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domingo, 24 de abril de 2022

NA IDADE MÉDIA, UMA MULHER OUSOU ESCREVER e o mundo nunca mais foi o mesmo.


O legado dessa mulher é apresentado em "Christine de Pizan – Uma Resistência", livro escrito por Lucimara Leite, professora e pesquisadora de literatura medieval na França e Portugal. Mestre em Comunicação e Semiótica, ela pesquisa sobre Christine de Pizan desde a graduação. Neste livro faz uma análise de “Cidade das Damas” e “O espelho de Christine”, revelando importantes aspectos dessas obras escritas na idade média por Christine de Pizan.

O recorte que Lucimara Leite faz neste trabalho, entre os séculos XIV e XV, chamado de baixa idade média, apresenta alguns aspectos dessa época relevantes para compreensão da obra de Christine de Pizan. Neste período, houve uma pequena abertura nas estruturas sociais da época e isso foi bom para as mulheres como um todo. As Cruzadas, A Guerra dos Cem anos, a Peste Negra, fizeram com que muitos homens ficassem fora por longos períodos e isso fazia com que as mulheres tivessem que assumir a administração das casas e das propriedades, assumindo papéis de lideranças em suas províncias. O que vai chamar atenção para a “necessidade” da educação delas.

O livro está estruturado em três capítulos:

No capítulo I, a autora faz uma breve introdução do momento histórico e dos tipos de textos que circulavam na época (idade média, séculos XIV e XV). Explica as diferenças e semelhanças entre os tratados de educação vigentes : specula e exempla. E esclarece como era a imagens da mulheres retratada por outros autores.

Specula (espelhos) – Tratados dos príncipes. Visavam a educação dos garotos, principalmente delfins e aspirantes ao trono ou senhorio. Trazia educação moral mas principalmente administrativa e política, basicamente eram manuais de como governar. Tinham forte cunho político e são considerados como os primeiros documentos de educação pedagógica. A figura do herói estava sempre presente aqui.

Exempla – Manuais de educação com foco na conduta moral. Tinham forte cunho doutrinador. Traziam histórias cujos personagens e suas posturas deveriam ser imitados. Todos baseados na moral cristã. Traziam histórias curtas de mártires e santos, muitas vezes apresentadas como contos, fábulas, anedota, narração verdadeira ou lendária, etc. Destinados as pessoas mais simples (menos letradas) e o intuito era passar um modelo de comportamento. 

No capítulo II ,  é apresentado a estrutura e descrição das duas principais obras de Christine de Pizan, A Cidade das Mulheres (Livre de la cité des dames) e O livro das três virtudes (Le Livre des Trois Vertus). Assim como a recepção que Christine teve em sua época e o impacto de seus textos.

No capítulo III, traz a argumentação da autora que considera o trabalho de Pizan um exemplo de resistência feminista na idade média. Faz um breve resumo da educação dos séculos XII e XV e compara os textos de Christine com o de outros autores homens. Apresentando os pontos em comuns entre os dois principais textos de Christine.

Com uma linguagem bem didática, o livro é uma excelente introdução à obra e ao pensamento de Christine de Pizan. Nos permitindo ter uma ideia geral do que ela defendia e acreditava ser o ideal de educação para as mulheres neste período medieval.


Mas quem foi Christine de Pizan?

Christine de Pizan, nasceu em Veneza, Itália em 1364. Mudou-se com sua família para Paris, França, aos 4 anos de idade, quando seu pai foi convidado a trabalhar na corte do rei Carlos V. Sob a orientação de seu pai, teve acesso à educação e graças a posição exercida por ele na corte ela teve acesso à biblioteca do rei, considerada uma das melhores na época. O que contribuiu muito para sua formação intelectual. Casou-se aos 15 anos com um marido escolhido pelo seu pai.

Nos anos seguintes, com a morte do rei a França passa por momentos difíceis e a família de Christine também, em 1386 seu pai morre e três anos depois falece seu marido com quem viveu por dez anos e segundo ela, um casamento feliz. Neste momento sua posição social muda e Christine se torna a provedora da família. Decide não se casar e sustentar sua família com o próprio trabalho como escritora. Começa seu ofício literário escrevendo poesias e com a boa recepção de seus textos dedica-se inteiramente à produção literária que passa a ser sua fonte de renda.

Ela era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher na França a viver do seu trabalho como escritora.

  

O que Christine de Pizan defendia?

Importante lembrar que a Idade Média foi um período em que o pensamento teocrático e aristotélico influenciou toda a organização social da época, desde os regimes de poder vigentes até a conduta moral da sociedade. Neste período, a igreja católica detém certo poder e influência sobre o clero e senhores feudais. As mulheres são vistas apenas como procriadoras e seu lugar é sempre abaixo dos homens, maridos, pais, irmãos e filhos homens. O acesso à educação era dado apenas às mulheres de classes mais abastadas e ainda assim, voltado para ensinamentos de boa conduta moral e social, cuidado com filhos e casamento. Não se incentivava o desenvolvimento intelectual delas.

É neste contexto que Christine de Pizan escreve suas obras que chamam a atenção por trazer para o campo da escrita e das discussões intelectuais, as questões das mulheres.

 

Ela defendia a igualdade entre homens e mulheres no que diz respeito a educação, afirmava que as meninas também tinham direito de receber educação intelectual assim como os meninos e não apenas educação moral como era comum na época.

 

Fez críticas aos manuais de educação para o casamento, que por serem escritos por homens não traziam as verdades da dura e injusta vida conjugal para as mulheres.

 

Defendeu que as diferenças entre homem e mulher eram de ordem social e não biológica.


Christine lutou contra a misoginia e a favor da valorização da mulher. Tendo como objetivo estabelecer uma "moral feminina". Assim, ela participa da "Primeira Querela Feminista" e como escritora assume publicamente seu posicionamento escrevendo contra o "Roman de la Rose", de Jean de Meung, "um dos livros mais populares na Europa no século XIII, de cunho misógino, representando as mulheres como nada mais que sedutoras, numa mordaz sátira às convenções do amor cortês." (1)

 

Suas obras de maior repercussão foram "A Cidade das Mulheres" e " O Livro das três virtudes".

 

No livro A Cidade das Mulheres, Christine usa de alegorias para trazer uma reflexão sobre a representação da mulher na sociedade e combater a misoginia dos textos da época. Ela constrói uma cidade para as mulheres e cada parte da cidade é representada pelas grandes mulheres da história, da mitologia e da vida real, até aquele momento. Poderíamos dizer que esta é a primeira tentativa de escrever uma “História das mulheres”.

 

Sabemos que desde os primórdios da escrita, quem escrevia e detinha o poder da palavra eram os homens. E toda a história conhecida até então, era história escrita por eles. Homens que usaram tal poder para denegrir a imagem da mulher e assim contribuir para a disseminação da misoginia.  Nos textos masculinos as mulheres aparecem sempre como sedutoras, frágeis, incapazes e prontas para sempre ludibriar os sentimentos masculinos. Nas histórias dos homens dessa época eles são sempre as vítimas e as mulheres as "demônias".  

 

Christine de Pizan escreve na contramão deste padrão. Ela tenta mudar a mentalidade da época e sua voz encontra eco naquele exato momento histórico onde começava, ainda que minimamente, uma abertura para as mulheres se colocaram nas sociedades como sujeitos de suas vidas. Existia ali uma faísca de grito de liberdade e ela acendeu a chama.

 

Através das figuras principais de sua cidade fictícia, ela vai construindo um novo olhar a medida que derruba os principais preconceitos contra as mulheres. 

 

Ressalta a importância da fala feminina e a escuta desta fala. Numa época em que as mulheres são acusadas de falar demais (de modo leviano), aqui a escritora dá ênfase a sabedoria feminina que se expressa pela fala.

 

No último capítulo, se dirige a todas as mulheres das camadas sociais. É interessante notar que ela não divide as mulheres apenas em casadas, solteiras ou viúvas e sim entre mulheres pobres e ricas.  A hierarquia que ela apresenta está baseada na condição social e não no estado civil.

 

 

Já em O Livro das Três Virtudes, encontramos basicamente um manual de educação moral religiosa e boas maneiras dirigido para as mulheres. A diferença deste tratado de educação de Christine para o de outros autores da época que se desdobraram em cima do mesmo tema, é que aqui ela dá instruções das mais básicas as mais específicas, no que diz respeito a organização e manutenção da vida doméstica, considerando a hipótese de que as mulheres pudessem viver sem maridos (tanto os que foram à guerra ou os que morreram) , sendo donas de sua casa e propriedade, com autonomia para decisões e gerenciamento do lar. Enquanto os autores homens sempre vão orientar a buscar um homem (pai, irmão, tutor, marido) para substituir o que está ausente, deixando a mulher sempre na condição de tutelada e nunca de autônoma.

 

Valendo-se de recursos linguísticos da época para estruturar o seu texto e sua argumentação, ela usa sua própria experiência como exemplo, partindo da realidade para construir um modelo. Vai se destacar também na maneira de passar esses ensinamentos, considerando a inteligência e astúcia de seu público, não sendo prolixa e redundante como os escritores homens que escreviam para o público feminino como se estivessem escrevendo para um público débil. 

 

Um ponto a ser observado aqui é que apesar de visionária, Christine era religiosa e defendia a hierarquia social, assim como a submissão da mulher ao casamento. Boa parte de seus ensinamentos no Espelho de Cristina, vão conduzir um esforço para manter a harmonia da vida conjugal. 

 

Apesar de parecer contraditório esse discurso se comparado ao primeiro livro, é preciso considerar todo o contexto histórico para entender esse posicionamento de Christine. Afinal, a escritora viveu numa época em que a violência contra as mulheres era aceita e regulamentada. Os maridos detinham não apenas a tutela, mas o poder sobre a vida de suas esposas, sendo livres para puni-las com a morte em casos de desobediência ou desonra. Elas eram sua propriedade. Então, quando Christine argumenta para que as mulheres mantenham a harmonia em seus casamentos, estaria de certa forma ensinando-as a se protegerem das possíveis violências dentro daquelas circunstâncias.

 

Esses ensinamentos que para nós mulheres letradas do século XXI, podem parecer insuficientes ou contraditórios. Mas também nos mostram o quão difícil, sofrida e limitada era a vida das mulheres naquele período. Ser propriedade de um homem, antes de ser sujeito de sua própria vida é por demais assustador e revoltante.

 

No entanto, se refletirmos obre os nossos dias constataremos muitas correntes que ainda prendem as mulheres privando-as de alguma liberdade. A dependência financeira, falta de equidade no mercado de trabalho, os assustadores números de registros da violência doméstica e os aumentos de casos registrados de feminicídio, são alguns exemplos. Parece que em certos aspectos, sobretudo no que diz respeito à violência contra as mulheres, as coisas não mudaram tanto assim desde a idade média.

 

O Legado de Christine de Pizan - Influências posteriores

 

Suas ideias foram retomadas na virada dos séculos XIX ao XX, quando os movimentos sufragistas resgatam suas ideias. (Talvez isso explique, em partes, a visão burguesa e conciliadora do movimento sufragista).

 

Christine foi uma intelectual, visionária, ativista, porém conciliadora. Ela queria que as mulheres fossem valorizadas e não libertadas. Ocupar lugar de igualdade entre os homens não significa necessariamente revolucionar, afinal, ela escrevia para todas, mas sua literatura era consumida pelas classes mais abastadas e letradas.  As mulheres de classes mais abastadas, tendem a defender a valorização das mulheres somente no que tange sua classe. Nunca estiveram preocupadas de verdade com a vida de suas vassalas. Logo, fazem o possível para manter as hierarquias estabelecidas. Em resumo, mulheres ricas vão sempre defender mulheres ricas.


Apesar deste último ponto que considero interessante observarmos com criticidade e refletir sobre isso, devemos reconhecer a ousadia e astúcia de Christine de Pizan na Idade Média. Afinal, considerando todo o contexto em que ela vivia e sendo uma mulher de classe abastada e de família respeitada, não teria grandes dificuldades para conseguir um segundo marido e manter sua vida burguesa. Mas ela não o fez, preferiu encarar o desafio de sobreviver do próprio suor e ainda com a audácia de se engajar numa área dominada pelos homens, a escrita.  Seu mérito está não somente na criatividade e perspicácia de seus livros, mas na coragem de ter decidido escrevê-los e assim registrar um momento único na história, onde as mulheres começam a resgatar suas vozes tão silenciadas nos séculos anteriores, principalmente pelo discurso religioso. E o irônico disso tudo é que ela vai usar justamente a moral religiosa para cativar seu público e se fazer ouvir.

 

Por se tratar da obra de uma das percursoras do que hoje chamamos de pensamento feminista ou movimentos feministas, o trabalho de Christine de Pizan  é um registro raro na história. Ela precisa ser conhecida, lida, estudada. Sua vida e obra são de enorme importância para conhecermos o percurso histórico do movimento feminista e a trajetória da conquista de um dos mais importantes direitos adquiridos até agora, o direito de saber ler e escrever, ou seja,  o acesso à educação intelectual para as mulheres.

E todo trabalho que venha esclarecer e enfatizar essa importância, deve ser lido e estudado. Logo, o trabalho de Lucimara Leite, autora de “Christine de Pizan, Uma Resistência” é essencial para qualquer um que pretenda compreender o feminismo e as trajetórias de lutas das mulheres ao logo da história. Considero simplesmente uma leitura obrigatória!

Boas leituras e Boas reflexões!

Inté!

Karina Guedes

@okarapoetica


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domingo, 5 de abril de 2020

VEM GOSTAR DE LER!

Algumas pessoas chegam até mim com a seguinte questão, 'eu queria ler mas não consigo ler um livro inteiro', outras dizem "ler me dá sono", ou "tenho preguiça" ou então "parei de ler porque nunca encontrei nada que me interessasse".  

Eh, são diversos motivos que afastam uma pessoa do hábito de ler.  Além da falta de disposição física e traumas literários da época de escola, acredito que muitas delas não conseguem manter o hábito de ler primeiramente por ter um conceito equivocado do que é leitura, depois pela dificuldade de acesso ao livro e por último por não saberem nem por onde começar a desenvolver esse hábito.

Sobre o conceito de leitura, é importante lembrar que o livro não é a única coisa pra ler que existe no mundo. Como amante desse tipo de leitura, estou sempre indicando livros e compartilhando resenhas, mas defendo que todos os outros objetos de leitura são importantes e válidos. Seja uma HQ, um jornal, uma revista e etc. Acho que deixei bem claro o que considero leitura no texto anterior, caso não tenha lido, clique aqui.

Outro ponto importante a ressaltar é que para muitas pessoas o acesso à bons títulos ainda é bem precário ou inexistente. Infelizmente livro ainda é uma coisa cara no Brasil e nem todas as cidades contam com bibliotecas públicas, sebos ou até mesmo livrarias. Comprar livros pela internet em sites como Estante Virtual, onde você encontra diversos sebos do Brasil, seria uma alternativa mas hoje em dia está ficando complicado também devido à elevada taxa do frete, dependendo da região. Já cheguei a encontrar livro por R$3,00 mas o frete era R$12,00. Acredito que esta dificuldade de acessar bons livros, também desestimula a ler.

Além dessa dificuldade de acesso, tem a questão da prática. Nós só aprendemos a ler lendo e a escrever escrevendo e por aí vai... Se a vontade é de ler mais, de ler livros, e desfrutar das deliciosas narrativas que existem nesse mundo, o jeito é treinar. Pensando nisso, selecionei aqui algumas dicas que costumam funcionar bem quando a pessoa tem vontade de ler, mas não sabe por onde começar, ou pior, não se sente capaz de compreender um texto literário.

Gente, ler não tem a ver só com capacidade, mas também com vontade! Porque capacidade para leitura todos nós temos, mas no geral precisamos de algo que nos desperte vontade de ler e de estabelecer um diálogo com determinada obra. O despertar dessa vontade está ligado a questões muito pessoais e só tem um jeito de descobrir o que funciona ou não funciona pra você: experimentando diversos gêneros literários diferentes.

Selecionei aqui três gêneros diferentes que considero iniciais para começar a ter gosto pela leitura, mas saibam que existem outros . Espero que as sugestões colocadas aqui contribuam de alguma forma na sua caminhada inicial rumo ao delicioso universo literário.  Praticamente todos os textos indicados você consegue encontrar facilmente na internet, caso não encontre, deixe seu e-mail nos comentários que posso disponibilizar o material que tenho. ;-)

Dicas e sugestões de leituras

1) Canções narrativas - Se você ainda não tem o hábito de ler, mas sente vontade de ser um leitor voraz, que tal começar pela música? Sim, música serve pra ler.  Muitas canções são verdadeiras narrativas, contam histórias e dilemas de diversos tipos de personagens incríveis. Sugiro que depois de ouvir a música, leia a letra em voz alta. Quanto mais épica a letra, melhor será o fruir literário.

Sugestões de canções narrativas
  • Faroeste Caboclo – Legião Urbana
  • Construção – Chico Buarque
  • A Novidade – Gilberto Gil
  • Marvin - Titãs
  • Camila Camila- Nenhum de Nós
  • Geni e o Zepelim – Chico Buarque
  • Samba do Arnesto – Adoniram Barbosa
  • O Malandro – Chico Buarque
  • A Volta do Malandro – Chico Buarque
  • O Meu Guri - Chico Buarque
  • Metrô Linha 743 – Raul Seixas
  • Ovelha Negra - Rita Lee
  • Fera Ferida – Roberto Carlos e Erasmo Carlos, eternizada na voz de Maria Bethânia.
  • O Mundo Anda Tão Complicado - Legião Urbana
  • Dezesseis - Legião Urbana
  • Negro Drama - Racionais Mc´s
  • Brasil com P - GOG
  • Sobre as Folhas (ou o Barão nas árvores) - Cordel do Fogo Encantado
  • Morte e Vida Stanley - Cordel do Fogo Encantado
  • O Dia Em Que a Terra Parou - Raul Seixas
Eu poderia citar centenas de canções desse tipo, mas paro por aqui. Percebam que fiquei entre a MPB, o rock nacional e o RAP, mas esse tipo de canção existe em praticamente quase todos os gêneros musicais, basta pesquisa dentro do seu gênero musical favorito.

2) O Conto, é outro gênero literário bem interessante para quem está aprendendo a gostar de ler. Pois, os contos são verdadeiros aperitivos do delicioso banquete literário que está reservado para nós. Além de se tratar de um gênero bem gostoso de ler, os contos costumam apresentar narrativas mais concisas em torno de um só núcleo. Considero o conto um jeito bem interessante de experimentar os cânones literários e ver qual deles é mais  a sua praia. 

Sugestões:
  • O Espírito – Artur Azevedo
  • A Cartomante – Machado de Assis
  • A Carteira – Machado de Assis
  • Antes do Baile Verde – Lygia Fagundes Teles
  • Venha Ver o Pôr do Sol – Lygia Fagundes Teles
  • A Terceira Margem do Rio - João Guimarães Rosa
  • História Interrompida – Clarice Lispector
  • A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais – Clarice Lispector
  • De quanta terra precisa um homem - Liev Tolstói

3) Crônicas - Pequenas histórias que nos convidam a ver o cotidiano com uma lupa para subjetividade.  Uma dica aqui é se atentar a época em que o texto foi escrito, apesar de que uma boa crônica acaba sendo atemporal, mas situar o momento em que a obra foi produzida às vezes ajuda na compreensão.

Sugestões:
  • O Coco de Duda – Elika Takimoto
  • História Estranha – Luís Fernando Veríssimo
  • Sorrindo Pelas Costas – Eliane Brum
  • Analfabetismo – Machado de Assis
  • O Analista de Bagé – Luís Fernando Veríssimo
  • O Melhor Amigo – Fernando Sabino
  • Condôminos – Fernando Sabino
  • Não fale com plantas! (Ela Gostaria de ter escrito, em sua lápide) – Eliane Brum
  • Borboleta Amarela – Rubem Braga

Bem, essas são apenas algumas sugestões de textos de alto teor lírico que podem contribuir para o despertar do seu gosto pela leitura. Outra dica é ler mais de uma vez cada texto. A releitura é um exercício que além de nos ajudar a compreender melhor a história (pois a cada leitura você pode perceber algo que não havia percebido antes),  contribui para que aos poucos você vá descobrindo as camadas mais profundas do texto, o que está nas entrelinhas e não foi explicitamente dito pelo autor, mas apenas sugerido. Sinceramente pra mim essa é a melhor parte da leitura!

E para concluir, leia de tudo um pouco sem preguiça, conforme você for experimentando, vai descobrindo que tipo de texto te agrada mais e assim começa a elaborar o seu próprio repertório.
 
Só de se permitir conhecer alguns desses textos você já estará dando um grande passo para a aquisição do hábito da leitura. Saiba que tem muito mais de onde vieram estes e que todos eles estão lá aguardando por você para uma grande festa das palavras!

Caso tenham outras sugestões, serão muito bem vindas. Deixem nos comentários.

OBS: Texto escrito especialmente para meus sobrinhos Antônio Paulo, Carlos Henrique, Bruno César. e Heitor. Com muito amor! Tia Ka!

Karina Guedes
@okarapoetica

sábado, 4 de abril de 2020

LER É SER!


Ler é um exercício que nos tira do lugar comum! E para compreender essa afirmação, preciso lembrar que estou considerando aqui a leitura como um gesto mais abrangente, pra além do texto escrito. Ler é estar diante de um objeto ou situação e se permitir buscar diálogos e caminhos de compreensão para o que se revela diante de nós.

Como assim?

Tem uma personagem que adoro e que exemplifica bem o conceito de leitura que estou tentando colocar aqui. O detetive Sherlock Holmes - criado pelo escritor Arthur Conan Doyle - personifica o que chamo de poder de leitura. Através do tato, olfato, visão, audição, até do paladar, além de uma brilhante capacidade de dedução, ele consegue não só de desvendar os mais misteriosos crimes, mas também de reconstruir narrativas inteiras e interpretá-las de forma brilhante. Ou seja, ele simplesmente faz leituras o tempo todo em suas empolgantes aventuras.

Isso acontece conosco também, pois nós não lemos somente com nossos olhos, mas sim com o corpo e toda nossa cultura. Leitura não é só decodificar de letras e palavras elencadas e sim uma prática  de interação constante que envolve texto, autor, leitor, contexto e emoções. Ou seja, uma mistura de vários elementos que podem promover em nós uma forte mudança de estado de espírito. E dependendo do objetivo da leitura e da maneira como for conduzida, pode nos levar a outros estágios de percepção e compreensão da vida, do mundo e de nós mesmos.

Leitura não se resume a livros.

Existem diferentes objetos de leitura, livros, pinturas, músicas, poesia, danças, teatro, diferentes  tipos de narrativas. Você pode fazer uma leitura apenas com o intuito de obter informação objetiva e ler um jornal, uma revista cientifica ou bula de medicamento; pode fazer uma leitura para mero entretenimento ou até mesmo se permitir experimentar estéticas literárias mais elaboradas para  o simples fruir do devir. 

A literatura, a arte, assim como as diferentes linguagens artísticas, de modo geral nos oferecem interessantes exemplos de “coisas pra ler” e experimentar o fruir da palavra. Acredito que cada uma delas com suas próprias particularidades, nos permitem trilhar um caminho incrível de mudança de estado de espírito e elevação de consciência, pois não atuam somente no campo da emoção, mas também no campo da razão.

Sou amante da arte literária e realmente acredito na literatura como terapia, como caminho de transcendência e elevação.  Além de ferramenta de formação, entretenimento e outras funções que se queira atribuir, a literatura tem o poder de estabelecer diálogos com aspectos mais íntimos de nossa mente.

Uso o termo literatura como a representação de um conjunto bem amplo de produções artísticas, que se organizam esteticamente em torno da palavra (não me refiro somente aos cânones literários). Ou seja, os causos, histórias, poemas, canções, cordel, teatro e tudo o que puder estabelecer essa ponte de diálogo entre nossa poética e o mundo.

E por que precisamos da literatura?

Porque ela nos humaniza. Os objetos literários, estruturados e de relevância estética, dialogam com nosso caos interior e promovem perturbação e ordem ao mesmo tempo, fazendo vir à tona o que há de mais profundo em nós, pois opera alternadamente entre nosso estado consciente e inconsciente. E ao trazer todo nosso estado de espírito mais íntimo à flor da pele, somos levados a lidar com ele. Com nossos pensamentos, sentimentos e inquietações mais íntimos.

Talvez isso explique um pouco, porque determinadas leituras são perturbadoras, porque gostamos mais de um tipo de história do que de outro, ou porque nos apegamos ou odiamos determinado personagem. Estamos o tempo todo dialogando, consciente ou inconscientemente com o objeto literário que nos dispomos a conhecer. Nós nos envolvemos com a palavra e isso é fenomenal.

A capacidade de fabular, de se perder num devaneio, de se emocionar com uma história, de criar e fruir a ficção, proporciona à nossa jornada um sentido mais amplo e mais interessante do que o simples nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Portanto, ler e se envolver com a fruição literária, significa não se limitar ao destino biológico e buscar fazer da existência algo mais significativo e menos sofrível possível.

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Vem gostar de ler!

Ler é sair da mediocridade do cotidiano, gostar de ler é um gesto de rebeldia contra as limitações impostas pelas circunstâncias da vida. Ler é se aventurar num caminho sem volta para o desenvolvimento pleno do ser. Experimentem! 

Se por acaso você ainda não sabe por onde começar, deixei aqui algumas dicas pra quem quer se iniciar nessa jornada de pleno desenvolvimento do ser e se aventurar nos caminhos da leitura.
[CLIQUE AQUI]

Boas leituras e boas aventuras literárias!

Karina Guedes
@okarapoetica


segunda-feira, 23 de março de 2020

QUARENTENA LITERÁRIA!

Olá queridos companheiros (as) de viagens literárias!

Que momento difícil esse em que nos encontramos.  Eu tinha toda uma programação para o mês de março, com leituras e resenhas de obras de grandes escritoras e teríamos também segundo encontro do nosso Rodízio Literário, onde fizemos a leitura da maravilhosa poesia de Ryane Leão. Mas de repente tudo mudou e infelizmente vamos ter que adiar o encontro e sinceramente eu perdi um pouco do pique do que estava preparando para este mês.

Ocupei boa parte dos meus dias buscando, filtrando e digerindo as informações a respeito do covid-19. As coisas estão acontecendo e mudando de paradigmas muito rapidamente, na mesma velocidade da transmissão do vírus. Então, demorei um pouco para me organizar e pensar no que fazer nessa quarentena, que pelo visto não será só de quarenta dias. Que coisa! Mas vamos tentar ver o lado positivo (se é que podemos chamar assim) de tudo isso?

A orientação máxima para conter essa pandemia é para ficar em casa. Oras, para quem pode fazer isso, essa talvez seja uma oportunidade única de utilizar um pouco desse nosso precioso tempo de vida com nós mesmos. Acredito que vocês devem estar recebendo aí chuvas de indicações de coisas para matar o tempo nesse período. Mas que tal se em vez de matar o tempo, nós pudéssemos viver esse tempo. Sabe, experimentar essa chance de fazer algo significativo, intenso, belo e transformador. Algo que nos faça sentir nossa existência de maneira mais ampliada. Ficar em casa pede recolhimento não só do corpo, mas da mente e espírito. Se resguardar por inteiro e ao mesmo tempo direcionar nosso olhar para o que há de mais profundo em nós.

E sabe o que pode ajudar a chegar nesse elevado nível de consciência? Um livro. Sim, o bom e velho livro! Os filmes, séries, jogos e tals, podem ser interessantes experiências de leitura, reflexão e diversão, mas nenhuma delas se compara ao livro.

Compreendo que ler um livro é uma tarefa árdua para muita gente e de modo geral é um desafio de diferentes níveis para cada um de nós. Pois, trata-se de uma atividade que exige disciplina e até mesmo disposição física para poder mergulhar numa narrativa. Sem contar que o acesso ao livro impresso tem se tornado cada vez mais escasso e agora com bibliotecas fechadas ficará ainda mais difícil. No entanto, mesmo compreendendo que o que vou propor aqui vai na contramão das ansiedades por distrações de fácil acesso, não consigo deixar de recomendar ler livros durante essa quarentena. Pode ser aqueles empoeirados na sua estante ou os que estão disponíveis em plataformas digitais, mas leia um livro.

Ler um livro é uma verdadeira aventura, um exercício de concentração quase meditativo e ao mesmo tempo uma experiência sensorial incrível. Quem tem o privilégio de ter livros impressos por perto, pode vivenciar uma experiencia que considero inigualável: ao tocar  e pegar no livro sentimos o peso e a textura do papel, o cheiro que bate a cada virada de página, as emoções que surgem a cada parágrafo e depois vem a famosa ressaca que bate quando aquela história em que você se envolveu tanto, simplesmente acaba.

Nada contra as plataformas digitais, pelo contrário, acho que elas cumprem o papel da acessibilidade e expandem a aventura literária para lugares onde o livro impresso talvez nunca chegue. Mas particularmente não consigo abrir mão desse contato físico com o livro em papel. Preciso desse cheiro de papel e tinta, isso é totalmente pessoal.

Sempre que indico leitura de livros, ouço o resmungar de gente dizendo que não gosta de ler. Neste caso costumo responder o seguinte: não é que você não gosta de ler, provavelmente você só não descobriu ainda seu gênero ou estilo literário! Ou então você ainda não encontrou sua alma gêmea literária, aquele escritor (a) que com ardilosas palavras te arranca do marasmo da ordinária vida cotidiana. E para isso você precisa ir à luta, percorrer páginas e páginas, procurar até encontrar. E cá entre nós, já adianto uma coisa: a melhor parte dessa jornada não é quando a busca termina, mas sim o próprio caminho.

Não se preocupe se não souber por onde começar a ler, afinal estarei por aqui de quarentena também, compartilhando dicas de leituras e aventuras para que esse tempo difícil em que vivemos, possa ser o menos doloroso possível. E se tem algo que pode nos livrar do tédio e nos guiar nos caminhos que levam às profundidades do nosso ser e à elevação da consciência, o nome disso é Literatura.

Fiquem em casa, se cuidem e aproveitem!

Karina Guedes
@okarapoetica

domingo, 13 de outubro de 2019

FRANKENSTEIN OU O PROMETEU MODERNO - Mary Shelley

 


Frankenstein ou o Prometeu moderno, é um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, escrito por Mary Shelley aos dezenove anos de idade.

A primeira vez que li esse livro foi  há muitos anos numa versão resumida dessas edições de primeiras leituras, um texto bem raso. Talvez por não ser o texto completo, não consegui captar a essência e intensidade desta história fascinante.

Desta vez, lendo o texto completo numa edição bilingue, simplesmente amei esta obra. Foi como se estivesse lendo pela primeira vez. 

Que texto! 

Uma narrativa incrivelmente envolvente, com personagens intensos e que nos convida a fazer algumas reflexões acerca do ser humano, da sociedade, da liberdade, do amor, dos males que assombram nosso espírito e nosso destino. 

Porém, publicá-la não foi algo fácil. O mercado literário que nunca foi muito aberto às mulheres, em 1818 era ainda mais exclusivo e dominado pelos homens. O trabalho de Mary Shelley foi rejeitado por vários editores e muitos ainda duvidavam de sua autoria, sugerindo que a criação pertencia ao seu marido, afinal Percy Shelley era um poeta bem conhecido. A primeira edição foi publicada anonimamente em três volumes, como de costume a época, e com o prefácio de Percy Shelley. Na segunda edição Mary já figurava como autora da obra e na terceira edição de 1831, talvez a mais popular publicada em volume único, ela escreve uma introdução que narra a sucessão de eventos que a levaram a compor a obra. 

A edição que acabo de ler foi a primeira lançada em 1818, considerada por muitos especialistas a que conserva melhor o verdadeiro espírito da obra, pois ainda não sofrera as alterações e nem as revisões que a própria autora fez depois. 

Confesso (é notável) que é com muita paixão que escrevo estas linhas. Esta história de certa forma me tocou desde a primeira leitura. Porém, relê-la dezessete anos depois me trouxe várias percepções e reflexões que eu não tinha tido anteriormente.

A começar pela genialidade da autora. Mary Shelley tinha apenas 19 anos quando escreveu esse romance. Através de sua história, ela cria não a penas uma brilhante narrativa, mas também um novo gênero literário: a literatura de ficção científica. 

Filha de Mary Wollstonecraft , escritora inglesa do século XVIII, filósofa, defensora dos direitos das mulheres e de William Goldwy, jornalista inglês, filósofo, político, novelista, considerado um dos criadores do Anarquismo. Mary cresceu numa família de questionadores e isso estará presente em sua obra, pois seu livro apresenta alto teor filosófico e faz com que seja não apenas uma história de terror que perturba, mas também que comove e faz pensar.

Seu estilo é marcado por uma escrita elegante e sofisticada, mas sem ser presunçosa. Poética sem ser pedante e que prende o leitor a cada página com a envolvente cumplicidade das cartas. Através da narrativa epistolar, a autora utiliza-se do recurso estilístico do ponto de vista. Ora a voz narrativa é do criador, ora da criatura, ora do capitão que reconta a história que acabara de ouvir para sua irmã distante. Esse contar e recontar faz com que a narrativa ganhe alto teor de argumentação, deixando o leitor muitas vezes em dúvida em relação a que partido tomar, se do criador ou da criatura. Ou de ambos.

As personagens são intensas e de personalidades bem marcantes, como a meiga e bondosa prima Elizabeth, o amoroso e compreensivo pai Alphonse Frankenstein, o ingênuo e deslumbrado amigo Clerval, o orgulhoso e obstinado Victor Frankenstein e a enigmática e cativante Criatura, são alguns exemplos. 

Considerado um grande romance do gótico inglês, movimento que se inicia na arquitetura da idade média e depois se expressa também na literatura, o texto de Mary Shelley apresenta as principais características deste estilo como certas visões do terrível na natureza,  as tempestades fortes, raivosas, assustadoras, ambientes que sugerem terror, medo; comportamentos e situações estranhas e criaturas de origem sobrenatural. Porém, traz também marcas do romantismo, como valorização desta natureza imponente e grandiosa, da emoção, do instinto. A dicotomia entre o sagrado e o profano: que por um lado, apresenta um sentimento religioso muito forte e por outro a atração e fascínio pelo demoníaco, pelas ciências ocultas, sentimentos obscuros que podem levar o homem ao crime e a atitudes pavorosas.  Um texto magistral, uma obra que merece ser lida.


RESUMO DA HISTÓRIA

Não irei expor aqui todos os detalhes do texto, meu resumo contém apenas as partes mais significativas para a análise, porém será inevitável revelar partes do enredo.

Tudo começa quando o jovem viajante Robert Walton durante uma expedição com destino ao Polo Norte, em determinado ponto de sua viagem após ser impedido de avançar por um bloqueio de gelo, encontra um homem em frangalhos num trenó quase à beira da morte. Este homem é resgatado e fica aos cuidados de Walton que havia acabado de escrever uma carta a sua irmã lamentando a solidão e a falta de ter um amigo íntimo. 

O homem resgatado chama-se Victor Frankenstein e depois de algum tempo começa a contar a Walton sua história no intuito de lhe passar alguns conselhos.  O relato começa com Victor contando sobre sua infância e sua educação, que fora livre e culturalmente rica. Desde a infância já se mostrava curioso e interessado em compreender os fenômenos naturais. Filho de família abastada teve a oportunidade de estudar em boa escola e ir à universidade. 

Em seus primeiros passos nos estudos se aproximou de autores alquimistas, mas na universidade tornou-se estudioso das ciências naturais especialmente de química. Foi nesta época, vivendo afastado da família e mergulhado em estudos que Victor à medida que se destacava na universidade tornou-se obcecado pela investigação sobre a criação da vida. Dedica-se por quase dois anos a essa pesquisa e descobre, de modo não revelado na história, como reavivar tecidos mortos e então se empenha em um projeto quase suicida de criar um ser humano. Trabalho que lhe suga toda saúde física e mental, mas que conclui com êxito. Victor finalmente dá vida à Criatura. Porém, esta não é dotada de harmonia e beleza como ele havia imaginado e nem é uma pessoa ainda. Surge horrenda como um cadáver ambulante e só. Victor se apavora com sua criação, a rejeita e a abandona. A rejeição e o abandono, serão os primeiros sentimentos conhecido pela criatura e isso será marcante e determinante em seu destino.

A criatura some, depois de um tempo Victor decide voltar para casa de seu pai e descobre que seu irmão caçula havia sido assassinado. A pessoa culpada pelo crime é Justine, uma inocente criada e Victor logo descobre que o verdadeiro assassino é o monstro que ele criou. Mergulhado em sentimento de culpa e tristeza, Victor inicia um duelo com a criatura e com sua própria consciência. Não pode contar a todos o que realmente sabe, pois seria tido como louco e ao mesmo tempo não tem forças para enfrentar o monstro que criara. Desde a morte da mãe de Victor e as mortes de seu irmão e de Justine, a família se vê em um ciclo de desgraças e tristezas. Diante disso seu pai propõe que a família se retire para o campo por uns dias e então a família viaja. Num belo dia em que todos estavam descansando na hospedaria, Victor decide ir sozinho até o cume Montanvert e quando chega no alto vê que uma criatura gigante e horrenda o persegue, e que o encontro com seu monstro seria inevitável. 

Para a surpresa de Victor e do leitor a criatura fala e diz que quer apenas conversar e pede para que Victor o escute sua história. E aqui inicia-se as páginas mais emocionantes da narrativa. Até então a autora deixa o leitor conhecer a criatura pelo olhar egoísta e obstinado de Victor e neste momento a Criatura tem a oportunidade de se apresentar e narrar o seu lado da história, numa sequência argumentativa objetiva, lúcida e envolvente. Ao se apropriar da vantajosa capacidade de linguagem que tem os humanos, a Criatura adquire autonomia de pensar e agir.  E relata os eventos que se sucederam depois que deixou o laboratório de Victor e de como conseguiu sobreviver depois de ser rejeitado e abandonado pelo seu criador, de como aprendeu a observar a natureza e a si mesmo. Em sua busca em compreender o sentido da vida, chegou às questões inevitáveis: Que eu sou? De onde venho? Para onde vou?

Em sua trajetória em busca por respostas, conhece uma família de camponeses e lhes observa a certa distância. O cotidiano desta família inspira na Criatura desejo afeto, amor e compreensão. Porém, ao receber apenas preconceito, ódio e maus tratos das pessoas que cruzaram seu caminho, a Criatura desenvolve sentimentos de ira, revolta, inveja e ódio, nutrindo profundo sentimento de vingança contra Victor Frankenstein que o colocou no mundo e o abandonou sem lhe garantir o direito ao afeto e ao amor. E essa revolta o levou a cometer os mais perversos atos, inclusive o assassinato do irmão caçula de Victor.

Ao final da conversa a Criatura faz um comovente pedido ao seu criador, ele diz que apenas deseja uma companhia e pede para que Victor faça uma outra criatura fêmea para ser sua companheira, alguém como ele nas mesmas proporções e deformidades, alguém que possa vê-lo como semelhante e não o rejeite.

Mesmo depois de ouvir o emocionante relato, Victor não consegue perdoá-lo e sente repulsa por ele. E para se livrar da situação desastrosa que criara (ou até mesmo aliviar parte de seu sentimento de culpa).  Apesar de reconhecer sua culpa em toda essa tragédia, sendo ele o criador do monstro e de certa forma culpado pelos desastres que se sucederam desde a conclusão de seu projeto, ele não consegue lidar com as consequências de seus atos.  Mergulha num abismo profundo de depressão e amargura. Toda genialidade de seu ser é consumida aos poucos pelo duelo psicológico travado com a criatura, pois ele lhe deu a sobrevivência, mas não lhe garantiu a vida. E a criatura reivindica seu direito de viver e gozar daquilo que pode ser mais sublime no ser humano, o amor. E esse duelo entre criador e criatura, causará a morte de mais pessoas inocentes, trazendo mais tragédias para a sua família e levará Victor Frankenstein a ruína total. Obcecado e desafiado pela sua criatura, irá persegui-lo até o fim de seus dias, literalmente.


POSSÍVEIS LEITURAS E REFLEXÕES 

1) Os limites da ciência

 Alguns elementos do contexto histórico presentes nos eventos que entrelaçam a trama, dão ao romance uma contemporaneidade que foi impactante na época e ao mesmo tempo se mostra atual até os nossos dias. Como por exemplo, os sentimentos controversos causados pelo avanço das pesquisas cientificas, sobretudo a medicina. Se por um lado ficamos maravilhados com descobertas que trazem curas para nossas doenças, por outro ficamos amedrontados com avanços que estão além da nossa compreensão ou que exigem uma reflexão ética e moral, como no caso das pesquisas sobre clonagem, por exemplo. 

 Até que ponto o ser humano pode e deve interferir na “criação” da vida? Esta reflexão está presente na obra de Mary Shelley começando com o próprio subtítulo “O Prometeu moderno”, referindo-se ao mito de Prometeus que na mitologia grega roubou o fogo dos deuses e deu aos homens, sendo violentamente castigado depois.  Victor que a princípio é apenas um jovem estudante extremamente curioso, se torna um cientista obstinado e sofre as consequências de sua obstinação.

Desde a criação de vacinas, sucesso de transfusões de sangue, aos últimos avanços em pesquisas cientificas envolvendo o DNA humano e a criação de bebês com características escolhidas pelos pais, o debate sobre bioética e os limites da ciência são inesgotáveis. E já lá no séc. XIX Mary Shelley propunha essa reflexão de forma brilhante. 

"Ninguém, a não ser aqueles que já experimentaram, pode experimentar a tentação da ciência."  (Victor Frankenstein)


2) Homem versus Natureza

Esse embate está presente o tempo todo no texto, a natureza é apresentada de forma assustadora e bela, ao mesmo tempo temível e sublime, porém sempre como superior. As paisagens são descritas com minuciosos detalhes e sempre estão relacionadas com momentos de elevação da consciência dos personagens ou conforto psicológico para os mais diversos anseios da alma, ou seja, a natureza se coloca como inesgotável fonte da verdadeira cura. Se sobrepondo aos “pequenos” passos alcançados pelas recentes descobertas científicas época. 

“... como eu já tinha me acostumado à chuva, á umidade e ao frio, decidi ir sozinho até o cume do Montanvert. Lembrava-me do efeito que a vista do imponente glaciar, sempre em movimento, produzira em minha mente quando vi pela primeira vez. Eu fora tomado por um êxtase sublime, que dava asas à alma e permitia que ela levantasse voo desse mundo sombrio em direção à luz e à alegria. A visão do terrível e do majestoso na natureza, de fato, sempre tivera o efeito de elevar minha mente e fazer-me esquecer das preocupações passageiras da vida.” (Victor Frankenstein, ao decidir escalar o cume do Montanvert)


3) Liberdade 

A liberdade é posta em xeque. Afinal, somos livres? Ou a liberdade é uma ilusão que a natureza humana persegue?

“Ai! Por que os homens ostentam uma sensibilidade superior à dos animais? Isso só os torna mais necessitados. Se nossos impulsos se resumissem à fome, sede e desejo, seríamos quase livres; mas somos agora movidos por cada vento que sopre e por uma palavra casual ou uma imagem que aquela palavra possa transmitir.”

Tanto nesta como em outras passagens da narrativa, é sugerido que o conhecimento é ao mesmo tempo glória e ruína dos homens. Somos livres para pensar, porém os pensamentos podem nos trazer sentimentos que nem sempre controlamos, alegria ou tristeza não depende somente da vontade humana. As influências externas condicionam nosso estado de espírito. 

 

4) A origem do mal e a exclusão social

A maldade nasce com o ser humano ou é condicionada pelo meio social? A história coloca uma reflexão sobre a natureza da maldade no ser humano. Seria o mal parte da natureza humana, ou uma característica adquirida mediante a privação de amor e aceitação?

O que a trajetória da Criatura nos sugere é que o mal não está na gênese do coração humano, ele é desenvolvido à medida que somos expostos a sentimentos malignos, de desprezo, ódio e rancor. A Criatura usa esse argumento em sua defesa, ao expor que desde o início deseja ser aceita e amada pelos humanos. Mas a superficialidade da sociedade vigente, julga pela aparência e condena tudo o que é estranho ou fora do padrão imposto. 

O único ser que consegue ver a Criatura além de sua aparência e enxergar o amor e desejo de afeto que carrega em seu coração é justamente um cego. O velho da cabana se solidariza com sua dor, ao ouvir a criatura compartilhar seu imenso desejo de ser aceito, de receber afeto de poder dar todo amor que é capaz. Mas ao ser brutalmente rejeitada em várias situações, a Criatura desperta em seu coração ódio, ira e inveja por não ter direito ao amor que os outros têm. A partir dessa confusão de sentimentos negativos e intensos nasce o desejo de vingança que levará a cometer barbaridades em sua trajetória e a perseguir Victor Frankenstein, tornando-se uma criatura excluída, marginalizada e desprezada pelo seu criador e por todos com que tem contato. Seria então a infelicidade que torna as criaturas más? 

 De todas as questões colocadas, essa foi uma das mais tensas do livro e confesso que não tenho uma opinião conclusiva a respeito. Todavia, a argumentação da Criatura é por demais coerente, o que me despertou uma forte empatia pela sua dor. 

“Devo ser considerado o único criminoso, quando toda a humanidade pecou contra mim? Porque você não odeia Felix, que escorraçou de sua sua porta com desprezo alguém que era seu amigo? Por que você não odeia o camponês que tentou matar o salvador de seu filho? Não, esses são seres virtuosos e imaculados! Eu, o miserável e o abandonado, eu, o aborto que deve ser desprezado, expulso e maltratado. Mesmo agora me ferve o sangue, ao lembrar-me dessas injustiças.” (a Criatura)

 E aqui podemos, fazer um paralelo com nossa sociedade contemporânea e talvez compreender melhor a história de Mary Shelley. Hoje acompanhamos a luta de mulheres, negros, homossexuais, indígenas, transgêneros para poderem simplesmente existir. O número de feminicídios aumenta a cada dia, vemos as manchetes dos jornais que denunciam o genocídio contra as populações negras e indígenas, a transfobia é uma realidade latente. Como essas pessoas podem se desenvolver plenas e felizes, livres de ódio e rancores numa sociedade que as exclui, marginaliza, persegue e mata? Talvez esses questionamento nos leve a compreender por que a felicidade plena não está ao alcance de todos. Difícil ser feliz sendo excluído por ser diferente e nutrido apenas de preconceito, ódio e rancor.  A intolerância é uma motivação perigosa e muitas vezes letal. A sociedade pode até não ser a única forjadora do mal no ser humano, mas podemos ver que com uma visão medíocre do outro e falta de empatia com a dor alheia, contribui bastante para isso. 


5) A solidão, um castigo. 

 Ao ler o relato tão comovente da Criatura sobre sua necessidade de companhia, ao pedir que Victor lhe faça uma fêmea, não seria exagero dizer que podemos até nos reconhecer em sua angústia. Pois, nós humanos passamos por um processo semelhante durante nossa criação e desenvolvimento. Nascemos sem pedir para nascer, trazidos a um mundo estranho, expostos a sensações nunca sentidas e temos de interpretá-las a princípio sozinhos. Depois aprendemos a linguagem, adquirimos um idioma, começamos nossa aventura ao descobrir e desvendar a vida, o mundo e desde o princípio buscamos por afeto e companhia. A aversão à rejeição e a busca por amor e completude calcam os alicerces da nossa existência. Com exceção daqueles que apresentam alguma patologia, ninguém gosta de ser rejeitado, julgado pela aparência ou excluído. De modo geral todos nós desejamos ser aceitos em nosso círculo social e amados pelos nossos pares. Talvez tenha sido intencional, talvez não, mas o com comovente relato da criatura, Mary Shelley nos convida a fazer uma profunda reflexão acerca da essência humana, como e por que nos tornamos o que somos, e porque buscamos sempre viver em sociedade e não ao contrário. 

A desgraçada vida da Criatura, ilustra o que pode acontecer com qualquer pessoa marginalizada e condenada ao isolamento social por puro preconceito, medo ou falta de compaixão. 

A solidão torna-se para a Criatura o pior dos castigos, afinal ao se transformar num verdadeiro demônio, não encontra companhia nem na maldade. Pois não encontra ninguém que consegue chegar ao nível tão profundo de crueldade em que chegou, nem mesmo seu criador que perdera todo seu senso de humanidade, pode alcança-lo.


6) O eterno duelo entre criador e criatura.

A tentativa de chegar ao conhecimento que ninguém chegou, leva Victor às consequências mais extremas. Ele se tona melancólico, obcecado e depressivo.

Durante toda a história vemos Victor fugir da sua criação. Desde o início ele aborta sua experiência e mesmo sofrendo crises de consciência e autojulgamento ético e moral, ele não tem coragem de assumir as consequências de seus atos e foge. Mas ao mesmo tempo sabe que o confronto com sua criatura será inevitável e toda sua tormenta só terminará com a morte de um dos dois. 

Ao tentar imitar Deus, dando origem a uma vida bastarda, Victor sofre toda má sorte de amarguras, perdas e tristezas que o levam ao definhamento de toda sua vitalidade como ser humano e paga com sua vida por seu pecado.  A partir da morte, Victor deu luz a uma infeliz existência e como consequência de sua audácia, pagou com a própria vida.  

No distinto duelo entre criador e criatura, assistimos o despencar do fluxo vital nos dois. Ambos se elevam, ambos declinam. Não há vencedor, apenas ramificação de dor, tristeza e melancolia. 


OUTRAS  OBSERVAÇÕES

Leitura para reler e reler

Um clássico não se esgota em uma só leitura, por isso é um clássico. Por ser um texto que permite diferentes reflexões e cada vez mais complexas. Seja pela análise da estética literária, pela interpretação psicológica das personagens, pelo contexto histórico ou pelos debates que apresentam e que atravessam o tempo, sendo possíveis de serem desenvolvidos e ampliados em qualquer época. 

Uma história perturbadora, onde sentimentos como tristeza, dor, tédio, melancolia, ódio, inveja, vingança, são apresentados de maneira reflexiva e nada superficial. Gosto desse terror clássico, que apresenta não apenas o sombrio, o medo, o sobrenatural para assustar o leitor, mas que através de uma narrativa bem elaborada e personagens bem construídos, nos revela um possibilidade de leitura sobre nós mesmos e nosso sentimentos mais ocultos e sinistros. 

 Simplesmente amei ter lido este livro e o farei novamente em outra oportunidade. Fiquei intrigada com a obstinação pelo conhecimento que o dr. Victor Frankenstein desenvolve e gostaria de entender mais esse ponto, sob o ponto de vista da psicanálise. 

Por que algumas pessoas são extremamente curiosas desde a infância e outras não? Por que algumas querem ir além dos limites colocados e outras se contentam com o que está posto? Por que algumas conseguem oferecer afeto e ter empatia com a dor alheia e outras não?

O professor Marcos Bagno, pessoa que admiro muito, disse certa vez “A ciência não é a busca por respostas e sim por perguntas melhores”. Por que será que alguns teimam a vida inteira atrás dessas perguntas e outros aceitam qualquer resposta? 

E para finalizar, confesso que terminei o livro com uma imensa vontade de ler tudo de novo. Mas farei isso em outro momento, pois preciso de outras leituras, para poder compreender melhor esta história incrível e tentar encontrar algumas respostas possíveis ou questionamentos melhores.


Karina Guedes

@okarapoetica


Texto originalmente publicado no Recanto das Letras: 

https://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/preview.php?idt=6768816

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sexta-feira, 1 de março de 2019

OKARA POÉTICA - Um longo percurso...


Tínhamos uma inquietação pulsante em nossos jovens corações, uma vontade de saber mais sobre nós e o mundo, tudo girava em torno das perguntas elementares, Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? O que é ser brasileiro?

O Projeto Okara Poética começou lá na zona sul de São Paulo por volta de 2010, com uma vontade imensa de descobrir e compartilhar. Eu não sabia muito bem o quê e nem com quem. Havia muita inquietação em minha mente e em meu coração, quase explodindo de tanta curiosidade e euforia pelos mistérios que pudesse desvendar. Descobrir mais sobre nós mesmos e nossa cultura brasileira e compartilhar as descobertas com quem estivesse a fim. E de repente encontrei mais gente muito afim, com as mesmas inquietações e vontades. A princípio nos tornamos uma dupla e começamos esboçar caminhos e objetivos para essas vontades. Estávamos muito ligados com estudos sobre a cultura indígena e cultura popular brasileira. Escrevi então, um artigo sobre a recente literatura indígena em língua portuguesa que começava a ganhar espaço no meio literário e fiquei fascinada por ela. (Esse artigo foi meu TCC do curso de Letras)

Ao compartilhar vontades e descobertas com mais pessoas afins, em pouco tempo tínhamos um grupo. Éramos então cinco pessoas de diferentes áreas de estudo interessados em saber mais sobre as raízes formadoras da cultura brasileira. Começamos a dar vida ao projeto. Fizemos um sarau inesquecível e começamos a sonhar com novos rumos. Seguimos juntos por algum tempo, até que infelizmente o grupo se separou. Novas vontades e inquietações surgiram nos corações de cada um e novos caminhos também. Mas pra mim o Okara era algo muito mais forte que um projeto, algo que até hoje tenho dificuldade de explicar em palavras, algo que sinto pulsar intensamente em meu coração e que precisa acontecer. Então guardei-o no peito para que voltasse a vida quando fosse a hora. 

Bem, minha trilha de projetos pessoais trouxe-me para o Litoral Norte de São Paulo e aqui estou desde 2014. Durante o difícil começo de uma nova vida à beira mar, cheguei a pensar que o Okara Poética teria sido só um sonho de juventude, mas os ventos do sul sopraram forte em meu coração e reacenderam a vontade de descobrir e compartilhar tudo de novo. E foi assim que em 2017 retomei as trilhas da literatura. Retomei os estudos sobre a literatura indígena (que a essa altura já estava sendo chamada de textualidades inndígenas), que me levaram para os caminhos das narrativas ancestrais e do fascínio que nós seres humanos temos pela ficção, pelas histórias, pela manifestação da palavra. A poesia sempre fez parte da minha vida e hoje é um dos mais fortes motivos para me manter de pé e seguir em frente. “Sempre em frente” me disse o poeta...

Portanto, eis me aqui. Levantando a Okara Poética novamente! A-ho!

As pessoas têm me perguntado, mas o que é Okara Poética afinal?  Bem, aprendi há muitos anos atrás que Ocara (okara) é uma palavra que em tupi-guarani significa o centro da aldeia, onde se realizam as manifestações, as festas, os ritos, o lugar daquilo que é comum, público, te todos sem exceção! (Em oposição a Oca (oka), que seria um espaço mais ou menos reservado). O que seria equivalente em português a palavra praça. Mas descobri recentemente que os gregos, por incrível que pareça, também tinham uma palavra que representava a mesma ideia: Ágora. Incrível, não? 

Pra mim ficou marcado desde o início essa ideia de um espaço coletivo para o fruir da poética! E isso não saiu da minha cabeça e daí vieram as outras ideias. Adorei essa palavra, para mim é como um chamado e hoje faço dela meu território, meu lugar, minha aldeia, onde convido a todos para brincar de poesia comigo. \o/

Sendo assim, Okara Poética torna-se um lugar, físico ou não, para nossas manifestações, onde os diversos tipos narrativas e celebração da palavra ganham voz e luz, emanando e compartilhando a poética que habita em nós. 

Este blog é só um ponto de encontro para orientarmos nossas bússolas e seguirmos juntos nas trilhas da literatura e das fruições e curas que ela é capaz de nos trazer. Aqui, compartilho leituras, vivências literárias, fruições artísticas e convites para atividades culturais. A ideia é sempre incentivar a leitura e fomentar a curiosidade pela leitura e pelas nossas culturas. Sejam todos e todas muito bem vindos (as)!

Viva a poesia! Viva a literatura! Viva essa vontade nossa de ir além e buscar algo a mais!

A-ho!

Karina Guedes

@okarapoetica