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domingo, 24 de abril de 2022

NA IDADE MÉDIA, UMA MULHER OUSOU ESCREVER e o mundo nunca mais foi o mesmo.


O legado dessa mulher é apresentado em "Christine de Pizan – Uma Resistência", livro escrito por Lucimara Leite, professora e pesquisadora de literatura medieval na França e Portugal. Mestre em Comunicação e Semiótica, ela pesquisa sobre Christine de Pizan desde a graduação. Neste livro faz uma análise de “Cidade das Damas” e “O espelho de Christine”, revelando importantes aspectos dessas obras escritas na idade média por Christine de Pizan.

O recorte que Lucimara Leite faz neste trabalho, entre os séculos XIV e XV, chamado de baixa idade média, apresenta alguns aspectos dessa época relevantes para compreensão da obra de Christine de Pizan. Neste período, houve uma pequena abertura nas estruturas sociais da época e isso foi bom para as mulheres como um todo. As Cruzadas, A Guerra dos Cem anos, a Peste Negra, fizeram com que muitos homens ficassem fora por longos períodos e isso fazia com que as mulheres tivessem que assumir a administração das casas e das propriedades, assumindo papéis de lideranças em suas províncias. O que vai chamar atenção para a “necessidade” da educação delas.

O livro está estruturado em três capítulos:

No capítulo I, a autora faz uma breve introdução do momento histórico e dos tipos de textos que circulavam na época (idade média, séculos XIV e XV). Explica as diferenças e semelhanças entre os tratados de educação vigentes : specula e exempla. E esclarece como era a imagens da mulheres retratada por outros autores.

Specula (espelhos) – Tratados dos príncipes. Visavam a educação dos garotos, principalmente delfins e aspirantes ao trono ou senhorio. Trazia educação moral mas principalmente administrativa e política, basicamente eram manuais de como governar. Tinham forte cunho político e são considerados como os primeiros documentos de educação pedagógica. A figura do herói estava sempre presente aqui.

Exempla – Manuais de educação com foco na conduta moral. Tinham forte cunho doutrinador. Traziam histórias cujos personagens e suas posturas deveriam ser imitados. Todos baseados na moral cristã. Traziam histórias curtas de mártires e santos, muitas vezes apresentadas como contos, fábulas, anedota, narração verdadeira ou lendária, etc. Destinados as pessoas mais simples (menos letradas) e o intuito era passar um modelo de comportamento. 

No capítulo II ,  é apresentado a estrutura e descrição das duas principais obras de Christine de Pizan, A Cidade das Mulheres (Livre de la cité des dames) e O livro das três virtudes (Le Livre des Trois Vertus). Assim como a recepção que Christine teve em sua época e o impacto de seus textos.

No capítulo III, traz a argumentação da autora que considera o trabalho de Pizan um exemplo de resistência feminista na idade média. Faz um breve resumo da educação dos séculos XII e XV e compara os textos de Christine com o de outros autores homens. Apresentando os pontos em comuns entre os dois principais textos de Christine.

Com uma linguagem bem didática, o livro é uma excelente introdução à obra e ao pensamento de Christine de Pizan. Nos permitindo ter uma ideia geral do que ela defendia e acreditava ser o ideal de educação para as mulheres neste período medieval.


Mas quem foi Christine de Pizan?

Christine de Pizan, nasceu em Veneza, Itália em 1364. Mudou-se com sua família para Paris, França, aos 4 anos de idade, quando seu pai foi convidado a trabalhar na corte do rei Carlos V. Sob a orientação de seu pai, teve acesso à educação e graças a posição exercida por ele na corte ela teve acesso à biblioteca do rei, considerada uma das melhores na época. O que contribuiu muito para sua formação intelectual. Casou-se aos 15 anos com um marido escolhido pelo seu pai.

Nos anos seguintes, com a morte do rei a França passa por momentos difíceis e a família de Christine também, em 1386 seu pai morre e três anos depois falece seu marido com quem viveu por dez anos e segundo ela, um casamento feliz. Neste momento sua posição social muda e Christine se torna a provedora da família. Decide não se casar e sustentar sua família com o próprio trabalho como escritora. Começa seu ofício literário escrevendo poesias e com a boa recepção de seus textos dedica-se inteiramente à produção literária que passa a ser sua fonte de renda.

Ela era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher na França a viver do seu trabalho como escritora.

  

O que Christine de Pizan defendia?

Importante lembrar que a Idade Média foi um período em que o pensamento teocrático e aristotélico influenciou toda a organização social da época, desde os regimes de poder vigentes até a conduta moral da sociedade. Neste período, a igreja católica detém certo poder e influência sobre o clero e senhores feudais. As mulheres são vistas apenas como procriadoras e seu lugar é sempre abaixo dos homens, maridos, pais, irmãos e filhos homens. O acesso à educação era dado apenas às mulheres de classes mais abastadas e ainda assim, voltado para ensinamentos de boa conduta moral e social, cuidado com filhos e casamento. Não se incentivava o desenvolvimento intelectual delas.

É neste contexto que Christine de Pizan escreve suas obras que chamam a atenção por trazer para o campo da escrita e das discussões intelectuais, as questões das mulheres.

 

Ela defendia a igualdade entre homens e mulheres no que diz respeito a educação, afirmava que as meninas também tinham direito de receber educação intelectual assim como os meninos e não apenas educação moral como era comum na época.

 

Fez críticas aos manuais de educação para o casamento, que por serem escritos por homens não traziam as verdades da dura e injusta vida conjugal para as mulheres.

 

Defendeu que as diferenças entre homem e mulher eram de ordem social e não biológica.


Christine lutou contra a misoginia e a favor da valorização da mulher. Tendo como objetivo estabelecer uma "moral feminina". Assim, ela participa da "Primeira Querela Feminista" e como escritora assume publicamente seu posicionamento escrevendo contra o "Roman de la Rose", de Jean de Meung, "um dos livros mais populares na Europa no século XIII, de cunho misógino, representando as mulheres como nada mais que sedutoras, numa mordaz sátira às convenções do amor cortês." (1)

 

Suas obras de maior repercussão foram "A Cidade das Mulheres" e " O Livro das três virtudes".

 

No livro A Cidade das Mulheres, Christine usa de alegorias para trazer uma reflexão sobre a representação da mulher na sociedade e combater a misoginia dos textos da época. Ela constrói uma cidade para as mulheres e cada parte da cidade é representada pelas grandes mulheres da história, da mitologia e da vida real, até aquele momento. Poderíamos dizer que esta é a primeira tentativa de escrever uma “História das mulheres”.

 

Sabemos que desde os primórdios da escrita, quem escrevia e detinha o poder da palavra eram os homens. E toda a história conhecida até então, era história escrita por eles. Homens que usaram tal poder para denegrir a imagem da mulher e assim contribuir para a disseminação da misoginia.  Nos textos masculinos as mulheres aparecem sempre como sedutoras, frágeis, incapazes e prontas para sempre ludibriar os sentimentos masculinos. Nas histórias dos homens dessa época eles são sempre as vítimas e as mulheres as "demônias".  

 

Christine de Pizan escreve na contramão deste padrão. Ela tenta mudar a mentalidade da época e sua voz encontra eco naquele exato momento histórico onde começava, ainda que minimamente, uma abertura para as mulheres se colocaram nas sociedades como sujeitos de suas vidas. Existia ali uma faísca de grito de liberdade e ela acendeu a chama.

 

Através das figuras principais de sua cidade fictícia, ela vai construindo um novo olhar a medida que derruba os principais preconceitos contra as mulheres. 

 

Ressalta a importância da fala feminina e a escuta desta fala. Numa época em que as mulheres são acusadas de falar demais (de modo leviano), aqui a escritora dá ênfase a sabedoria feminina que se expressa pela fala.

 

No último capítulo, se dirige a todas as mulheres das camadas sociais. É interessante notar que ela não divide as mulheres apenas em casadas, solteiras ou viúvas e sim entre mulheres pobres e ricas.  A hierarquia que ela apresenta está baseada na condição social e não no estado civil.

 

 

Já em O Livro das Três Virtudes, encontramos basicamente um manual de educação moral religiosa e boas maneiras dirigido para as mulheres. A diferença deste tratado de educação de Christine para o de outros autores da época que se desdobraram em cima do mesmo tema, é que aqui ela dá instruções das mais básicas as mais específicas, no que diz respeito a organização e manutenção da vida doméstica, considerando a hipótese de que as mulheres pudessem viver sem maridos (tanto os que foram à guerra ou os que morreram) , sendo donas de sua casa e propriedade, com autonomia para decisões e gerenciamento do lar. Enquanto os autores homens sempre vão orientar a buscar um homem (pai, irmão, tutor, marido) para substituir o que está ausente, deixando a mulher sempre na condição de tutelada e nunca de autônoma.

 

Valendo-se de recursos linguísticos da época para estruturar o seu texto e sua argumentação, ela usa sua própria experiência como exemplo, partindo da realidade para construir um modelo. Vai se destacar também na maneira de passar esses ensinamentos, considerando a inteligência e astúcia de seu público, não sendo prolixa e redundante como os escritores homens que escreviam para o público feminino como se estivessem escrevendo para um público débil. 

 

Um ponto a ser observado aqui é que apesar de visionária, Christine era religiosa e defendia a hierarquia social, assim como a submissão da mulher ao casamento. Boa parte de seus ensinamentos no Espelho de Cristina, vão conduzir um esforço para manter a harmonia da vida conjugal. 

 

Apesar de parecer contraditório esse discurso se comparado ao primeiro livro, é preciso considerar todo o contexto histórico para entender esse posicionamento de Christine. Afinal, a escritora viveu numa época em que a violência contra as mulheres era aceita e regulamentada. Os maridos detinham não apenas a tutela, mas o poder sobre a vida de suas esposas, sendo livres para puni-las com a morte em casos de desobediência ou desonra. Elas eram sua propriedade. Então, quando Christine argumenta para que as mulheres mantenham a harmonia em seus casamentos, estaria de certa forma ensinando-as a se protegerem das possíveis violências dentro daquelas circunstâncias.

 

Esses ensinamentos que para nós mulheres letradas do século XXI, podem parecer insuficientes ou contraditórios. Mas também nos mostram o quão difícil, sofrida e limitada era a vida das mulheres naquele período. Ser propriedade de um homem, antes de ser sujeito de sua própria vida é por demais assustador e revoltante.

 

No entanto, se refletirmos obre os nossos dias constataremos muitas correntes que ainda prendem as mulheres privando-as de alguma liberdade. A dependência financeira, falta de equidade no mercado de trabalho, os assustadores números de registros da violência doméstica e os aumentos de casos registrados de feminicídio, são alguns exemplos. Parece que em certos aspectos, sobretudo no que diz respeito à violência contra as mulheres, as coisas não mudaram tanto assim desde a idade média.

 

O Legado de Christine de Pizan - Influências posteriores

 

Suas ideias foram retomadas na virada dos séculos XIX ao XX, quando os movimentos sufragistas resgatam suas ideias. (Talvez isso explique, em partes, a visão burguesa e conciliadora do movimento sufragista).

 

Christine foi uma intelectual, visionária, ativista, porém conciliadora. Ela queria que as mulheres fossem valorizadas e não libertadas. Ocupar lugar de igualdade entre os homens não significa necessariamente revolucionar, afinal, ela escrevia para todas, mas sua literatura era consumida pelas classes mais abastadas e letradas.  As mulheres de classes mais abastadas, tendem a defender a valorização das mulheres somente no que tange sua classe. Nunca estiveram preocupadas de verdade com a vida de suas vassalas. Logo, fazem o possível para manter as hierarquias estabelecidas. Em resumo, mulheres ricas vão sempre defender mulheres ricas.


Apesar deste último ponto que considero interessante observarmos com criticidade e refletir sobre isso, devemos reconhecer a ousadia e astúcia de Christine de Pizan na Idade Média. Afinal, considerando todo o contexto em que ela vivia e sendo uma mulher de classe abastada e de família respeitada, não teria grandes dificuldades para conseguir um segundo marido e manter sua vida burguesa. Mas ela não o fez, preferiu encarar o desafio de sobreviver do próprio suor e ainda com a audácia de se engajar numa área dominada pelos homens, a escrita.  Seu mérito está não somente na criatividade e perspicácia de seus livros, mas na coragem de ter decidido escrevê-los e assim registrar um momento único na história, onde as mulheres começam a resgatar suas vozes tão silenciadas nos séculos anteriores, principalmente pelo discurso religioso. E o irônico disso tudo é que ela vai usar justamente a moral religiosa para cativar seu público e se fazer ouvir.

 

Por se tratar da obra de uma das percursoras do que hoje chamamos de pensamento feminista ou movimentos feministas, o trabalho de Christine de Pizan  é um registro raro na história. Ela precisa ser conhecida, lida, estudada. Sua vida e obra são de enorme importância para conhecermos o percurso histórico do movimento feminista e a trajetória da conquista de um dos mais importantes direitos adquiridos até agora, o direito de saber ler e escrever, ou seja,  o acesso à educação intelectual para as mulheres.

E todo trabalho que venha esclarecer e enfatizar essa importância, deve ser lido e estudado. Logo, o trabalho de Lucimara Leite, autora de “Christine de Pizan, Uma Resistência” é essencial para qualquer um que pretenda compreender o feminismo e as trajetórias de lutas das mulheres ao logo da história. Considero simplesmente uma leitura obrigatória!

Boas leituras e Boas reflexões!

Inté!

Karina Guedes

@okarapoetica


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domingo, 4 de agosto de 2019

O ENCANTAMENTO DAS ICAMIABAS




   Conta a lenda que existia na região Amazônica, próximo à foz do rio Nhamundá, um dos afluentes do Rio Amazonas, uma tribo formada somente por mulheres guerreiras, conhecidas como Icamiabas, “mulheres sem marido” ou “mulheres sem homens” em tupi. Eram mulheres independentes que andavam seminuas e tinham apreço pela liberdade e autonomia. Instruídas na arte da guerra, manejavam arco e flecha e enfrentavam destemidamente qualquer invasor. Toleravam a presença de homens somente uma vez por ano, quando realizam um ritual e convidavam guerreiros das tribos vizinhas para manter relações sexuais com o propósito de procriação. Se nascessem meninas eram criadas ali na tribo, se nascessem meninos eram enviados para as tribos vizinhas.  Compondo assim uma sociedade rigorosamente matriarcal e matrilinear, com mulheres rebeldes e revolucionárias que não aceitavam a lei dos homens.

   Em uma primeira leitura a lenda fascina e encanta, sobretudo quem se interessa pelos mitos de criação dos povos tradicionais e também quem tem interesse em conhecer histórias e lendas protagonizadas por mulheres genuinamente heroicas, onde suas virtudes não sejam restritas à beleza e seus objetivos de vida não estejam destinados a encontrar um príncipe encantado que salvará suas miseráveis vidas.

   Descobri as Icamiabas há muitos anos, quando comecei minha pesquisa sobre a Amazônia, pois o nome do rio Amazônas está relacionado com essa lenda e essa foi a primeira curiosidade que descobri e que me levou a uma certa obsessão pelo tema por alguns longos anos. Fui inevitavelmente seduzida pelo mito das mulheres guerreiras em terras tropicais. 

   As Icamiabas tornaram-se conhecidas no início da invasão do Brasil e a lenda começou a ser disseminada quando expedicionários europeus, liderados pelo espanhol Francisco Orellana, chegaram à região que hoje pertence à Amazônia, no ano de 1542. De acordo com relatos da época, quando o conquistador espanhol desceu o rio pelos Andes em busca de ouro, encontrou com as Icamiabas e junto com outros exploradores lutou com elas e foram derrotados. A belicosa vitória das  Icamiabas contra os invasores espanhóis foi tamanha que o fato foi narrado ao rei Carlos I, o qual, inspirado nas antigas guerreiras ou amazonas da mitologia grega, batizou o rio de Amazonas. No relato do padre dominicano Gaspar Carvajal, que integrava o grupo expedicionário, ele diz que a tropa fora advertida da existência dessas índias antes mesmo de entrar em contato com elas. E descreve esse contato com as guerreiras:

   “Nós mesmos vimos essas mulheres lutando como líderes femininas na linha de frente de todos os índios. As mulheres são muito claras e altas e usam cabelos compridos que trançaram e enrolaram em torno de suas cabeças. Eles são muito fortes e ficam completamente nuas, mas suas partes púbicas estão cobertas.” 

   Existem muitas lendas com mulheres guerreiras e destemidas em diversas culturas e o mito de uma sociedade só de mulheres fascina e não é novidade. Mas o que torna a lenda das Icamiabas incrivelmente instigante é que nas crônicas de viagem escritas pelo padre Gaspar, ele afirma que se encontram pessoalmente com elas. E por mais fantasioso e contraditório que seja, esse relato causou muito impacto na época plantando uma semente de dúvida que nos intriga até os dias de hoje. 

   Apesar da Amazônia ainda ser uma região majoritariamente desconhecida, hoje em dia temos muito mais conhecimento sobre a floresta e sobre os povos tradicionais do que há 500 anos atrás. Logo, a descrição que o padre faz das supostas guerreiras amazônicas levanta suspeitas sobre a veracidade dos relatos. Mulheres altas, brancas, musculosas, não se assemelham muito com os biotipos físicos dos povos que habitam aquela região. Teria sido uma linhagem extinta da qual ainda não se descobriu fatos relevantes?  Talvez. Ou os relatos dos europeus, sobretudo de Carvajal, eram apenas fantasias trazidas em sua bagagem, misturadas com histórias que ouviram dos índios e que acabaram tornando-se incentivos para continuar explorando a região? Afinal os relatos descrevem a existência de objetos de ouro e prata que as Icamiabas levavam consigo.

   Juntando os relatos da expedição europeia com a força da tradição oral, essa lenda atravessou séculos e ganhou diferentes versões, mas sempre mantendo os elementos principais da história, descrevendo a tribo das mulheres como uma sociedade rigorosamente matriarcal e matrilinear, que acrescidos de elementos fantásticos, exercem encantamento em que lê. Seja pelo simbolismo ligado ao arquétipo primitivo de feminilidade, da vida natural e da mulher procriadora e provedora da vida, ou pelo fascínio em desvendar os mistérios da Amazônia exótica, tão difundidos pelos europeus em suas crônicas, as Icamiabas se tornaram um grande mito amazônico. 

   Apesar de aqui no Brasil, sobretudo na região amazônica, pouco se saber a respeito delas, desde o surgimento das crônicas europeias sobre as lendárias guerreiras dos trópicos algumas expedições e estudos tentaram, em vão, provar que as Icamiabas existiram. Alguns desses estudos vão sugerir que poderiam ser mulheres de uma dinastia lunar que migraram da região da Asiática abrindo caminhos para o Novo Mundo. Outros vão descartar qualquer possibilidade de existência delas sugerindo que as mulheres avistadas por Orellana, eram mulheres indígenas de uma das tribos tradicionais do baixo amazonas, que lutavam ao lado dos homens e apenas naquele momento eles não estavam por perto. Gonçalves Dias, afirma em sua tese sobre o assunto que as diversas versões sobre a lenda das Icamiabas, eram narrativas fantasiosas, criadas para despertar a curiosidade alheia e estimular a busca de riquezas nos desconhecidos trópicos e rejeita veemente a possibilidade de existir uma sociedade só com mulheres, tanto aqui como na Grécia Antiga. 

   Todo esse debate com tantos argumentos interessantes coloca uma dúvida, será que foram os indígenas que influenciaram o imaginário dos europeus ou os europeus que influenciaram o imaginaram indígena? Uma vez que as narrativas da tradição oral se perpetuam muito rápido e sempre sofrendo alteração à medida que muda-se de narrador, fica difícil dar uma resposta conclusiva para a pergunta: As Icamiabas existiram?

   No Brasil do século XX, essa história foi vista com muita desconfiança e muitos historiadores vão sugerir que, apesar de haver relatos também de indígenas que contam em detalhes como viviam as Icamiabas, reforçando a versão dos espanhóis, é impossível afirmar a existência delas. 

   Entretanto, tem uma coisa que não podemos desconsiderar quando pensamos nesta questão: não é a primeira vez que descobrimos semelhanças entre elementos culturais dos povos nativos da américa com elementos culturais das civilizações antigas do médio oriente, desenvolvidos bem antes do contato com entre esses povos. Um exemplo clássico é o arco e flecha, artefato presente em diversas culturas ameríndias e também em culturas do médio oriente. Podemos citar também as pirâmides Incas, semelhantes em muitos aspectos às pirâmides egípcias. Outro exemplo que não posso deixar de citar é uma palavra do tupi-guarani que gosto muito e usei para nomear este projeto cultural, Okara.

   Okara é uma palavra que em tupi-guarani significa o centro da aldeia, onde se realizam as manifestações, as festas, os ritos, o lugar que é público em oposição a Oka. O que seria equivalente em português a palavra praça. Mas descobri recentemente que os gregos, por incrível que pareça, também tinham uma palavra que representava a mesma ideia: Ágora. Interessante, não? Portanto, a ideia de que a lenda das Icamiabas possa ter sido originalmente criada por algum povo da região amazônica e de certa forma alimentado as fantasias dos europeus, não é tão absurda assim.

   Pode ser que essas mulheres migraram do leste asiático e vieram fincar raízes nos afluentes do rio Amazonas, pode ser que índias fugiram de suas tribos e fundaram o famoso reino de índias guerreiras independentes, pode ser que existiu uma massacre numa tribo e os homens morrem e sobraram só as mulheres e pode ser que nada disso seja real e que jamais descobriremos a verdade.
Todavia, a busca por fatos que comprovem ou não a existência das Icamiabas já mobilizou expedicionários, pesquisadores, leitores e curiosos e no fundo rende uma intrigante aventura. Seja através de estudos e pesquisas já realizadas sobre o assunto, seja através de expedições na floresta Amazônica em busca das origens do mito das mulheres guerreiras sem marido ou até mesmo através da imaginação. Talvez um dia encontraremos uma resposta, talvez não.

   O fato incontestável é que a lenda existe! Enquanto literatura, faz conexão entre muitas das angústias e anseios do imaginário feminino. A história das mulheres guerreiras e libertárias, fascina, cativa e inspira. E hoje, na chamada primavera feminina, ganha força no coro de mulheres que se sentem profundamente atraídas pela ideia de libertação representada na lenda das índias guerreiras.

  Mulheres sem maridos, mulheres que manejam armas, mulheres guerreiras que se defendem sozinhas, que fazem sexo só com consentimento delas, que não são obrigadas a cumprir leis criadas pelos homens, independência, sonoridade, igualdade, revolução, tudo isso está presente e vivo na lenda das Icamiabas. Oras, é compreensível porque essa lenda tem se tornado tão latente e inspiradora em nosso imaginário. Trata-se da representação simbólica de uma utopia desejada pelas mulheres há milênios: Liberdade! Podem até dizer que os europeus tenham inventado essa história, mas hoje nós tomamos a palavra e recontamos do nosso jeito, de um modo que faça sentido para nós. Mário de Andrade reservou um espaço siginifcativo para elas em seu clássico Macunaíma. Assim como tantos outros escritores que desdicam páginas e páginas de seus trabalhos para mantê-las vivas em nosso imaginário literário.

   Ativistas dos direitos das mulheres, feministas e amantes da literatura fantástica, vão encontrar nessa lenda um diálogo inspirador. Toda simbologia de libertação contida dentro desta história, cria uma ponte entre a poética libertária contida na narrativa das indígenas guerreiras e a poética sedenta de revolução que emana de cada um de nós. Simplesmente um encontro fantástico. 

Icamiaba, tornou-se um símbolo de resistência, luta e libertação ao sistema patriarcal opressor que vivemos.

Icamiaba representa a força das mulheres que estão hoje na luta diária por uma existência mais humana e igualitária.

Icamiaba alimenta a desobrigação de se sujeitar às leis e a moral inventada pelos homens.

Icamiaba invoca a libertação dos padrões de comportamento e beleza impostos pelo patriarcado.

Icamiaba traduz uma potência dentro de cada mulher disposta a mudar os rumos do seu destino.

Icamiaba ecoa o grito silenciado há milênios e quer dizer:  Estamos juntas e não tememos a luta!!



Karina Guedes


* Ensaio publicado originalmente em  : https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/6712349

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domingo, 12 de maio de 2019

MÃES ARREPENDIDAS – uma outra visão da maternidade


Livro: Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade
Autora: Orna Donath
Ano: 2016
Editora: Civilização Brasileira

Sobre a autora:
Orna Donath é antropóloga, doutora em sociologia e pesquisadora na Ben- GurionUniversity de Negev, em Israel. Seu trabalho concentra na discussão dos direitos reprodutivos das mulheres e em estudos de gênero. Foi presidenta da Hasharon Rape Crisis Center – organização israelense cujo objetivo é combater a violência sexual -, da qual continua ser voluntária. É autora de Making a Choice: BeingChildfree in Israel (sem tradução no Brasil).

Sobre a obra:
O título deste livro é impactante e provocativo e o desenrolar da narrativa segue essa premissa, de nos impactar e prender a atenção a cada fato apresentado e analisado, a cada depoimento apresentado e a cada reflexão colocada. Talvez esse impacto se deva ao assunto tratado, que é muito comum a todas as mulheres e ao mesmo tempo polêmico para muitas de nós: a maternidade.

Depois de um enorme alvoroço causado por um debate na internet intitulado “#regretingmotherhood”, seguido de um artigo escrito pela autora sobre o assunto e publicado na revista Sings. Orna desenvolveu um estudo em Israel com um grupo de mulheres que se dispuseram a falar sobre o arrependimento que sentem em relação à maternidade. Importante ressaltar que Israel é o país com o índice de fertilidade mais elevado do mundo, 3 filhos a cada mulher. Enquanto entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) o índice é de 1,9 (EUA) a 1,4 (Europa). Dados que impressionam e nos levam a questionamentos sobre como se desenvolve a transição para a maternidade e porque surge o arrependimento.

 “Insisti em abordar essa situação guiando-me pelo pressuposto de que nosso campo de visão social é limitado, pois não nos deixa ver nem ouvir algo que existe, mas para o qual ainda não há uma via de expressão.”,diz Orna.

Para apresentar a questão do arrependimento e as conclusões de seu estudo a autora traça uma análise das trajetórias das mulheres-mães, desde os caminhos para a maternidade até os desdobramentos que apresentam ao logo da vida, sobretudo quando a mulher-mãe se torna avó.

“...a maior parte da literatura existente sobre os relatos das mães se concentra nos sentimentos e nas vivências de mães de bebês ou crianças pequenas, ou seja, no período logo após a transição para a maternidade. A relativa escassez de referências às experiências de mães de crianças mais velhas sugere que se dá pouco espaço às narrativas retrospectivas das mães ao longo dos anos.”, conclui a autora.

A maternidade pode ser uma experiência positiva e intensa para as mulheres que desejam vivê-la dentro desse âmbito do “querer ser mãe”. É comum ouvirmos relatos sinceros de sentimentos de realização, alegria e satisfação genuína por parte dessas mulheres. Porém, isso não significa que esse desejo e anseio por tal experiência seja compartilhado por todas as mulheres. É preciso compreender que existem mulheres que querem ser mães e mulheres que não querem, porém, o fato de existir mulheres que não desejam a experiência da maternidade não diminui ou invalida as experiências daquelas que se realizam nessa transição.

Tal experiência deveria ser uma opção, algo que se realiza mediante a uma escolha. No entanto, ao investigarmos os caminhos que levam uma mulher a tornar-se mãe, constatamos que nem sempre foi por que quis ou escolheu. Este é mais um fato que precisamos reconhecer, boa parte das mulheres que transitam para a maternidade o fazem mediante a uma decisão passiva, ou seja, fazem por falta de opção para escolher outro caminho ou por algum tipo de pressão, seja da família, da religião que segue ou da sociedade como um todo.  Ao mesmo tempo as mulheres que não desejam a maternidade, e têm o privilégio de fazer essa escolha, são criticadas e julgadas pelos mesmos núcleos.

Vivemos numa sociedade ancorada nos valores burgueses de família e propriedade privada, nesse contexto ser mãe é mais um papel a ser cumprido pela mulher. Ancorados em discursos rasos sobre a naturalidade da maternidade, da função biológica da mulher, da sobrevivência da espécie e da promessa de completude do ser feminino, a sociedade paternalista/capitalista em que vivemos praticamente obriga, direta ou indiretamente, mulheres a parir.

Para muitas mulheres ser mãe não é um desejo íntimo, mas dependendo do quão inseridas estão nesses valores, acabam se tornando mães simplesmente deixando-se levar por esse fluxo de pressão e opressão. Uma vez mãe, eternamente mãe. A maternidade é uma transição irreversível. A vida de uma mulher muda completamente para sempre, como uma marca, uma cicatriz que fica eternamente. Uma mulher que transita para a maternidade, morre como mãe e não como mulher.

Dentre essas mulheres que transitam maternidade por não ter meios ou condições de questionar ou se opor a pressão que sofrem para que se tornem mães, temos aquelas que se arrependem. Algumas tem coragem de admitir e enfrentam os dilemas e conflitos desse estado consciência. Outras, carregarão em silêncio mais esse fardo, o de ter que viver uma vida que não desejou e não poder dizer nada sobre isso. Afinal, o arrependimento é uma postura emocional cuja compreensão e aceitação é relativa e equivocada. Em certos contextos como no jurídico, por exemplo, espera-se que os réus se arrependam de seus crimes, já na maternidade o arrependimento é inconcebível aos olhos da sociedade que impõe a maternidade como uma obrigação da mulher e até mesmo a culpabiliza por essa transição em certas circunstâncias.

Um exemplo disso é constatado quando tratamos da responsabilidade da contracepção, que recai sempre sobre a mulher. Ignora-se a falta de informação sobre métodos contraceptivos - uma vez que educação sexual é um  tabu gigantesco em pleno século XXI ; as possíveis falhas desses métodos; a dificuldade de acesso a eles por parte de mulheres de baixa renda e que não possuem assistência médica nem para orientação, tampouco para acompanhamento; e o total descompromisso da maior parte dos homens em relação a tudo isso. O discurso moralista que ecoa e impera em nossa sociedade é “engravidou porque quis”, no entanto, podemos ver pelos exemplos citados que isso não é verdade. Muitas mulheres engravidam porque são condicionadas a fazê-lo.

Analisando todos esses aspectos que envolvem o destino das mulheres e o que a sociedade reserva para elas, a antropóloga Orna Donath desenvolve esse estudo profundo sobre um fato que até então tem sido obscurecido nas discussões sobre a maternidade, inclusive no movimento feminista, o arrependimento.  O livro “Mães Arrependidas – Uma outra visão da maternidade” traz ao centro das discussões uma realidade pouco reconhecida, a existência de mães que se arrependeram de terem se tornado mães. Através deste estudo realizado em Israel, a autora aponta para a diferença entre o desejo de ser mãe e o fato de ser mãe. E a incômoda existência do arrependimento.

Esse arrependimento não é um fenômeno individual que poucas mulheres manifestam devido a sua incapacidade de se adaptar a maternidade, trata-se de um alerta a toda a sociedade que se torna a grande culpada por esse sofrimento, afinal, a sociedade como um todo, empurra e persuade as mulheres à maternidade,mesmo que sem condições emocionais ou sociais de fazê-lo, sem oferecer políticas de reprodução que as permitam vivenciar a maternidade em sua plenitude.
“Se pensarmos nas emoções como maneira de se manifestar contra sistemas de poder, então o arrependimento é um alarme que deveria não apenas instar as sociedades a facilitarem as coisas para as mães, mas nos convidar a repensar as políticas de reprodução e nossas ideias sobre a obrigação de ser mãe.”, enfatiza a antropóloga.

Esse fato não pode ser ignorado, tampouco ocultado ou empobrecido por julgamentos moralistas. Existem mulheres que sofrem a maternidade e ao propor um estudo sério e comprometido em relação ao assunto, Orna dá voz a essas mulheres muitas vezes silenciadas. Seu livro é estruturado em capítulos organizados de forma a conduzir o leitor gradativamente a uma reflexão profunda sobre o tema. Ampliando as possibilidades de escuta dessas vozes que gritam o arrependimento da maternidade. Ou melhor, pelo reconhecimento e compreensão dessa emoção.Compreender o arrependimento como uma postura emocional legítima, é uma das propostas do livro. A outra, é de que a maternidade deixe de ser vista como um papel a ser cumprido obrigatoriamente pelas mulheres e passe a ser compreendida como uma relação entre a mulher-mãe enquanto sujeito de sua própria história, que reflete, analisa e avalia constantemente a relação que estabelece com o outro ser a quem chama de filho. Vista como uma relação, a maternidade tira um certo peso dessa experiência, o peso da dependência tanto da mãe quanto dos filhos.
Permitindo um desenvolvimento mais autêntico, pleno e furtivo para ambos, livre da ditadura dos padrões estabelecidos pela sociedade que assim como determina o papel de mãe, também determina o papel de filho.

O estudo apresentado no livro, juntamente com os trechos dos relatos das mulheres que participaram dele, compõe um tratado que convida a todos a uma reflexão profunda sobre a maternidade e nos instiga a pensar em possíveis caminhos para que ela não seja instrumento de opressão sobre as mulheres, mas apenas um caminho possível, nunca obrigatório. Talvez reconhecer a legitimidade do arrependimento, possa ser um início algum avanço nessa questão tão pungente para nós mulheres, que em algum momento da vida nos deparamos com o dilema:ser ou não ser mãe?

O livro divide-se em seis capítulos. A seguir um breve resumo dos assuntos abordados em cada um deles.

1- Os caminhos para a maternidade: O que a sociedade dita versus as experiências das mulheres.

Neste capítulo, são apresentados os diversos caminhos que levam as mulheres à maternidade. Os conflitos entre a maternidade naturalizada e a maternidade realizada, contrapondo o “caminho natural” à “liberdade de escolha”. Através dos relatos das mulheres que participaram do estudo,a autora aponta para o fato de que muitas mulheres não desejam ser mães e apenas se deixam levar pela corrente. Os desejos e motivos para transitar para maternidade são diversos e muitas vezes ocultos, o que leva mulheres a consentirem ser mães, porém sem vontade nenhuma, o que ela chama de decisão passiva. Ao fazer uma análise mais concreta e com base nas razões das mulheres que participaram do estudo, dando eco a suas vozes, a autora também desmistifica a ideal neoliberal/capitalista do poder de escolha.

2- As exigências da maternidade: Aparência, comportamento e sentimentos que as mães deveriam ter.

Os relatos das mulheres que participaram do estudo nos dão uma pequena amostra do quão pesado o fardo da maternidade pode ser, como as cobranças e julgamentos para que sejam boas mães e para que cumpram determinado papel padronizado e imposto pela sociedade paternalista/machista em que vivemos. São apresentados também os sentimentos ambíguos que a maternidade pode gerar, tanto como amar os filhos, detestar os filhos ou apenas detestar a maternidade. A partir dessas constatações a autora aprofunda a distinção entre arrependimento e sentimentos de ambivalência.


3- Mães arrependidas: Se eu pudesse não ser mãe de ninguém.

O arrependimento está ligado à nossa noção de tempo e memória, posto como uma postura emocional que nos coloca a olhar para traz, rever, reavaliar, reconsiderar. Comportamento desvalorizado na sociedade contemporânea onde o pensamento neoliberal considera que progresso é um caminho em linha reta, sempre olhando para frente e nunca para trás. Neste contexto, o arrependimento da maternidade é considerado em nossa sociedade como uma postura emocional ilícita para as mães que tem filhos e ao mesmo tempo é utilizado como condenação prévia para aquelas que não desejam ser mães.
Ao fazer uma análise de suas próprias trajetórias, algumas mulheres se arrependem e consideram um erro terem engravidado. Porém arrepender-se da maternidade, não significa arrepender-se dos filhos. Muitas mulheres vão concordar com a seguinte afirmação “amo meus filhos e detesto a maternidade”.  Neste capitulo são apresentados as vantagens e desvantagens da maternidade e como as mães que se arrependem lidam com essas questões.

4- Experiências de maternidade e práticas de arrependimento: Viver com um sentimento ilícito. 

A maternidade traz uma grande mudança na vida de uma mulher, uma mudança irreversível. As transformações que a maternidade pode trazer, tanto podem estar no campo emocional da satisfação e da realização, assim como pode estar no campo da frustração e do arrependimento. A maternidade é irreversível e torna-se traumática a medida que as mães vão tomando consciência do quanto suas vidas não lhes pertencem mais. A prometida sensação de completude da maternidade é ocupada por uma sensação infinita de comprometimento e responsabilidade que se estenderá mesmo depois dos filhos estarem crescidos. Neste capítulo, a autora expõe as diversas práticas que se originam do conflito entre ser mãe e desejar não ser, como o suposto conflito entre o desejo de não ter filhos e o amor pelos filhos reais.

5- Quem é você, mãe? As mães arrependidas entre o silêncio e o discurso.

A consciência do fardo da maternidade traz vários dilemas e desafios. Dentre eles, a necessidade de compartilhar seus sentimentos e o conflito com sua voz silenciada pela sociedade que não deseja ouvir seu arrependimento, suas confusões, suas angústias. A responsabilidade para com a saúde emocional dos filhos e o medo de que se sintam indesejados, se confronta com a vontade de ser transparente e honesta com os próprios sentimentos. Neste capitulo é apresentado uma investigação mais profunda da consciência desperta das mães arrependidas. E como lidam na prática com esse despertar.


6 - Mães- sujeitos: Investigar o estado das mães por meio do arrependimento.

A investigação mais profunda do arrependimento da maternidade aponta para dois significados importantes, que devem ser considerados antes de criticar ou condená-lo. Primeiro, a satisfação com a maternidade não tem a ver somente com as boas condições materiais para vivê-la. Mulheres que vem de classes economicamente abastadas, compartilham dos mesmos conflitos e sentimentos que mulheres de classes de baixa renda.  As conclusões do estudo também questionam as premissas de que o arrependimento surge quando as mulheres não conseguem conciliar a carreira profissional com a maternidade. Este capítulo também sugere que para uma compreensão mais ampla da maternidade, precisamos deixar de vê-la como um papel a ser cumprido pela mulher e começar a compreendê-la como uma relação na qual as mães sejam sujeitos que examinam, pensam, avaliam e buscam equilíbrios.

Bem, o que mais posso dizer? Amei este livro assim como transitar pelas reflexões que ele traz.
Espero que gostem também, boa leitura!

Se já leu, deixe seu comentário, bora somar ideia. Abraço.

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sexta-feira, 1 de março de 2019

OKARA POÉTICA - Um longo percurso...


Tínhamos uma inquietação pulsante em nossos jovens corações, uma vontade de saber mais sobre nós e o mundo, tudo girava em torno das perguntas elementares, Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? O que é ser brasileiro?

O Projeto Okara Poética começou lá na zona sul de São Paulo por volta de 2010, com uma vontade imensa de descobrir e compartilhar. Eu não sabia muito bem o quê e nem com quem. Havia muita inquietação em minha mente e em meu coração, quase explodindo de tanta curiosidade e euforia pelos mistérios que pudesse desvendar. Descobrir mais sobre nós mesmos e nossa cultura brasileira e compartilhar as descobertas com quem estivesse a fim. E de repente encontrei mais gente muito afim, com as mesmas inquietações e vontades. A princípio nos tornamos uma dupla e começamos esboçar caminhos e objetivos para essas vontades. Estávamos muito ligados com estudos sobre a cultura indígena e cultura popular brasileira. Escrevi então, um artigo sobre a recente literatura indígena em língua portuguesa que começava a ganhar espaço no meio literário e fiquei fascinada por ela. (Esse artigo foi meu TCC do curso de Letras)

Ao compartilhar vontades e descobertas com mais pessoas afins, em pouco tempo tínhamos um grupo. Éramos então cinco pessoas de diferentes áreas de estudo interessados em saber mais sobre as raízes formadoras da cultura brasileira. Começamos a dar vida ao projeto. Fizemos um sarau inesquecível e começamos a sonhar com novos rumos. Seguimos juntos por algum tempo, até que infelizmente o grupo se separou. Novas vontades e inquietações surgiram nos corações de cada um e novos caminhos também. Mas pra mim o Okara era algo muito mais forte que um projeto, algo que até hoje tenho dificuldade de explicar em palavras, algo que sinto pulsar intensamente em meu coração e que precisa acontecer. Então guardei-o no peito para que voltasse a vida quando fosse a hora. 

Bem, minha trilha de projetos pessoais trouxe-me para o Litoral Norte de São Paulo e aqui estou desde 2014. Durante o difícil começo de uma nova vida à beira mar, cheguei a pensar que o Okara Poética teria sido só um sonho de juventude, mas os ventos do sul sopraram forte em meu coração e reacenderam a vontade de descobrir e compartilhar tudo de novo. E foi assim que em 2017 retomei as trilhas da literatura. Retomei os estudos sobre a literatura indígena (que a essa altura já estava sendo chamada de textualidades inndígenas), que me levaram para os caminhos das narrativas ancestrais e do fascínio que nós seres humanos temos pela ficção, pelas histórias, pela manifestação da palavra. A poesia sempre fez parte da minha vida e hoje é um dos mais fortes motivos para me manter de pé e seguir em frente. “Sempre em frente” me disse o poeta...

Portanto, eis me aqui. Levantando a Okara Poética novamente! A-ho!

As pessoas têm me perguntado, mas o que é Okara Poética afinal?  Bem, aprendi há muitos anos atrás que Ocara (okara) é uma palavra que em tupi-guarani significa o centro da aldeia, onde se realizam as manifestações, as festas, os ritos, o lugar daquilo que é comum, público, te todos sem exceção! (Em oposição a Oca (oka), que seria um espaço mais ou menos reservado). O que seria equivalente em português a palavra praça. Mas descobri recentemente que os gregos, por incrível que pareça, também tinham uma palavra que representava a mesma ideia: Ágora. Incrível, não? 

Pra mim ficou marcado desde o início essa ideia de um espaço coletivo para o fruir da poética! E isso não saiu da minha cabeça e daí vieram as outras ideias. Adorei essa palavra, para mim é como um chamado e hoje faço dela meu território, meu lugar, minha aldeia, onde convido a todos para brincar de poesia comigo. \o/

Sendo assim, Okara Poética torna-se um lugar, físico ou não, para nossas manifestações, onde os diversos tipos narrativas e celebração da palavra ganham voz e luz, emanando e compartilhando a poética que habita em nós. 

Este blog é só um ponto de encontro para orientarmos nossas bússolas e seguirmos juntos nas trilhas da literatura e das fruições e curas que ela é capaz de nos trazer. Aqui, compartilho leituras, vivências literárias, fruições artísticas e convites para atividades culturais. A ideia é sempre incentivar a leitura e fomentar a curiosidade pela leitura e pelas nossas culturas. Sejam todos e todas muito bem vindos (as)!

Viva a poesia! Viva a literatura! Viva essa vontade nossa de ir além e buscar algo a mais!

A-ho!

Karina Guedes

@okarapoetica