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sábado, 4 de abril de 2020

LER É SER!


Ler é um exercício que nos tira do lugar comum! E para compreender essa afirmação, preciso lembrar que estou considerando aqui a leitura como um gesto mais abrangente, pra além do texto escrito. Ler é estar diante de um objeto ou situação e se permitir buscar diálogos e caminhos de compreensão para o que se revela diante de nós.

Como assim?

Tem uma personagem que adoro e que exemplifica bem o conceito de leitura que estou tentando colocar aqui. O detetive Sherlock Holmes - criado pelo escritor Arthur Conan Doyle - personifica o que chamo de poder de leitura. Através do tato, olfato, visão, audição, até do paladar, além de uma brilhante capacidade de dedução, ele consegue não só de desvendar os mais misteriosos crimes, mas também de reconstruir narrativas inteiras e interpretá-las de forma brilhante. Ou seja, ele simplesmente faz leituras o tempo todo em suas empolgantes aventuras.

Isso acontece conosco também, pois nós não lemos somente com nossos olhos, mas sim com o corpo e toda nossa cultura. Leitura não é só decodificar de letras e palavras elencadas e sim uma prática  de interação constante que envolve texto, autor, leitor, contexto e emoções. Ou seja, uma mistura de vários elementos que podem promover em nós uma forte mudança de estado de espírito. E dependendo do objetivo da leitura e da maneira como for conduzida, pode nos levar a outros estágios de percepção e compreensão da vida, do mundo e de nós mesmos.

Leitura não se resume a livros.

Existem diferentes objetos de leitura, livros, pinturas, músicas, poesia, danças, teatro, diferentes  tipos de narrativas. Você pode fazer uma leitura apenas com o intuito de obter informação objetiva e ler um jornal, uma revista cientifica ou bula de medicamento; pode fazer uma leitura para mero entretenimento ou até mesmo se permitir experimentar estéticas literárias mais elaboradas para  o simples fruir do devir. 

A literatura, a arte, assim como as diferentes linguagens artísticas, de modo geral nos oferecem interessantes exemplos de “coisas pra ler” e experimentar o fruir da palavra. Acredito que cada uma delas com suas próprias particularidades, nos permitem trilhar um caminho incrível de mudança de estado de espírito e elevação de consciência, pois não atuam somente no campo da emoção, mas também no campo da razão.

Sou amante da arte literária e realmente acredito na literatura como terapia, como caminho de transcendência e elevação.  Além de ferramenta de formação, entretenimento e outras funções que se queira atribuir, a literatura tem o poder de estabelecer diálogos com aspectos mais íntimos de nossa mente.

Uso o termo literatura como a representação de um conjunto bem amplo de produções artísticas, que se organizam esteticamente em torno da palavra (não me refiro somente aos cânones literários). Ou seja, os causos, histórias, poemas, canções, cordel, teatro e tudo o que puder estabelecer essa ponte de diálogo entre nossa poética e o mundo.

E por que precisamos da literatura?

Porque ela nos humaniza. Os objetos literários, estruturados e de relevância estética, dialogam com nosso caos interior e promovem perturbação e ordem ao mesmo tempo, fazendo vir à tona o que há de mais profundo em nós, pois opera alternadamente entre nosso estado consciente e inconsciente. E ao trazer todo nosso estado de espírito mais íntimo à flor da pele, somos levados a lidar com ele. Com nossos pensamentos, sentimentos e inquietações mais íntimos.

Talvez isso explique um pouco, porque determinadas leituras são perturbadoras, porque gostamos mais de um tipo de história do que de outro, ou porque nos apegamos ou odiamos determinado personagem. Estamos o tempo todo dialogando, consciente ou inconscientemente com o objeto literário que nos dispomos a conhecer. Nós nos envolvemos com a palavra e isso é fenomenal.

A capacidade de fabular, de se perder num devaneio, de se emocionar com uma história, de criar e fruir a ficção, proporciona à nossa jornada um sentido mais amplo e mais interessante do que o simples nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Portanto, ler e se envolver com a fruição literária, significa não se limitar ao destino biológico e buscar fazer da existência algo mais significativo e menos sofrível possível.

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Vem gostar de ler!

Ler é sair da mediocridade do cotidiano, gostar de ler é um gesto de rebeldia contra as limitações impostas pelas circunstâncias da vida. Ler é se aventurar num caminho sem volta para o desenvolvimento pleno do ser. Experimentem! 

Se por acaso você ainda não sabe por onde começar, deixei aqui algumas dicas pra quem quer se iniciar nessa jornada de pleno desenvolvimento do ser e se aventurar nos caminhos da leitura.
[CLIQUE AQUI]

Boas leituras e boas aventuras literárias!

Karina Guedes
@okarapoetica


domingo, 4 de agosto de 2019

O ENCANTAMENTO DAS ICAMIABAS




   Conta a lenda que existia na região Amazônica, próximo à foz do rio Nhamundá, um dos afluentes do Rio Amazonas, uma tribo formada somente por mulheres guerreiras, conhecidas como Icamiabas, “mulheres sem marido” ou “mulheres sem homens” em tupi. Eram mulheres independentes que andavam seminuas e tinham apreço pela liberdade e autonomia. Instruídas na arte da guerra, manejavam arco e flecha e enfrentavam destemidamente qualquer invasor. Toleravam a presença de homens somente uma vez por ano, quando realizam um ritual e convidavam guerreiros das tribos vizinhas para manter relações sexuais com o propósito de procriação. Se nascessem meninas eram criadas ali na tribo, se nascessem meninos eram enviados para as tribos vizinhas.  Compondo assim uma sociedade rigorosamente matriarcal e matrilinear, com mulheres rebeldes e revolucionárias que não aceitavam a lei dos homens.

   Em uma primeira leitura a lenda fascina e encanta, sobretudo quem se interessa pelos mitos de criação dos povos tradicionais e também quem tem interesse em conhecer histórias e lendas protagonizadas por mulheres genuinamente heroicas, onde suas virtudes não sejam restritas à beleza e seus objetivos de vida não estejam destinados a encontrar um príncipe encantado que salvará suas miseráveis vidas.

   Descobri as Icamiabas há muitos anos, quando comecei minha pesquisa sobre a Amazônia, pois o nome do rio Amazônas está relacionado com essa lenda e essa foi a primeira curiosidade que descobri e que me levou a uma certa obsessão pelo tema por alguns longos anos. Fui inevitavelmente seduzida pelo mito das mulheres guerreiras em terras tropicais. 

   As Icamiabas tornaram-se conhecidas no início da invasão do Brasil e a lenda começou a ser disseminada quando expedicionários europeus, liderados pelo espanhol Francisco Orellana, chegaram à região que hoje pertence à Amazônia, no ano de 1542. De acordo com relatos da época, quando o conquistador espanhol desceu o rio pelos Andes em busca de ouro, encontrou com as Icamiabas e junto com outros exploradores lutou com elas e foram derrotados. A belicosa vitória das  Icamiabas contra os invasores espanhóis foi tamanha que o fato foi narrado ao rei Carlos I, o qual, inspirado nas antigas guerreiras ou amazonas da mitologia grega, batizou o rio de Amazonas. No relato do padre dominicano Gaspar Carvajal, que integrava o grupo expedicionário, ele diz que a tropa fora advertida da existência dessas índias antes mesmo de entrar em contato com elas. E descreve esse contato com as guerreiras:

   “Nós mesmos vimos essas mulheres lutando como líderes femininas na linha de frente de todos os índios. As mulheres são muito claras e altas e usam cabelos compridos que trançaram e enrolaram em torno de suas cabeças. Eles são muito fortes e ficam completamente nuas, mas suas partes púbicas estão cobertas.” 

   Existem muitas lendas com mulheres guerreiras e destemidas em diversas culturas e o mito de uma sociedade só de mulheres fascina e não é novidade. Mas o que torna a lenda das Icamiabas incrivelmente instigante é que nas crônicas de viagem escritas pelo padre Gaspar, ele afirma que se encontram pessoalmente com elas. E por mais fantasioso e contraditório que seja, esse relato causou muito impacto na época plantando uma semente de dúvida que nos intriga até os dias de hoje. 

   Apesar da Amazônia ainda ser uma região majoritariamente desconhecida, hoje em dia temos muito mais conhecimento sobre a floresta e sobre os povos tradicionais do que há 500 anos atrás. Logo, a descrição que o padre faz das supostas guerreiras amazônicas levanta suspeitas sobre a veracidade dos relatos. Mulheres altas, brancas, musculosas, não se assemelham muito com os biotipos físicos dos povos que habitam aquela região. Teria sido uma linhagem extinta da qual ainda não se descobriu fatos relevantes?  Talvez. Ou os relatos dos europeus, sobretudo de Carvajal, eram apenas fantasias trazidas em sua bagagem, misturadas com histórias que ouviram dos índios e que acabaram tornando-se incentivos para continuar explorando a região? Afinal os relatos descrevem a existência de objetos de ouro e prata que as Icamiabas levavam consigo.

   Juntando os relatos da expedição europeia com a força da tradição oral, essa lenda atravessou séculos e ganhou diferentes versões, mas sempre mantendo os elementos principais da história, descrevendo a tribo das mulheres como uma sociedade rigorosamente matriarcal e matrilinear, que acrescidos de elementos fantásticos, exercem encantamento em que lê. Seja pelo simbolismo ligado ao arquétipo primitivo de feminilidade, da vida natural e da mulher procriadora e provedora da vida, ou pelo fascínio em desvendar os mistérios da Amazônia exótica, tão difundidos pelos europeus em suas crônicas, as Icamiabas se tornaram um grande mito amazônico. 

   Apesar de aqui no Brasil, sobretudo na região amazônica, pouco se saber a respeito delas, desde o surgimento das crônicas europeias sobre as lendárias guerreiras dos trópicos algumas expedições e estudos tentaram, em vão, provar que as Icamiabas existiram. Alguns desses estudos vão sugerir que poderiam ser mulheres de uma dinastia lunar que migraram da região da Asiática abrindo caminhos para o Novo Mundo. Outros vão descartar qualquer possibilidade de existência delas sugerindo que as mulheres avistadas por Orellana, eram mulheres indígenas de uma das tribos tradicionais do baixo amazonas, que lutavam ao lado dos homens e apenas naquele momento eles não estavam por perto. Gonçalves Dias, afirma em sua tese sobre o assunto que as diversas versões sobre a lenda das Icamiabas, eram narrativas fantasiosas, criadas para despertar a curiosidade alheia e estimular a busca de riquezas nos desconhecidos trópicos e rejeita veemente a possibilidade de existir uma sociedade só com mulheres, tanto aqui como na Grécia Antiga. 

   Todo esse debate com tantos argumentos interessantes coloca uma dúvida, será que foram os indígenas que influenciaram o imaginário dos europeus ou os europeus que influenciaram o imaginaram indígena? Uma vez que as narrativas da tradição oral se perpetuam muito rápido e sempre sofrendo alteração à medida que muda-se de narrador, fica difícil dar uma resposta conclusiva para a pergunta: As Icamiabas existiram?

   No Brasil do século XX, essa história foi vista com muita desconfiança e muitos historiadores vão sugerir que, apesar de haver relatos também de indígenas que contam em detalhes como viviam as Icamiabas, reforçando a versão dos espanhóis, é impossível afirmar a existência delas. 

   Entretanto, tem uma coisa que não podemos desconsiderar quando pensamos nesta questão: não é a primeira vez que descobrimos semelhanças entre elementos culturais dos povos nativos da américa com elementos culturais das civilizações antigas do médio oriente, desenvolvidos bem antes do contato com entre esses povos. Um exemplo clássico é o arco e flecha, artefato presente em diversas culturas ameríndias e também em culturas do médio oriente. Podemos citar também as pirâmides Incas, semelhantes em muitos aspectos às pirâmides egípcias. Outro exemplo que não posso deixar de citar é uma palavra do tupi-guarani que gosto muito e usei para nomear este projeto cultural, Okara.

   Okara é uma palavra que em tupi-guarani significa o centro da aldeia, onde se realizam as manifestações, as festas, os ritos, o lugar que é público em oposição a Oka. O que seria equivalente em português a palavra praça. Mas descobri recentemente que os gregos, por incrível que pareça, também tinham uma palavra que representava a mesma ideia: Ágora. Interessante, não? Portanto, a ideia de que a lenda das Icamiabas possa ter sido originalmente criada por algum povo da região amazônica e de certa forma alimentado as fantasias dos europeus, não é tão absurda assim.

   Pode ser que essas mulheres migraram do leste asiático e vieram fincar raízes nos afluentes do rio Amazonas, pode ser que índias fugiram de suas tribos e fundaram o famoso reino de índias guerreiras independentes, pode ser que existiu uma massacre numa tribo e os homens morrem e sobraram só as mulheres e pode ser que nada disso seja real e que jamais descobriremos a verdade.
Todavia, a busca por fatos que comprovem ou não a existência das Icamiabas já mobilizou expedicionários, pesquisadores, leitores e curiosos e no fundo rende uma intrigante aventura. Seja através de estudos e pesquisas já realizadas sobre o assunto, seja através de expedições na floresta Amazônica em busca das origens do mito das mulheres guerreiras sem marido ou até mesmo através da imaginação. Talvez um dia encontraremos uma resposta, talvez não.

   O fato incontestável é que a lenda existe! Enquanto literatura, faz conexão entre muitas das angústias e anseios do imaginário feminino. A história das mulheres guerreiras e libertárias, fascina, cativa e inspira. E hoje, na chamada primavera feminina, ganha força no coro de mulheres que se sentem profundamente atraídas pela ideia de libertação representada na lenda das índias guerreiras.

  Mulheres sem maridos, mulheres que manejam armas, mulheres guerreiras que se defendem sozinhas, que fazem sexo só com consentimento delas, que não são obrigadas a cumprir leis criadas pelos homens, independência, sonoridade, igualdade, revolução, tudo isso está presente e vivo na lenda das Icamiabas. Oras, é compreensível porque essa lenda tem se tornado tão latente e inspiradora em nosso imaginário. Trata-se da representação simbólica de uma utopia desejada pelas mulheres há milênios: Liberdade! Podem até dizer que os europeus tenham inventado essa história, mas hoje nós tomamos a palavra e recontamos do nosso jeito, de um modo que faça sentido para nós. Mário de Andrade reservou um espaço siginifcativo para elas em seu clássico Macunaíma. Assim como tantos outros escritores que desdicam páginas e páginas de seus trabalhos para mantê-las vivas em nosso imaginário literário.

   Ativistas dos direitos das mulheres, feministas e amantes da literatura fantástica, vão encontrar nessa lenda um diálogo inspirador. Toda simbologia de libertação contida dentro desta história, cria uma ponte entre a poética libertária contida na narrativa das indígenas guerreiras e a poética sedenta de revolução que emana de cada um de nós. Simplesmente um encontro fantástico. 

Icamiaba, tornou-se um símbolo de resistência, luta e libertação ao sistema patriarcal opressor que vivemos.

Icamiaba representa a força das mulheres que estão hoje na luta diária por uma existência mais humana e igualitária.

Icamiaba alimenta a desobrigação de se sujeitar às leis e a moral inventada pelos homens.

Icamiaba invoca a libertação dos padrões de comportamento e beleza impostos pelo patriarcado.

Icamiaba traduz uma potência dentro de cada mulher disposta a mudar os rumos do seu destino.

Icamiaba ecoa o grito silenciado há milênios e quer dizer:  Estamos juntas e não tememos a luta!!



Karina Guedes


* Ensaio publicado originalmente em  : https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/6712349

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