido a única derrota de Chris, a sorte que lhe faltou num momento crucial.

Alguns vão questionar, porque ele não se preparou mais ou não estudou melhor a região antes de se aventurar por terras desconhecidas. Bem, talvez porque não era esse o propósito. Ele não estava fazendo uma expedição de reconhecimento de área, ele estava vivendo sua grande aventura de vida. Ele não queria dominar a natureza e sim vivê-la. Integra-se a ela através de uma relação ser-humano-natureza mais primitiva possível. Esse era seu propósito e não bater recordes esportivos ou fazer turismo. Ao compreender isso, parei de julgá-lo. 

E de repente a história fez muito sentido. Ele viveu o que se propôs a viver, de forma liberta e de acordo com seus próprios ideais.

A narrativa apaixonada do autor também contribui para que possamos seguir Chris em sua jornada sem julgá-lo. Acho que essa é uma rota interessante de seguir para leitura do livro. Tentando se colocar no lugar daquele jovem tão obstinado, corajoso e convicto de suas ideias.  Isso não é romantizar a trajetória, e sim vivê-la junto com ele. Acredito que essa rota pode nos levar a uma leitura mais profunda e muito mais emocionante. E compreender que a grande aventura de Chris é também uma tragédia com a qual podemos aprender muito e  chegarmos ao final da última página diferentes de quando iniciamos a primeira. Tal como acontece quando colocamos os pés numa trilha, mergulhamos profundamente em sintonia com o caminho, superando obstáculos, compreendendo cada vez mais o trajeto e se maravilhando com a beleza do percurso. Ao final da trilha, não somos mais os mesmos e isso é libertador. 


SOBRE O AUTOR: 

Jon Krakauer (nascido em 12 de abril de 1954) é um escritor e montanhista americano. Ele é o autor de best-sellers de livros de não ficção - Into the Wild; Into Thin Air; Sob a Bandeira do Céu; e Where Men Win Glory: The Odyssey of Pat Tillman - bem como vários artigos de revistas. Recebeu um Oscar de Literatura da Academia Americana de Artes e Letras. De acordo com a citação do prêmio, “Krakauer combina a tenacidade e a coragem da melhor tradição do jornalismo investigativo com a sutileza estilosa e a visão profunda do escritor nato”.


SOBRE CHRIS McCLANDLESS:

Neste site mantido pela família de Crhis, é possível encontrar muitas informações sobre sua biografia, assim como livros e vídeos a respeito de sua trajetória. 

http://www.christophermccandless.info


MINHA DICA PARA UMA LEITURA MAIS PROFUNDA LEITURA DESTE LIVRO:

Se você nunca fez um trilha antes, experimente. Se você pretende ler esse livro e nunca fez uma trilha, faça uma primeiro. Se você nunca ficou sozinho, desconectado do mundo por pelo menos um final de semana, experimente isso antes de ler esse livro. Acredite, tais experiências farão sua leitura ser muito mais intensa e emocionante. 

💟Deixei por aqui um presente pra você: baixe o e-book com algumas imagens da Stampede Trail, para mergulhar na paisagem enquanto lê o livro. Clique aqui. Se não conseguir abrir deixe seu e-mail nos comentários, que envio pra você.😉😊


Karina Guedes

@okarapoetica


domingo, 13 de outubro de 2019

FRANKENSTEIN OU O PROMETEU MODERNO - Mary Shelley

 


Frankenstein ou o Prometeu moderno, é um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, escrito por Mary Shelley aos dezenove anos de idade.

A primeira vez que li esse livro foi  há muitos anos numa versão resumida dessas edições de primeiras leituras, um texto bem raso. Talvez por não ser o texto completo, não consegui captar a essência e intensidade desta história fascinante.

Desta vez, lendo o texto completo numa edição bilingue, simplesmente amei esta obra. Foi como se estivesse lendo pela primeira vez. 

Que texto! 

Uma narrativa incrivelmente envolvente, com personagens intensos e que nos convida a fazer algumas reflexões acerca do ser humano, da sociedade, da liberdade, do amor, dos males que assombram nosso espírito e nosso destino. 

Porém, publicá-la não foi algo fácil. O mercado literário que nunca foi muito aberto às mulheres, em 1818 era ainda mais exclusivo e dominado pelos homens. O trabalho de Mary Shelley foi rejeitado por vários editores e muitos ainda duvidavam de sua autoria, sugerindo que a criação pertencia ao seu marido, afinal Percy Shelley era um poeta bem conhecido. A primeira edição foi publicada anonimamente em três volumes, como de costume a época, e com o prefácio de Percy Shelley. Na segunda edição Mary já figurava como autora da obra e na terceira edição de 1831, talvez a mais popular publicada em volume único, ela escreve uma introdução que narra a sucessão de eventos que a levaram a compor a obra. 

A edição que acabo de ler foi a primeira lançada em 1818, considerada por muitos especialistas a que conserva melhor o verdadeiro espírito da obra, pois ainda não sofrera as alterações e nem as revisões que a própria autora fez depois. 

Confesso (é notável) que é com muita paixão que escrevo estas linhas. Esta história de certa forma me tocou desde a primeira leitura. Porém, relê-la dezessete anos depois me trouxe várias percepções e reflexões que eu não tinha tido anteriormente.

A começar pela genialidade da autora. Mary Shelley tinha apenas 19 anos quando escreveu esse romance. Através de sua história, ela cria não a penas uma brilhante narrativa, mas também um novo gênero literário: a literatura de ficção científica. 

Filha de Mary Wollstonecraft , escritora inglesa do século XVIII, filósofa, defensora dos direitos das mulheres e de William Goldwy, jornalista inglês, filósofo, político, novelista, considerado um dos criadores do Anarquismo. Mary cresceu numa família de questionadores e isso estará presente em sua obra, pois seu livro apresenta alto teor filosófico e faz com que seja não apenas uma história de terror que perturba, mas também que comove e faz pensar.

Seu estilo é marcado por uma escrita elegante e sofisticada, mas sem ser presunçosa. Poética sem ser pedante e que prende o leitor a cada página com a envolvente cumplicidade das cartas. Através da narrativa epistolar, a autora utiliza-se do recurso estilístico do ponto de vista. Ora a voz narrativa é do criador, ora da criatura, ora do capitão que reconta a história que acabara de ouvir para sua irmã distante. Esse contar e recontar faz com que a narrativa ganhe alto teor de argumentação, deixando o leitor muitas vezes em dúvida em relação a que partido tomar, se do criador ou da criatura. Ou de ambos.

As personagens são intensas e de personalidades bem marcantes, como a meiga e bondosa prima Elizabeth, o amoroso e compreensivo pai Alphonse Frankenstein, o ingênuo e deslumbrado amigo Clerval, o orgulhoso e obstinado Victor Frankenstein e a enigmática e cativante Criatura, são alguns exemplos. 

Considerado um grande romance do gótico inglês, movimento que se inicia na arquitetura da idade média e depois se expressa também na literatura, o texto de Mary Shelley apresenta as principais características deste estilo como certas visões do terrível na natureza,  as tempestades fortes, raivosas, assustadoras, ambientes que sugerem terror, medo; comportamentos e situações estranhas e criaturas de origem sobrenatural. Porém, traz também marcas do romantismo, como valorização desta natureza imponente e grandiosa, da emoção, do instinto. A dicotomia entre o sagrado e o profano: que por um lado, apresenta um sentimento religioso muito forte e por outro a atração e fascínio pelo demoníaco, pelas ciências ocultas, sentimentos obscuros que podem levar o homem ao crime e a atitudes pavorosas.  Um texto magistral, uma obra que merece ser lida.


RESUMO DA HISTÓRIA

Não irei expor aqui todos os detalhes do texto, meu resumo contém apenas as partes mais significativas para a análise, porém será inevitável revelar partes do enredo.

Tudo começa quando o jovem viajante Robert Walton durante uma expedição com destino ao Polo Norte, em determinado ponto de sua viagem após ser impedido de avançar por um bloqueio de gelo, encontra um homem em frangalhos num trenó quase à beira da morte. Este homem é resgatado e fica aos cuidados de Walton que havia acabado de escrever uma carta a sua irmã lamentando a solidão e a falta de ter um amigo íntimo. 

O homem resgatado chama-se Victor Frankenstein e depois de algum tempo começa a contar a Walton sua história no intuito de lhe passar alguns conselhos.  O relato começa com Victor contando sobre sua infância e sua educação, que fora livre e culturalmente rica. Desde a infância já se mostrava curioso e interessado em compreender os fenômenos naturais. Filho de família abastada teve a oportunidade de estudar em boa escola e ir à universidade. 

Em seus primeiros passos nos estudos se aproximou de autores alquimistas, mas na universidade tornou-se estudioso das ciências naturais especialmente de química. Foi nesta época, vivendo afastado da família e mergulhado em estudos que Victor à medida que se destacava na universidade tornou-se obcecado pela investigação sobre a criação da vida. Dedica-se por quase dois anos a essa pesquisa e descobre, de modo não revelado na história, como reavivar tecidos mortos e então se empenha em um projeto quase suicida de criar um ser humano. Trabalho que lhe suga toda saúde física e mental, mas que conclui com êxito. Victor finalmente dá vida à Criatura. Porém, esta não é dotada de harmonia e beleza como ele havia imaginado e nem é uma pessoa ainda. Surge horrenda como um cadáver ambulante e só. Victor se apavora com sua criação, a rejeita e a abandona. A rejeição e o abandono, serão os primeiros sentimentos conhecido pela criatura e isso será marcante e determinante em seu destino.

A criatura some, depois de um tempo Victor decide voltar para casa de seu pai e descobre que seu irmão caçula havia sido assassinado. A pessoa culpada pelo crime é Justine, uma inocente criada e Victor logo descobre que o verdadeiro assassino é o monstro que ele criou. Mergulhado em sentimento de culpa e tristeza, Victor inicia um duelo com a criatura e com sua própria consciência. Não pode contar a todos o que realmente sabe, pois seria tido como louco e ao mesmo tempo não tem forças para enfrentar o monstro que criara. Desde a morte da mãe de Victor e as mortes de seu irmão e de Justine, a família se vê em um ciclo de desgraças e tristezas. Diante disso seu pai propõe que a família se retire para o campo por uns dias e então a família viaja. Num belo dia em que todos estavam descansando na hospedaria, Victor decide ir sozinho até o cume Montanvert e quando chega no alto vê que uma criatura gigante e horrenda o persegue, e que o encontro com seu monstro seria inevitável. 

Para a surpresa de Victor e do leitor a criatura fala e diz que quer apenas conversar e pede para que Victor o escute sua história. E aqui inicia-se as páginas mais emocionantes da narrativa. Até então a autora deixa o leitor conhecer a criatura pelo olhar egoísta e obstinado de Victor e neste momento a Criatura tem a oportunidade de se apresentar e narrar o seu lado da história, numa sequência argumentativa objetiva, lúcida e envolvente. Ao se apropriar da vantajosa capacidade de linguagem que tem os humanos, a Criatura adquire autonomia de pensar e agir.  E relata os eventos que se sucederam depois que deixou o laboratório de Victor e de como conseguiu sobreviver depois de ser rejeitado e abandonado pelo seu criador, de como aprendeu a observar a natureza e a si mesmo. Em sua busca em compreender o sentido da vida, chegou às questões inevitáveis: Que eu sou? De onde venho? Para onde vou?

Em sua trajetória em busca por respostas, conhece uma família de camponeses e lhes observa a certa distância. O cotidiano desta família inspira na Criatura desejo afeto, amor e compreensão. Porém, ao receber apenas preconceito, ódio e maus tratos das pessoas que cruzaram seu caminho, a Criatura desenvolve sentimentos de ira, revolta, inveja e ódio, nutrindo profundo sentimento de vingança contra Victor Frankenstein que o colocou no mundo e o abandonou sem lhe garantir o direito ao afeto e ao amor. E essa revolta o levou a cometer os mais perversos atos, inclusive o assassinato do irmão caçula de Victor.

Ao final da conversa a Criatura faz um comovente pedido ao seu criador, ele diz que apenas deseja uma companhia e pede para que Victor faça uma outra criatura fêmea para ser sua companheira, alguém como ele nas mesmas proporções e deformidades, alguém que possa vê-lo como semelhante e não o rejeite.

Mesmo depois de ouvir o emocionante relato, Victor não consegue perdoá-lo e sente repulsa por ele. E para se livrar da situação desastrosa que criara (ou até mesmo aliviar parte de seu sentimento de culpa).  Apesar de reconhecer sua culpa em toda essa tragédia, sendo ele o criador do monstro e de certa forma culpado pelos desastres que se sucederam desde a conclusão de seu projeto, ele não consegue lidar com as consequências de seus atos.  Mergulha num abismo profundo de depressão e amargura. Toda genialidade de seu ser é consumida aos poucos pelo duelo psicológico travado com a criatura, pois ele lhe deu a sobrevivência, mas não lhe garantiu a vida. E a criatura reivindica seu direito de viver e gozar daquilo que pode ser mais sublime no ser humano, o amor. E esse duelo entre criador e criatura, causará a morte de mais pessoas inocentes, trazendo mais tragédias para a sua família e levará Victor Frankenstein a ruína total. Obcecado e desafiado pela sua criatura, irá persegui-lo até o fim de seus dias, literalmente.


POSSÍVEIS LEITURAS E REFLEXÕES 

1) Os limites da ciência

 Alguns elementos do contexto histórico presentes nos eventos que entrelaçam a trama, dão ao romance uma contemporaneidade que foi impactante na época e ao mesmo tempo se mostra atual até os nossos dias. Como por exemplo, os sentimentos controversos causados pelo avanço das pesquisas cientificas, sobretudo a medicina. Se por um lado ficamos maravilhados com descobertas que trazem curas para nossas doenças, por outro ficamos amedrontados com avanços que estão além da nossa compreensão ou que exigem uma reflexão ética e moral, como no caso das pesquisas sobre clonagem, por exemplo. 

 Até que ponto o ser humano pode e deve interferir na “criação” da vida? Esta reflexão está presente na obra de Mary Shelley começando com o próprio subtítulo “O Prometeu moderno”, referindo-se ao mito de Prometeus que na mitologia grega roubou o fogo dos deuses e deu aos homens, sendo violentamente castigado depois.  Victor que a princípio é apenas um jovem estudante extremamente curioso, se torna um cientista obstinado e sofre as consequências de sua obstinação.

Desde a criação de vacinas, sucesso de transfusões de sangue, aos últimos avanços em pesquisas cientificas envolvendo o DNA humano e a criação de bebês com características escolhidas pelos pais, o debate sobre bioética e os limites da ciência são inesgotáveis. E já lá no séc. XIX Mary Shelley propunha essa reflexão de forma brilhante. 

"Ninguém, a não ser aqueles que já experimentaram, pode experimentar a tentação da ciência."  (Victor Frankenstein)


2) Homem versus Natureza

Esse embate está presente o tempo todo no texto, a natureza é apresentada de forma assustadora e bela, ao mesmo tempo temível e sublime, porém sempre como superior. As paisagens são descritas com minuciosos detalhes e sempre estão relacionadas com momentos de elevação da consciência dos personagens ou conforto psicológico para os mais diversos anseios da alma, ou seja, a natureza se coloca como inesgotável fonte da verdadeira cura. Se sobrepondo aos “pequenos” passos alcançados pelas recentes descobertas científicas época. 

“... como eu já tinha me acostumado à chuva, á umidade e ao frio, decidi ir sozinho até o cume do Montanvert. Lembrava-me do efeito que a vista do imponente glaciar, sempre em movimento, produzira em minha mente quando vi pela primeira vez. Eu fora tomado por um êxtase sublime, que dava asas à alma e permitia que ela levantasse voo desse mundo sombrio em direção à luz e à alegria. A visão do terrível e do majestoso na natureza, de fato, sempre tivera o efeito de elevar minha mente e fazer-me esquecer das preocupações passageiras da vida.” (Victor Frankenstein, ao decidir escalar o cume do Montanvert)


3) Liberdade 

A liberdade é posta em xeque. Afinal, somos livres? Ou a liberdade é uma ilusão que a natureza humana persegue?

“Ai! Por que os homens ostentam uma sensibilidade superior à dos animais? Isso só os torna mais necessitados. Se nossos impulsos se resumissem à fome, sede e desejo, seríamos quase livres; mas somos agora movidos por cada vento que sopre e por uma palavra casual ou uma imagem que aquela palavra possa transmitir.”

Tanto nesta como em outras passagens da narrativa, é sugerido que o conhecimento é ao mesmo tempo glória e ruína dos homens. Somos livres para pensar, porém os pensamentos podem nos trazer sentimentos que nem sempre controlamos, alegria ou tristeza não depende somente da vontade humana. As influências externas condicionam nosso estado de espírito. 

 

4) A origem do mal e a exclusão social

A maldade nasce com o ser humano ou é condicionada pelo meio social? A história coloca uma reflexão sobre a natureza da maldade no ser humano. Seria o mal parte da natureza humana, ou uma característica adquirida mediante a privação de amor e aceitação?

O que a trajetória da Criatura nos sugere é que o mal não está na gênese do coração humano, ele é desenvolvido à medida que somos expostos a sentimentos malignos, de desprezo, ódio e rancor. A Criatura usa esse argumento em sua defesa, ao expor que desde o início deseja ser aceita e amada pelos humanos. Mas a superficialidade da sociedade vigente, julga pela aparência e condena tudo o que é estranho ou fora do padrão imposto. 

O único ser que consegue ver a Criatura além de sua aparência e enxergar o amor e desejo de afeto que carrega em seu coração é justamente um cego. O velho da cabana se solidariza com sua dor, ao ouvir a criatura compartilhar seu imenso desejo de ser aceito, de receber afeto de poder dar todo amor que é capaz. Mas ao ser brutalmente rejeitada em várias situações, a Criatura desperta em seu coração ódio, ira e inveja por não ter direito ao amor que os outros têm. A partir dessa confusão de sentimentos negativos e intensos nasce o desejo de vingança que levará a cometer barbaridades em sua trajetória e a perseguir Victor Frankenstein, tornando-se uma criatura excluída, marginalizada e desprezada pelo seu criador e por todos com que tem contato. Seria então a infelicidade que torna as criaturas más? 

 De todas as questões colocadas, essa foi uma das mais tensas do livro e confesso que não tenho uma opinião conclusiva a respeito. Todavia, a argumentação da Criatura é por demais coerente, o que me despertou uma forte empatia pela sua dor. 

“Devo ser considerado o único criminoso, quando toda a humanidade pecou contra mim? Porque você não odeia Felix, que escorraçou de sua sua porta com desprezo alguém que era seu amigo? Por que você não odeia o camponês que tentou matar o salvador de seu filho? Não, esses são seres virtuosos e imaculados! Eu, o miserável e o abandonado, eu, o aborto que deve ser desprezado, expulso e maltratado. Mesmo agora me ferve o sangue, ao lembrar-me dessas injustiças.” (a Criatura)

 E aqui podemos, fazer um paralelo com nossa sociedade contemporânea e talvez compreender melhor a história de Mary Shelley. Hoje acompanhamos a luta de mulheres, negros, homossexuais, indígenas, transgêneros para poderem simplesmente existir. O número de feminicídios aumenta a cada dia, vemos as manchetes dos jornais que denunciam o genocídio contra as populações negras e indígenas, a transfobia é uma realidade latente. Como essas pessoas podem se desenvolver plenas e felizes, livres de ódio e rancores numa sociedade que as exclui, marginaliza, persegue e mata? Talvez esses questionamento nos leve a compreender por que a felicidade plena não está ao alcance de todos. Difícil ser feliz sendo excluído por ser diferente e nutrido apenas de preconceito, ódio e rancor.  A intolerância é uma motivação perigosa e muitas vezes letal. A sociedade pode até não ser a única forjadora do mal no ser humano, mas podemos ver que com uma visão medíocre do outro e falta de empatia com a dor alheia, contribui bastante para isso. 


5) A solidão, um castigo. 

 Ao ler o relato tão comovente da Criatura sobre sua necessidade de companhia, ao pedir que Victor lhe faça uma fêmea, não seria exagero dizer que podemos até nos reconhecer em sua angústia. Pois, nós humanos passamos por um processo semelhante durante nossa criação e desenvolvimento. Nascemos sem pedir para nascer, trazidos a um mundo estranho, expostos a sensações nunca sentidas e temos de interpretá-las a princípio sozinhos. Depois aprendemos a linguagem, adquirimos um idioma, começamos nossa aventura ao descobrir e desvendar a vida, o mundo e desde o princípio buscamos por afeto e companhia. A aversão à rejeição e a busca por amor e completude calcam os alicerces da nossa existência. Com exceção daqueles que apresentam alguma patologia, ninguém gosta de ser rejeitado, julgado pela aparência ou excluído. De modo geral todos nós desejamos ser aceitos em nosso círculo social e amados pelos nossos pares. Talvez tenha sido intencional, talvez não, mas o com comovente relato da criatura, Mary Shelley nos convida a fazer uma profunda reflexão acerca da essência humana, como e por que nos tornamos o que somos, e porque buscamos sempre viver em sociedade e não ao contrário. 

A desgraçada vida da Criatura, ilustra o que pode acontecer com qualquer pessoa marginalizada e condenada ao isolamento social por puro preconceito, medo ou falta de compaixão. 

A solidão torna-se para a Criatura o pior dos castigos, afinal ao se transformar num verdadeiro demônio, não encontra companhia nem na maldade. Pois não encontra ninguém que consegue chegar ao nível tão profundo de crueldade em que chegou, nem mesmo seu criador que perdera todo seu senso de humanidade, pode alcança-lo.


6) O eterno duelo entre criador e criatura.

A tentativa de chegar ao conhecimento que ninguém chegou, leva Victor às consequências mais extremas. Ele se tona melancólico, obcecado e depressivo.

Durante toda a história vemos Victor fugir da sua criação. Desde o início ele aborta sua experiência e mesmo sofrendo crises de consciência e autojulgamento ético e moral, ele não tem coragem de assumir as consequências de seus atos e foge. Mas ao mesmo tempo sabe que o confronto com sua criatura será inevitável e toda sua tormenta só terminará com a morte de um dos dois. 

Ao tentar imitar Deus, dando origem a uma vida bastarda, Victor sofre toda má sorte de amarguras, perdas e tristezas que o levam ao definhamento de toda sua vitalidade como ser humano e paga com sua vida por seu pecado.  A partir da morte, Victor deu luz a uma infeliz existência e como consequência de sua audácia, pagou com a própria vida.  

No distinto duelo entre criador e criatura, assistimos o despencar do fluxo vital nos dois. Ambos se elevam, ambos declinam. Não há vencedor, apenas ramificação de dor, tristeza e melancolia. 


OUTRAS  OBSERVAÇÕES

Leitura para reler e reler

Um clássico não se esgota em uma só leitura, por isso é um clássico. Por ser um texto que permite diferentes reflexões e cada vez mais complexas. Seja pela análise da estética literária, pela interpretação psicológica das personagens, pelo contexto histórico ou pelos debates que apresentam e que atravessam o tempo, sendo possíveis de serem desenvolvidos e ampliados em qualquer época. 

Uma história perturbadora, onde sentimentos como tristeza, dor, tédio, melancolia, ódio, inveja, vingança, são apresentados de maneira reflexiva e nada superficial. Gosto desse terror clássico, que apresenta não apenas o sombrio, o medo, o sobrenatural para assustar o leitor, mas que através de uma narrativa bem elaborada e personagens bem construídos, nos revela um possibilidade de leitura sobre nós mesmos e nosso sentimentos mais ocultos e sinistros. 

 Simplesmente amei ter lido este livro e o farei novamente em outra oportunidade. Fiquei intrigada com a obstinação pelo conhecimento que o dr. Victor Frankenstein desenvolve e gostaria de entender mais esse ponto, sob o ponto de vista da psicanálise. 

Por que algumas pessoas são extremamente curiosas desde a infância e outras não? Por que algumas querem ir além dos limites colocados e outras se contentam com o que está posto? Por que algumas conseguem oferecer afeto e ter empatia com a dor alheia e outras não?

O professor Marcos Bagno, pessoa que admiro muito, disse certa vez “A ciência não é a busca por respostas e sim por perguntas melhores”. Por que será que alguns teimam a vida inteira atrás dessas perguntas e outros aceitam qualquer resposta? 

E para finalizar, confesso que terminei o livro com uma imensa vontade de ler tudo de novo. Mas farei isso em outro momento, pois preciso de outras leituras, para poder compreender melhor esta história incrível e tentar encontrar algumas respostas possíveis ou questionamentos melhores.


Karina Guedes

@okarapoetica


Texto originalmente publicado no Recanto das Letras: 

https://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/preview.php?idt=6768816

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terça-feira, 30 de abril de 2019

O CONTO DA AIA , UMA DISTOPIA POSSÍVEL?




UMA POSSÍVEL LEITURA DE UMA  DISTOPIA ASSUSTADORA

                                       “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos políticos das mulheres sejam questionados.” 
(Simone de Beauvoir)   
                                           

Quando ouvi sobre esta história pela primeira vez, não dei muita importância. Achei que seria mais uma dessas séries da moda que fazem tremendo sucesso entre adolescentes devido a roteiros apelativos e cenas impactantes.  Ao ser informada de que se tratava de uma série baseada em um livro, fui investigar e descobri o incrível trabalho de Margaret Atwood. Logo, interessei-me em ler o livro. Não assisti a série ainda e talvez demore a fazê-lo, porque quero continuar apreciando as imagens que elaborei durante a leitura.  Portanto a análise que apresento aqui é baseada somente no livro.


SINOPSE:
O Conto da Aia (The Handmaid's Tale)  é um romance distópico da autora canadense Margaret Atwood, publicado originalmente em 1985. 
A história se passa na República de Gilead, um estado totalitário que se assemelha a uma teocracia que teria derrubado os Estados Unidos. 
O romance centra-se na jornada da serva Offred. Seu nome deriva da forma possessiva "of Fred" (de Fred em Português), as criadas são proibidas de usar seus nomes de nascimento e devem fazer eco ao homem, ou mestre, a quem servem. Offred tem 33 anos e é apenas uma Aia na casa de um enigmático comandante do alto escalão do exército e de sua Esposa. Nesse estado totalitário só existe uma função real para as Aias: procriar. Em um mundo devastado pela radiação e pelos efeitos de uma guerra em andamento, a maioria das mulheres são inférteis. Com a queda da natalidade, Offred foi separada de sua família e hoje é propriedade do novo governo. Ela precisa cumprir sua função, caso contrário se tornará uma das Não mulheres - aquelas que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas, feministas, condenadas a trabalhos forçados nas colônias, lugares onde o nível de radiação é fatal.  Em meio a opressão de um estado teocrático e totalitário, Offred se agarra à esperança de saber o paradeiro da filha e do marido. Mesmo colocando a vida em risco, resiste tentando tirar proveito daqueles que controlam sua vida.

Minha leitura

Durante as primeiras páginas, talvez seja inevitável se lembrar do livro de George Orwell, 1984, a monotonia da rotina da personagem que aos poucos nos revela a prisão em que sobrevive a medida que nos apresenta a estrutura da sociedade distópica na qual está inserida.  A princípio achei a leitura cansativa, monótona e tediosa. Comecei a pensar que o livro não estava dando conta das minhas expectativas. As primeiras páginas são sofríveis. Em seguida pensei, será que não seria exatamente isso que a autora queria que sentíssemos?  Talvez tenha sido intencional, fazer com que o leitor sentisse todo o tédio da vida de Offred. Afinal, a rotina diária de um prisioneiro, um escravo, um servo ou de qualquer pessoa privada de sua liberdade, deve ser bem monótona. O tédio da leitura se desfaz quando Offred se lembra dos momentos antes do novo regime, da sua vida antes de ser tornar uma Aia. Assim, pelas pistas deixadas por suas memórias vamos elencando os fatos que antecederam aquele momento e compreendendo como se deu o golpe (chamado de revolução teocrática) que instalou na República de Gilead, um regime autoritário estruturado por um discurso religioso extremista. 

O campo de visão de Offred durante o dia é limitado devido à  pela minúscula janela de seu quarto e também à touca com abas que é obrigada a usar,  não se pode olhar para os lados tampouco falar sem ser solicitada. A palavra para elas é proibida. Tal limitação de visão, espaço e liberdade faz com que a personagem foque nos detalhes do pouco que vê. Assim seu relato extremamente descritivo nos revela uma visão muito particular do lugar, das pessoas e do ambiente em que vive. Curioso notar como ela se atenta aos detalhes e ressalta constantemente todas as cores , boa parte delas em tons pastel, que contrastam com as poucas cores fortes como  o vermelho de sua vestimenta e a cor dos olhos da Esposa do Comandante.

“Eu me levanto da cadeira, avanço meus pés para a luz do sol, até os sapatos vermelhos, sem salto para poupar a coluna e não para dançar. As luvas vermelhas estão sobre a cama. Pego-as, enfio-as em minhas mãos, dedo por dedo. Tudo, exceto a touca de grandes abas ao redor de minha cabeça, é vermelho: da cor do sangue que nos define.”

“Mas não os olhos, que eram do tom azul frio e hostil de um céu no meio do verão, sob a luz intensa do sol, uma azul que isola e exclui você.”

“Ela está com seu vestido habitual de Martha, que é verde desbotado como um traje cirúrgico dos tempos anteriores.” 

“...era ela , em seu longo traje cerimonial azul-claro, inconfundível.”

 “Montanhas arborizadas, vistas do alto, as árvores de um amarelo doentio, eu gostaria que ela ajustasse sua cor.”

Seria essa paleta de cores desbotadas, uma referência aos tons em pastel, geralmente usados em decoração doméstica e associados à pressuposta delicadeza e suavidade do suposto universo feminino?  E o vermelho cor de "sangue que nos define" seria uma referência ao pensamento primário estritamente biológico de definir a mulher apenas pelo fato de ter um útero? 
Os fenômenos naturais são usados para expressar seus sentimentos ou sensações. Assim como compara traços humanos com características de animais diversos. A natureza em seu discurso é utilizada para descrever o mundo que vê e sente. 

“O rosto dele é comprido e triste, como de uma ovelha, mas com os olhos grandes e redondos de um cachorro, um spaniel não um terrier.”

“O tempo não parou. Ele correu sobre mim como água, me arrastou e me apagou como água, como se eu nada mais fosse que uma mulher de areia, deixada por uma criança descuidada perto demais da água do mar. Fui obliterada por ela.”

Enquanto no discurso do Comandante e das Tias a natureza é utilizada para expressar a naturalização da opressão colocada. 

“Aqueles anos foram apenas uma anomalia, historicamente falando, disse o Comandante, apenas uma feliz casualidade. Tudo o que fizemos foi pôr as coisas de volta, de acordo com a norma da Natureza.”

“- Significa que não se pode trapacear com a Natureza – diz ele – A Natureza exige variedade para os homens. É lógico, razoável, faz parte da estratégia de procriação. É o plano da Natureza.” (Comandante explicando o porquê da existência do Clube onde era permitido a prostituição).

A narrativa de Offred segue fazendo esse paralelo entre a natureza, o natural e o naturalizado e nos instiga a refletir a respeito.
A sua noção e marcação de tempo também se dá através dos ciclos naturais, noite, dia, primavera verão. É interessante notar como a noite é o momento mais importante de seu dia.

“A noite é minha, meu próprio tempo, para eu fazer o que quiser, desde que fique quieta...”

Inclusive os principais fatos que vão mudar completamente a sua trajetória acontecem à noite, devido a sua inquietude e inconformidade com a situação em que se encontra. Não é a toa que dos quinze episódios de sua história, sete têm o título de “Noite”. É como se durante o dia ficasse reservado para a monotonia da vida de serva e a noite é onde ela na medida que liberta suas inquietações, resgata o pouco de humanidade que ainda lhe resta. Quando cai a noite ela é livre para pensar e agir.

A maneira como Margaret Atwood apresenta a história de Offred é interessante e dá um tom muito especial ao seu romance, uma sensação de que o que está sendo contado ali realmente aconteceu.  Toda a narrativa está de forma não linear, intercalando as memórias de seu tempo passado, seu tempo de transição para a função de Aia no Centro Vermelho e com seu tempo presente na casa do comandante a quem serve. Fazendo com que o leitor ao tentar montar o quebra-cabeça da história e juntar os fragmentos dos devaneios de Offred, fique cada vez mais instigado a continuar a leitura.  Afinal, somos tomados pelo desejo de compreender como a sociedade de Gilead chegou aquele ponto e se haverá algum final feliz para a personagem, que lamenta o tempo todo a perda da filha e do marido, e a medida que resiste ao sistema totalitário ao qual foi obrigada a sobreviver, vai nutrindo a esperança de encontra-los algum dia. 

Apesar de Offred questionar esse sistema o tempo todo, ela tenta primeiramente sobreviver antes de pensar em se libertar de tudo aquilo, ou seja, torna-se passiva na maior parte da história e o pouco que se arrisca é para tentar se libertar e não necessariamente enfrentar o sistema diretamente. Por mais que nutra ódio pelos seus opressores, Offred não tem a mesma coragem e rebeldia de Moria sua amiga dos tempos antigos ao regime. Offred que se torna a princípio conivente com o sistema, assume todos os papéis que lhe são impostos inclusive o de “subversiva”, a medida que sede aos caprichos do comandante ou às manipulações de sua Esposa. Tenta tirar vantagem da situação para que possa ter alguma migalha a mais de chance que a aproxime de sua filha. Offred não chega a ser submissa, existe revolta dentro dela, mas como serva precisa cumprir seus deveres para não morrer, tampouco é uma rebelde como Moria. 
Acredito que seu gesto revolucionário tenha sido fugir e conseguir de algum modo deixar sua história registrada. Afinal, uma vez que a leitura e palavra eram proibidas às mulheres, até placas foram substituídas por desenhos e somente os homens tinha acesso aos livros, ela consegue se apropriar novamente do seu direito a palavra e registrar sua história. Assim gerações futuras poderiam ter uma ideia do que seria uma Aia e todas as opressões do regime totalitário a que todos estavam expostos. 

E por que essa distopia nos soa tão assustadoramente possível?

Durante toda a narrativa do conto da Aia, podemos identificar situações, valores muito semelhantes ao que temos hoje em nossa sociedade. À medida que nos conta uma história fictícia e distópica, a autora denuncia direta ou indiretamente (proposital ou não) diversas formas de opressão sofridas pelas mulheres em diversas épocas da história humana, até em nos nossos dias. Acho que a genialidade da autora foi justamente abusar da verossimilhança, pois leva a pensar e discutir questões importantes da nossa sociedade, sobretudo no que tange as mulheres. Questões do atual momento, que muitas vezes tentamos fugir e não queremos encarar. A realidade incomoda, é desconfortável, quanto mais elevamos nossa consciência para a situação real em que nos encontramos, maior é a sensação de desconforto e de incômodo. Evitamos muitas vezes a realidade e buscamos conforto na ficção. E é aqui que está a astúcia da autora. Ela usa esse recurso milenar de contar história, para provocar dúvidas e questionamentos, para nos fazer pensar justamente nas questões pungentes que evitamos. Através de uma história absurda, denuncia o absurdo da realidade. 

Algumas interpretações apontam que o romance traz uma reflexão sobre liberdade, direitos civis, a fragilidade do mundo tal qual conhecem, futuro e tal. Mas penso que falta uma reflexão muito importante nesta lista, e que pra mim é a mais importante: a condição feminina ou a fragilidade da condição feminina.  Analisando o romance, percebemos que para instalação do poder teocrático em Gilead, controlar as mulheres foi fundamental para consolidar este regime totalitário. Foi preciso tirá-las de cena, de suas atuações na sociedade como profissionais, professoras, advogadas, bancárias, etc. e confiná-las ao âmbito doméstico em diversas funções, inclusive como meras parideiras. A submissão foi institucionalizada gradativamente. 

Já aos homens, estes foram controlados com outra estratégia, a sedução pelo poder. A possibilidade de servir a república, receber méritos por isso e ser promovido aos mais altos cargos do exército e do governo, a sensação de estar no controle de alguma coisa só por vestir uma farda -mesmo não estando no controle de coisa alguma e sim sendo controlado por uma patente maior - foi o suficiente.  Incrível como uma história de ficção pode ser tão realista. 

Ao abordar a fragilidade da situação das mulheres, a narrativa torna-se muito real para muitas de nós. Primeiro retiram-lhes o emprego, trabalho remunerado, confiscam o dinheiro na conta do banco e com isso destituem-nas de sua independência econômica.   Para usar o próprio dinheiro, era preciso pedir a autorização do marido. Oras, essa é uma  estratégia do patriarcado desde sempre. 

Em seguida, elas são divididas em dois tipos principais, férteis (úteis) ou inférteis (inúteis), reduzindo o indivíduo feminino a mera condição de reprodutora da espécie. Depois vem as categorias: Esposas, Tias, Marthas, Econoesposas, as Não mulheres, sendo que as Esposas (mulheres dos oficiais de alta patente) estão no topo da hierarquia entre as mulheres. Essas mulheres não são pessoas, elas são papéis a serem representados. 
Com exceção das Econoesposas  (mulheres dos homens de baixo escalão do governo) que fazem todas as funções - é interessante a questão da sociedade dividida em classes muito bem representada aqui - todas têm uma função, uniformes e padrões de comportamento, uma vida como um script a ser cumprido. 
Em nossa sociedade não é diferente, o patriarcado reservou um lugar para nós em seu sistema, a esposa, a amante, a puta, a mãe, a solteirona etc. A objetificação da mulher faz com que as mulheres sejam o que os homens dizem que elas são.

A maternidade como instrumento de poder

A maternidade é outro ponto da história abordado de forma genial.  Em Gilead, à medida que o novo regime coloca como alicerce a importância da família nuclear, dentro de um padrão de heteronormatividade patriarcal (já que nesta sociedade a homossexualidade é considerada um crime – Traição por Falsidade de Gênero) e todo o pacote de opressão que ela representa, onde o homem é o provedor e está no topo da hierarquia, para estruturar seu poder precisará de herdeiros. Daí a importância e necessidade das Aias, uma vez que nesta sociedade por motivos diversos, a maioria das mulheres se tornou estéreis. 

A autora usa de uma alegoria, um cenário distópico para denunciar uma das formas mais antigas de dominação da mulher, a escravidão do útero. A fantasia da maternidade ainda hoje é utilizada como instrumento de poder, controle e dominação. A começar pela pressão social que se faz para que uma mulher seja mãe. As que não se submetem a tal imposição, as "childfree",  sofrem preconceito pela sua escolha e assim como as que por algum outro motivo não poder gerar filhos, são consideradas mulheres incompletas (não mulheres). 

Essa definição de mulher como ser primordialmente reprodutor, é muito comum também no discurso religioso. Observamos no totalitarismo teocrático da República de Gilead que não basta a reprodução, é preciso fazer toda a fantasia da maternidade. Quando uma Aia gera uma criança, a Esposa faz o papel da mãe e cumpre toda a encenação que cabe a este papel. A cena do parto evidencia isso, enquanto a Aia está parindo, a Esposa está do outro lado encenando o nascimento de “seu filho” e será paparicada por suas amigas e representará o papel da mãe, ou seja, dentro dessa lógica autoritária que escraviza mulheres na condição de procriadoras, alimentar a fantasia da maternidade é uma estratégia. Não basta nascer uma criança para “salvar” a espécie da extinção, é preciso também encenar e viver a fantasia da maternidade como um todo. 

A maternidade geralmente nos é apresentada de forma fantasiosa, quase surreal onde se costuma ressaltar apenas os aspectos positivos, enquanto os negativos são escondidos, silenciados, velados, descartados. De forma sutil o conto da Aia apresenta uma importante denúncia: a promíscua relação entre estado e religião. E como as mulheres se tornam um alvo fácil, afinal na maior parte do discurso religioso a mulher é sempre colocada como inferior e submissa ao homem e principalmente, fica evidenciado o seu papel de “geradora de vida” e o quão sagrado isso é.  Levando em consideração o poder de persuasão e convencimento que muitas religiões exercem sobre as pessoas, fica fácil de compreender por que muitas mulheres se submetem e aceitam tal papel imposto, às vezes até mesmo contra sua vontade mais íntima. Assim como as Aias, essas mulheres acreditam estar cumprindo seu papel ou sua função divina. 

A Cerimônia

Sobre a Cerimônia e a cena de “reprodução compartilhada”, que choca muitos leitores e leitoras, além de ser um estupro institucionalizado e legitimado pelo estado teocrático de Gilead, a vejo também como uma representação simbólica do adultério masculino instituído em nossa sociedade. Oras, se a intenção era garantir a não extinção da espécie, inseminação artificial resolveria o problema. Porém, mais uma vez o discurso religioso e opressor da República de Gilead usa de seu poder para dominar e não aceita tal proposta da ciência, dando ao marido o privilégio de praticar sexo com outra mulher. E tudo isso sob a benção de Deus. Na distopia de Margaret as Esposas estão submissas à situação e se sujeitam ao papel, mesmo não suportando tal opressão, e sofrem tanto como as Aias. 
Em nossa sociedade patriarcal não costuma ser muito diferente, é fato que o adultério masculino é totalmente aceito, enquanto o feminino contribui para o aumento das taxas de feminícido. Assim como a lógica burguesa de família e propriedade faz com que muitas esposas tolerem diversos tipos de abusos em nome do patrimônio que estão construindo com seus maridos, dentre esses abusos está também a sujeição com o adultério do marido. Muitas mulheres sabem que são traídas mas fingem  que não sabem para não criar conflitos ou para não desfazer o patrimônio, status, nome condição social, adquiridos com o casamento. Ou pior, desmanchar seu “sonho dourado” do "casamento perfeito", se sujeitam, ou talvez seja esse mesmo o padrão dentro desta singular ideia de família. . A lógica burguesa de casamento é muito bem representada neste trecho da história. 

A fragilidade da condição feminina é real

A obra de Margaret Atwood é realmente impressionante. Não apenas pelo seu estilo de escrita, a maneira como a história se desenvolve e instiga a leitura, mas porque de uma maneira sutil ela evidencia em sua narrativa diversos aspectos da natureza humana. Para mim particularmente ficou evidenciado a fragilidade da condição da mulher diante de regimes religiosos autoritários e patriarcais. Como se toda as opressões que nós mulheres sofremos hoje estivessem ali representadas em um cenário diferente, mas com a mesma intensidade. 
Retirar os direitos civis de uma mulher é uma das maiores formas violências, assim como escravizá-la ao âmbito doméstico. 
Infelizmente é muito comum o marido proibir a mulher de trabalhar fora e adquirir independência econômica, proibir de estudar e ter acesso ao conhecimento e se desenvolver intelectualmente, sobrecarregá-la com o trabalho doméstico como se esta fosse sua obrigação somente por ser mulher, obrigar a ter filhos e lhe dar herdeiros mesmo não sendo a maternidade uma vontade da mulher, trair e se achar no direito de fazê-lo por ser homem. Também é comum a punição a que qualquer mulher está sujeita ao tentar enfrentar a opressão que sofre: violência psicológica, violência física e a morte. E também comum toda essa violência ser naturalizada pelo discurso religioso, ou seja, "é a vontade de Deus", " está na Bíblia", etc. E o mais comum (e triste) ainda é que muitas mulheres estão tão subjugadas, fragilizadas e desamparadas, que aceitam toda essa violência e dizem "Amém", pois mesmo reconhecendo a opressão em que está inserida, sua visão de mundo está embasada no discurso religioso e opressor.

É impossível não notar as diversas formas de opressão sobre a mulher simbolizadas na história de Margaret - a não ser que você não tenha consciência da existência de nenhuma delas - e é isso que faz com que essa distopia seja assustadoramente real para nós. 
Ao mesmo tempo que assusta, provoca reflexões e assim cativa e eleva a consciência do leitor (a). Simplesmente genial.

Considerações finais

Vale lembrar que essa foi minha interpretação, cada leitor (a) vai observar da história aquilo que mais lhe toca.  Tenho me desdobrado recentemente em estudos sobre a questão da maternidade, talvez por isso essa parte da história foi marcante para mim. 
Por fim gostaria de comentar brevemente outro ponto interessante, a admissão por parte do Comandante de que sem corrupção nenhum sistema se mantém e ele atribui isso a ordem natural das coisas. Sem dúvida este é outro ponto que nos leva a várias reflexões sobre os regimes totalitários. Uma delas, é de que talvez não exista na história da humanidade um sistema em que não haja algum tipo de corrupção. E outra é que sempre que houver privação de liberdade e opressão, haverá resistência. Sempre!


"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, 
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."
 (Cecília Meireles)


SOBRE A AUTORA: Margaret Atwood , nasceu em Ottawa,Canadá em 18 de novembro de 1939. Atua como romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. Graduou-se em Artes na Universidade de Toronto e foi professora de Literatura Inglesa em várias universidades canadenses. 
É uma das escritoras mais admiradas mundialmente, reconhecida com inúmeros prêmios literários internacionais importantes. 
Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país. Em 2001, ela foi incluída na calçada da Canada's Walk of Fame de Toronto. Recebeu diversos prêmios, como o Man Booker Prize de 2000 por O Assassino cego, Chevalier de l’Ordre dês Arts e dês Lettres e o Príncipe de Astúrias de 2008 pelo conjunto de sua obra, entre outros.
Seus livros foram traduzidos para mais de trinta idiomas. É autora de mais de 35 obras de poesia, prosa e não ficção, entre elas O conto da aia, Dançarinas, Lesão corporal, Madame Oráculo, Olho de gato, A vida antes do homem, Vulgo Grace, O assassino cego, Oryx & Crake, Negociando com os mortos, A tenda e Buscas curiosas, todos publicados no Brasil. 
Desde 1976, é membro fundadora do Writers' Trust of Canada, uma organização não-governamental que atua em apoio da comunidade de escritores canadenses ou que residem no país.


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TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO RECANTO DAS LETRAS:


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