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domingo, 24 de abril de 2022

NA IDADE MÉDIA, UMA MULHER OUSOU ESCREVER e o mundo nunca mais foi o mesmo.


O legado dessa mulher é apresentado em "Christine de Pizan – Uma Resistência", livro escrito por Lucimara Leite, professora e pesquisadora de literatura medieval na França e Portugal. Mestre em Comunicação e Semiótica, ela pesquisa sobre Christine de Pizan desde a graduação. Neste livro faz uma análise de “Cidade das Damas” e “O espelho de Christine”, revelando importantes aspectos dessas obras escritas na idade média por Christine de Pizan.

O recorte que Lucimara Leite faz neste trabalho, entre os séculos XIV e XV, chamado de baixa idade média, apresenta alguns aspectos dessa época relevantes para compreensão da obra de Christine de Pizan. Neste período, houve uma pequena abertura nas estruturas sociais da época e isso foi bom para as mulheres como um todo. As Cruzadas, A Guerra dos Cem anos, a Peste Negra, fizeram com que muitos homens ficassem fora por longos períodos e isso fazia com que as mulheres tivessem que assumir a administração das casas e das propriedades, assumindo papéis de lideranças em suas províncias. O que vai chamar atenção para a “necessidade” da educação delas.

O livro está estruturado em três capítulos:

No capítulo I, a autora faz uma breve introdução do momento histórico e dos tipos de textos que circulavam na época (idade média, séculos XIV e XV). Explica as diferenças e semelhanças entre os tratados de educação vigentes : specula e exempla. E esclarece como era a imagens da mulheres retratada por outros autores.

Specula (espelhos) – Tratados dos príncipes. Visavam a educação dos garotos, principalmente delfins e aspirantes ao trono ou senhorio. Trazia educação moral mas principalmente administrativa e política, basicamente eram manuais de como governar. Tinham forte cunho político e são considerados como os primeiros documentos de educação pedagógica. A figura do herói estava sempre presente aqui.

Exempla – Manuais de educação com foco na conduta moral. Tinham forte cunho doutrinador. Traziam histórias cujos personagens e suas posturas deveriam ser imitados. Todos baseados na moral cristã. Traziam histórias curtas de mártires e santos, muitas vezes apresentadas como contos, fábulas, anedota, narração verdadeira ou lendária, etc. Destinados as pessoas mais simples (menos letradas) e o intuito era passar um modelo de comportamento. 

No capítulo II ,  é apresentado a estrutura e descrição das duas principais obras de Christine de Pizan, A Cidade das Mulheres (Livre de la cité des dames) e O livro das três virtudes (Le Livre des Trois Vertus). Assim como a recepção que Christine teve em sua época e o impacto de seus textos.

No capítulo III, traz a argumentação da autora que considera o trabalho de Pizan um exemplo de resistência feminista na idade média. Faz um breve resumo da educação dos séculos XII e XV e compara os textos de Christine com o de outros autores homens. Apresentando os pontos em comuns entre os dois principais textos de Christine.

Com uma linguagem bem didática, o livro é uma excelente introdução à obra e ao pensamento de Christine de Pizan. Nos permitindo ter uma ideia geral do que ela defendia e acreditava ser o ideal de educação para as mulheres neste período medieval.


Mas quem foi Christine de Pizan?

Christine de Pizan, nasceu em Veneza, Itália em 1364. Mudou-se com sua família para Paris, França, aos 4 anos de idade, quando seu pai foi convidado a trabalhar na corte do rei Carlos V. Sob a orientação de seu pai, teve acesso à educação e graças a posição exercida por ele na corte ela teve acesso à biblioteca do rei, considerada uma das melhores na época. O que contribuiu muito para sua formação intelectual. Casou-se aos 15 anos com um marido escolhido pelo seu pai.

Nos anos seguintes, com a morte do rei a França passa por momentos difíceis e a família de Christine também, em 1386 seu pai morre e três anos depois falece seu marido com quem viveu por dez anos e segundo ela, um casamento feliz. Neste momento sua posição social muda e Christine se torna a provedora da família. Decide não se casar e sustentar sua família com o próprio trabalho como escritora. Começa seu ofício literário escrevendo poesias e com a boa recepção de seus textos dedica-se inteiramente à produção literária que passa a ser sua fonte de renda.

Ela era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher na França a viver do seu trabalho como escritora.

  

O que Christine de Pizan defendia?

Importante lembrar que a Idade Média foi um período em que o pensamento teocrático e aristotélico influenciou toda a organização social da época, desde os regimes de poder vigentes até a conduta moral da sociedade. Neste período, a igreja católica detém certo poder e influência sobre o clero e senhores feudais. As mulheres são vistas apenas como procriadoras e seu lugar é sempre abaixo dos homens, maridos, pais, irmãos e filhos homens. O acesso à educação era dado apenas às mulheres de classes mais abastadas e ainda assim, voltado para ensinamentos de boa conduta moral e social, cuidado com filhos e casamento. Não se incentivava o desenvolvimento intelectual delas.

É neste contexto que Christine de Pizan escreve suas obras que chamam a atenção por trazer para o campo da escrita e das discussões intelectuais, as questões das mulheres.

 

Ela defendia a igualdade entre homens e mulheres no que diz respeito a educação, afirmava que as meninas também tinham direito de receber educação intelectual assim como os meninos e não apenas educação moral como era comum na época.

 

Fez críticas aos manuais de educação para o casamento, que por serem escritos por homens não traziam as verdades da dura e injusta vida conjugal para as mulheres.

 

Defendeu que as diferenças entre homem e mulher eram de ordem social e não biológica.


Christine lutou contra a misoginia e a favor da valorização da mulher. Tendo como objetivo estabelecer uma "moral feminina". Assim, ela participa da "Primeira Querela Feminista" e como escritora assume publicamente seu posicionamento escrevendo contra o "Roman de la Rose", de Jean de Meung, "um dos livros mais populares na Europa no século XIII, de cunho misógino, representando as mulheres como nada mais que sedutoras, numa mordaz sátira às convenções do amor cortês." (1)

 

Suas obras de maior repercussão foram "A Cidade das Mulheres" e " O Livro das três virtudes".

 

No livro A Cidade das Mulheres, Christine usa de alegorias para trazer uma reflexão sobre a representação da mulher na sociedade e combater a misoginia dos textos da época. Ela constrói uma cidade para as mulheres e cada parte da cidade é representada pelas grandes mulheres da história, da mitologia e da vida real, até aquele momento. Poderíamos dizer que esta é a primeira tentativa de escrever uma “História das mulheres”.

 

Sabemos que desde os primórdios da escrita, quem escrevia e detinha o poder da palavra eram os homens. E toda a história conhecida até então, era história escrita por eles. Homens que usaram tal poder para denegrir a imagem da mulher e assim contribuir para a disseminação da misoginia.  Nos textos masculinos as mulheres aparecem sempre como sedutoras, frágeis, incapazes e prontas para sempre ludibriar os sentimentos masculinos. Nas histórias dos homens dessa época eles são sempre as vítimas e as mulheres as "demônias".  

 

Christine de Pizan escreve na contramão deste padrão. Ela tenta mudar a mentalidade da época e sua voz encontra eco naquele exato momento histórico onde começava, ainda que minimamente, uma abertura para as mulheres se colocaram nas sociedades como sujeitos de suas vidas. Existia ali uma faísca de grito de liberdade e ela acendeu a chama.

 

Através das figuras principais de sua cidade fictícia, ela vai construindo um novo olhar a medida que derruba os principais preconceitos contra as mulheres. 

 

Ressalta a importância da fala feminina e a escuta desta fala. Numa época em que as mulheres são acusadas de falar demais (de modo leviano), aqui a escritora dá ênfase a sabedoria feminina que se expressa pela fala.

 

No último capítulo, se dirige a todas as mulheres das camadas sociais. É interessante notar que ela não divide as mulheres apenas em casadas, solteiras ou viúvas e sim entre mulheres pobres e ricas.  A hierarquia que ela apresenta está baseada na condição social e não no estado civil.

 

 

Já em O Livro das Três Virtudes, encontramos basicamente um manual de educação moral religiosa e boas maneiras dirigido para as mulheres. A diferença deste tratado de educação de Christine para o de outros autores da época que se desdobraram em cima do mesmo tema, é que aqui ela dá instruções das mais básicas as mais específicas, no que diz respeito a organização e manutenção da vida doméstica, considerando a hipótese de que as mulheres pudessem viver sem maridos (tanto os que foram à guerra ou os que morreram) , sendo donas de sua casa e propriedade, com autonomia para decisões e gerenciamento do lar. Enquanto os autores homens sempre vão orientar a buscar um homem (pai, irmão, tutor, marido) para substituir o que está ausente, deixando a mulher sempre na condição de tutelada e nunca de autônoma.

 

Valendo-se de recursos linguísticos da época para estruturar o seu texto e sua argumentação, ela usa sua própria experiência como exemplo, partindo da realidade para construir um modelo. Vai se destacar também na maneira de passar esses ensinamentos, considerando a inteligência e astúcia de seu público, não sendo prolixa e redundante como os escritores homens que escreviam para o público feminino como se estivessem escrevendo para um público débil. 

 

Um ponto a ser observado aqui é que apesar de visionária, Christine era religiosa e defendia a hierarquia social, assim como a submissão da mulher ao casamento. Boa parte de seus ensinamentos no Espelho de Cristina, vão conduzir um esforço para manter a harmonia da vida conjugal. 

 

Apesar de parecer contraditório esse discurso se comparado ao primeiro livro, é preciso considerar todo o contexto histórico para entender esse posicionamento de Christine. Afinal, a escritora viveu numa época em que a violência contra as mulheres era aceita e regulamentada. Os maridos detinham não apenas a tutela, mas o poder sobre a vida de suas esposas, sendo livres para puni-las com a morte em casos de desobediência ou desonra. Elas eram sua propriedade. Então, quando Christine argumenta para que as mulheres mantenham a harmonia em seus casamentos, estaria de certa forma ensinando-as a se protegerem das possíveis violências dentro daquelas circunstâncias.

 

Esses ensinamentos que para nós mulheres letradas do século XXI, podem parecer insuficientes ou contraditórios. Mas também nos mostram o quão difícil, sofrida e limitada era a vida das mulheres naquele período. Ser propriedade de um homem, antes de ser sujeito de sua própria vida é por demais assustador e revoltante.

 

No entanto, se refletirmos obre os nossos dias constataremos muitas correntes que ainda prendem as mulheres privando-as de alguma liberdade. A dependência financeira, falta de equidade no mercado de trabalho, os assustadores números de registros da violência doméstica e os aumentos de casos registrados de feminicídio, são alguns exemplos. Parece que em certos aspectos, sobretudo no que diz respeito à violência contra as mulheres, as coisas não mudaram tanto assim desde a idade média.

 

O Legado de Christine de Pizan - Influências posteriores

 

Suas ideias foram retomadas na virada dos séculos XIX ao XX, quando os movimentos sufragistas resgatam suas ideias. (Talvez isso explique, em partes, a visão burguesa e conciliadora do movimento sufragista).

 

Christine foi uma intelectual, visionária, ativista, porém conciliadora. Ela queria que as mulheres fossem valorizadas e não libertadas. Ocupar lugar de igualdade entre os homens não significa necessariamente revolucionar, afinal, ela escrevia para todas, mas sua literatura era consumida pelas classes mais abastadas e letradas.  As mulheres de classes mais abastadas, tendem a defender a valorização das mulheres somente no que tange sua classe. Nunca estiveram preocupadas de verdade com a vida de suas vassalas. Logo, fazem o possível para manter as hierarquias estabelecidas. Em resumo, mulheres ricas vão sempre defender mulheres ricas.


Apesar deste último ponto que considero interessante observarmos com criticidade e refletir sobre isso, devemos reconhecer a ousadia e astúcia de Christine de Pizan na Idade Média. Afinal, considerando todo o contexto em que ela vivia e sendo uma mulher de classe abastada e de família respeitada, não teria grandes dificuldades para conseguir um segundo marido e manter sua vida burguesa. Mas ela não o fez, preferiu encarar o desafio de sobreviver do próprio suor e ainda com a audácia de se engajar numa área dominada pelos homens, a escrita.  Seu mérito está não somente na criatividade e perspicácia de seus livros, mas na coragem de ter decidido escrevê-los e assim registrar um momento único na história, onde as mulheres começam a resgatar suas vozes tão silenciadas nos séculos anteriores, principalmente pelo discurso religioso. E o irônico disso tudo é que ela vai usar justamente a moral religiosa para cativar seu público e se fazer ouvir.

 

Por se tratar da obra de uma das percursoras do que hoje chamamos de pensamento feminista ou movimentos feministas, o trabalho de Christine de Pizan  é um registro raro na história. Ela precisa ser conhecida, lida, estudada. Sua vida e obra são de enorme importância para conhecermos o percurso histórico do movimento feminista e a trajetória da conquista de um dos mais importantes direitos adquiridos até agora, o direito de saber ler e escrever, ou seja,  o acesso à educação intelectual para as mulheres.

E todo trabalho que venha esclarecer e enfatizar essa importância, deve ser lido e estudado. Logo, o trabalho de Lucimara Leite, autora de “Christine de Pizan, Uma Resistência” é essencial para qualquer um que pretenda compreender o feminismo e as trajetórias de lutas das mulheres ao logo da história. Considero simplesmente uma leitura obrigatória!

Boas leituras e Boas reflexões!

Inté!

Karina Guedes

@okarapoetica


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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

INTO THE WILD - Jon Krakauer + presentinho no final da resenha.


"dois anos ele caminha pela terra. sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros,. liberdade definitiva. um extremista. um viajante estético cujo lar é A ESTRADA."

(Grafite no Magic Bus, escrito por Chris McCandlles)

Into the Wild ( Na natureza Selvagem), conta a história de Christopher Johnson McCandless, um jovem de uma família abastada da costa leste dos Estados Unidos que foi de carona até o Alasca e adentrou sozinho a região selvagem e desabitada ao norte do monte McKinley. Quatro meses depois, seu corpo decomposto foi encontrado por um grupo de caçadores de alce. No verão de 1990, logo após se formar, com distinção, na Universidade Emory, McCandless sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira. Inventou então uma vida nova para si, instalando-se na margem maltrapilha de nossa sociedade, perambulando pela América do Norte em busca de experiências cruas, transcendentes. Sua família não tinha ideia de onde estava ou que fim tivera até que seus restos apareceram no Alasca. (nota do autor)

Uma história tocante

Meu primeiro contato com essa história foi através do filme Into the Wild (2007), adaptação dirigida por Sean Penn. Na época fiquei absolutamente cativada pela trajetória de Christopher McCandless e sua aventura. Confesso que a trilha sonora composta por Eddie Vedder contribuiu muito para isso, acho que a profundidade poética das letras dialogam perfeitamente com o espírito da história, somadas ao drama e carisma do personagem principal, nos levam a trilhar com ele e se emocionar com sua fatídica aventura.

No entanto, demorou uns seis anos para que pudesse ler o livro que deu origem ao filme e acho que isso foi bom. Primeiro, porque talvez se eu tivesse lido antes provavelmente não teria me envolvido tanto, pois ainda estava muito influenciada pelas imagens do filme. E segundo, porque as melhores trilhas da minha vida, fiz nesse intervalo de tempo. Portanto, esse distanciamento contribuiu para que eu fosse absolutamente absolvida pela narrativa do livro. E mesmo já conhecendo o desfecho da história, me envolvi e me emocionei página por página, com direito a lágrimas e soluços. Existe algo na história de McCandless que só quem já se aventurou na natureza ou descobriu o prazer de estar sozinho, é capaz de compreender. 

O filme é lindo e comovente, tem uma trilha sonora maravilhosa e tals, mas nos dá uma visão romantizada na história do Chris. Já a narrativa, não menos apaixonada de Jon Krakauer,  nos revela em profundidade o drama da vida do jovem aventureiro. Não se trata aqui da velha questão livro x filme, até porque para mim essa questão nem existe. Cinema e literatura são linguagens diferentes e uma nunca vai ser igual a outra. Jamais vejo uma adaptação literária para o cinema com a intenção de que o filme seja idêntico ao livro. Cada linguagem tem seus recursos próprios para contar uma história. Tendo isso em mente, torna-se inevitável  reconhecer as diferenças entre um e outro e se divertir com isso, pois reconhecer as diferenças construtivas torna a leitura mais completa.

No caso aqui ambos são ótimos, mas o livro obviamente contém mais detalhes e informações que nos levam a compreender a jornada de Chris McCandless com menos julgamento e mais empatia.


Diferenças construtivas 

A primeira coisa que faz diferença no livro é o foco narrativo. A história é contada a partir do relato apaixonado de Jon Krakauer que pesquisou profundamente a história de Chris, fazendo inclusive o mesmo percurso, coletando materiais para compor o livro. A narrativa entrelaça relatos de pessoas que conheceram e conviveram com Chris McCandless durante e até mesmo antes de sua aventura, com as reflexões e observações do autor. 

Ao refazer a trajetória de McCandless, Jon faz um paralelo entre a história dele com sua própria história. O que também é um aventureiro, alpinista, nos conta uma experiência semelhante em muitos aspectos com a que Chris passou, porém com um final mais feliz. Então, essa perspectiva narrativa faz toda a diferença ao acompanharmos a trajetória daquele que viria a se tornar o famoso Alexander Supertramp. 

Outro ponto importante é que os conflitos familiares que culminaram no distanciamento e até mesmo a repulsa de Chris pelos seus pais, são revelados em maiores detalhes. O que nos leva a ter uma compreensão diferente de diversos enigmas de sua trajetória, inclusive do final dela. 

O filme termina com o que seria a grande epifania de Chris, “a felicidade só existe quando compartilhada”, em meio a imagens de supostas lembranças de sua família.

Mas no livro, que poderíamos até chamar de documental devido a riqueza de material apurado, nada nos leva a compreender que Chris teria ao final da vida, perdoado seus pais. O que podemos compreender a partir dos registros de seu diários e relatos das últimas pessoas que estiveram com ele, é que ele cumpriu seu propósito e se sentiu pronto para voltar. Porém, nada entre esses registros nos leva a pensar que esse voltar seria para a casa de seus pais, para o seio familiar, como sugere o filme. Acho que esse é um ponto muito interessante da história e que obviamente carece de mais investigação da minha parte, mas, por hora é como interpreto a questão. 

Uma pista para melhor interpretar essa questão seria ler o livro Dr. Jivago, que foi o livro que ele leu por último e ao que tudo indica o influenciou nesta epifania. Trata-se um livro bem controverso e polêmico acerca dos desdobramentos da Revolução Russa. Alguns o consideram uma crítica ao comunismo, enquanto outros dizem que se trata de uma apologia ao comunismo. Apesar de ficar claro durante a narrativa que Chris era avesso a “lados políticos definidos”, chegando a ser até controverso em suas posições, parecendo muitas vezes um anarquista nato, outras vezes nem tanto, algo me diz que a compreensão mais profunda de Dr. Jivago pode nos dar boas pistas dessa questão enigmática de sua jornada. 

O terceiro ponto interessante na narrativa de  Jon Krakauer é a descrição da paisagem. Dá vontade de entrar no livro e fazer parte da história. A maneira como ele retrata as paisagens de toda a trajetória de Chris, principalmente da Stempede Trail e do Monte McKinley, é emocionante e envolvente com um tom de paixão intenso. Afinal, quem narra é também um aventureiro de alma selvagem e tem sua vida completamente envolvida com a natureza. Assim, as paisagens descritas dos lugares visitados por Chris se entrelaçam com as paisagens dos lugares visitados por Jon, dando certa intensidade ao mergulho na natureza selvagem e alimentando ainda mais nosso desejo de aventura. Quando digo nosso, refiro-me aos amantes do contato com a natureza e com essa prática tão ancestral e perturbadora que é seguir em trilhas por caminhos desconhecidos e atraentes do mundo natural. Tem gente que simplesmente precisa ir, e vai... 

E porque essa história é tão fascinante e tem movido pessoas em torno dela há mais de 30 anos?

Diversos motivos nos causam empatia pela trajetória de Chris McCandless, seja pela paixão por esportes radicais, por trilhas, aventuras e desafios de todos os tipos. A natureza desconhecida é sem dúvida um tema muito atraente para muitas pessoas. A possibilidade de testar nossos limites físicos e emocionais, o desafio da superação e da resistência, fazem parte da trajetória narrada nesse livro e isso se conecta com nossos instintos mais primitivos e ocultos dentro de nós. A (des) conexão ser humano-natureza, nos provoca reflexões e emerge conflitos sobre nosso papel e propósito no mundo. E talvez o fato de que assim como Chris, também sentimos repulsa à hipocrisia da sociedade e da escravidão institucionalizada pelo sistema capitalista em que estamos submetidos. 

O tema do desapego é também central nessa história, ele parte rumo ao desafio de desapegar de um mundo pré-fabricado, com regras pré-estabelecidas e valores pré-definidos e sai em busca de algo, que nem ele mesmo sabe exatamente bem o que é, ele simplesmente vai de encontro ao mundo selvagem onde acredita, a princípio, ser o oposto a tudo isso que conhece.  Esse chamado à rebeldia, de renegar um mundo que não fora construído por nós mesmos é sem dúvida muito atraente, sobretudo aos espíritos mais livres. 

De todos os motivos que me fascinam nessa história, o que mais me toca é o sentimento de solitude.  E a solitude não é a mesma coisa que a solidão. 

Solidão está geralmente associada a dor de estar só, sendo algo negativo, pois quem tem esse sentimento dentro do peito, deseja estar na companhia de alguém. 

Solitude está associado a glória de estar sozinho, pois revela-se uma satisfação imensa em não precisar da companhia de outra pessoa para sentir-se bem, sentir-se pleno.

Tem um texto muito bom sobre essa diferença no site Fãs da psicanálise, onde o autor Felipe de Souza escreve o seguinte: 

“De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra solitude é um palavra de uso poético. A poética, por sua vez, remete tanto à produção de algo novo como à apreciação e criação da beleza. Ou seja, a solitude permite o tempo e o espaço e o silêncio para fazer o útil ou o belo. Também permite não fazer nada. Também permite desenvolver a espiritualidade, encontrar-se enquanto uma pessoa diferente dos demais e se aceitar como se é – independentemente da aprovação do outro...”

E essa ideia é totalmente refletida na trajetória de Chris, principalmente quando ele adentra ao Parque Nacional Denali rumo a sua caminhada transcendental. Através das anotações de seu diário e principalmente das fotos que ele fez durante esse período, é possível ver esse sentimento em seu semblante. Talvez não possamos dizer que a solitude esteve em seu espírito cem por cento do tempo, mas os registros sugerem que pelo menos uma boa parte sim.   

Na última foto, em que segura um bilhete de despedida, pois já sabia que a morte estava a sua espera, é possível ver em seus olhos, a serenidade de quem percorre um longo percurso para dentro de si mesmo, se encontrou e se realizou. 

Quem passa pela experiência de ficar sozinho em algum momento da vida e se permite experimentar a solitude, aprende algo de extremo valor para a sobrevivência humana: não ser emocionalmente dependente de ninguém. Aliás, nenhum tipo de dependência é interessante para o desenvolvimento de uma vida saudável, plena e liberta. Mas acho que a dependência emocional pode ser das piores amarras que alguém possa ter na vida. Pois, ela nos leva ao aprisionamento do que há de mais íntimo em nosso ser: o desenvolvimento da capacidade de bastar-se e ser completo em si mesmo. 

E porque isso é importante? 

Porque uma pessoa que se sente completa por si só, jamais vai aprisionar alguém para suprir suas carências afetivas, uma vez que não as tem. E tampouco vai se deixar ser aprisionado. Não consigo ver mais representação do sentimento de libertação do que esse, a não necessidade emocional do outro.

Isso não significa que não precisamos dos outros ou da vida em sociedade. Viver em conjunto é produtivo e é natural estabelecermos vínculos e parcerias ao longo da vida. Ajudar e ser ajudado, apoiar e ser apoiado, assim como realizar trocas honestas e equilibradas de afetividade. Porém, essas relações que estabelecemos com o mundo e pessoas à nossa volta, não podem custar o aprisionamento da nossa alma. Acredito que é isso que a solitude pode nos trazer, além de estado de satisfação plena consigo mesmo, um estado de independência emocional do outro, o que nos torna pessoas mais libertas e mais completas.

 O que penso da história de Alex Supertramp? 

Bem, a intensidade da narrativa do livro me fez chegar a seguinte conclusão: não se trata só da história de um aventureiro. Trata-se de uma trajetória autêntica de busca de autoconhecimento, de coragem para viver de acordo com seus próprios princípios. Um belo exemplo de autenticidade: pensar, desejar, estabelecer uma meta e buscá-la. Manter o foco e não desistir jamais. Mesmo quando tudo à sua volta lhe disser não. Lutar pelo sim até o final. 

Chris McCandless conquistou seu objetivo, chegou ao Alasca, viveu da natureza, transcendeu à vida selvagem. Encontrou respostas e decidiu voltar. Porém, o acaso do destino lhe trouxe uma surpresa, essa talvez tenha sido a única derrota de Chris, a sorte que lhe faltou num momento crucial.

Alguns vão questionar, porque ele não se preparou mais ou não estudou melhor a região antes de se aventurar por terras desconhecidas. Bem, talvez porque não era esse o propósito. Ele não estava fazendo uma expedição de reconhecimento de área, ele estava vivendo sua grande aventura de vida. Ele não queria dominar a natureza e sim vivê-la. Integra-se a ela através de uma relação ser-humano-natureza mais primitiva possível. Esse era seu propósito e não bater recordes esportivos ou fazer turismo. Ao compreender isso, parei de julgá-lo. 

E de repente a história fez muito sentido. Ele viveu o que se propôs a viver, de forma liberta e de acordo com seus próprios ideais.

A narrativa apaixonada do autor também contribui para que possamos seguir Chris em sua jornada sem julgá-lo. Acho que essa é uma rota interessante de seguir para leitura do livro. Tentando se colocar no lugar daquele jovem tão obstinado, corajoso e convicto de suas ideias.  Isso não é romantizar a trajetória, e sim vivê-la junto com ele. Acredito que essa rota pode nos levar a uma leitura mais profunda e muito mais emocionante. E compreender que a grande aventura de Chris é também uma tragédia com a qual podemos aprender muito e  chegarmos ao final da última página diferentes de quando iniciamos a primeira. Tal como acontece quando colocamos os pés numa trilha, mergulhamos profundamente em sintonia com o caminho, superando obstáculos, compreendendo cada vez mais o trajeto e se maravilhando com a beleza do percurso. Ao final da trilha, não somos mais os mesmos e isso é libertador. 


SOBRE O AUTOR: 

Jon Krakauer (nascido em 12 de abril de 1954) é um escritor e montanhista americano. Ele é o autor de best-sellers de livros de não ficção - Into the Wild; Into Thin Air; Sob a Bandeira do Céu; e Where Men Win Glory: The Odyssey of Pat Tillman - bem como vários artigos de revistas. Recebeu um Oscar de Literatura da Academia Americana de Artes e Letras. De acordo com a citação do prêmio, “Krakauer combina a tenacidade e a coragem da melhor tradição do jornalismo investigativo com a sutileza estilosa e a visão profunda do escritor nato”.


SOBRE CHRIS McCLANDLESS:

Neste site mantido pela família de Crhis, é possível encontrar muitas informações sobre sua biografia, assim como livros e vídeos a respeito de sua trajetória. 

http://www.christophermccandless.info


MINHA DICA PARA UMA LEITURA MAIS PROFUNDA LEITURA DESTE LIVRO:

Se você nunca fez um trilha antes, experimente. Se você pretende ler esse livro e nunca fez uma trilha, faça uma primeiro. Se você nunca ficou sozinho, desconectado do mundo por pelo menos um final de semana, experimente isso antes de ler esse livro. Acredite, tais experiências farão sua leitura ser muito mais intensa e emocionante. 

💟Deixei por aqui um presente pra você: baixe o e-book com algumas imagens da Stampede Trail, para mergulhar na paisagem enquanto lê o livro. Clique aqui. Se não conseguir abrir deixe seu e-mail nos comentários, que envio pra você.😉😊


Karina Guedes

@okarapoetica


sexta-feira, 1 de maio de 2020

METADE CARA, METADE MÁSCARA - Eliane Potiguara

Metade Cara, Metade Máscara é um livro muito interessante escrito por Eliane Potiguara, escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica potiguara de seus avós.  Neste livro revela-se uma escrita literária que mescla diferentes gêneros textuais. 

No início são apresentadas informações e reflexões sobre identidade, invasão das terras indígenas e migração. Acontecimentos que vão colocar os povos indígenas em marcha e em luta pela sobrevivência.

Ao relatar de forma brilhante a diáspora indígena, a autora denuncia verdades sobre o doloroso processo de colonização, chamando atenção para as questões que tangem especialmente a mulher indígena.  O olhar feminino está presente em toda obra, colocando em evidência o universo feminino com textos que abordam: amor, família, pertencimento, violência, identidade e direitos humanos, entre outros temas. E essa temática se concretiza em torno das histórias das mulheres, ou seja, aquelas que não foram contadas.

Ancestralidade, espiritualidade, culto a terra e a busca pela preservação da identidade são assuntos abordados e colocados em questão pela autora. A narrativa se encerra tecendo uma verdadeira evocação de luta e resistência. Toda essa presença indígena traduzida numa composição lírica inclassificável, se desenvolve numa trama minuciosamente construída entre a prosa e a poesia.

A tessitura da composição estética traz sons, cores e vozes de povos que contam sua própria história, fazendo-se sujeito e personagem ao mesmo tempo. Eliane Potiguara cria um caminho didático ao apresentar textos de gêneros diversos, de modo que fica colocado para ao leitor as diferentes portas abertas que ele poderá adentrar para compreender as questões sociais colocadas e posições políticas defendidas. É como se ela usasse diferentes códigos para transmitir a mesma mensagem. 

Ao contar a história e movimentos de Jurupiranga e Cunhataí, a autora vai usar  poesia e prosa poética como forma de transmitir a imagem, presença e trajetória da família indígena simbolicamente representada por esses personagens. A linguagem do livro se dá numa mistura textual, tão bem elaborada que nos envolve, nos intriga e nos comove do começo ao fim. 

Há muito tempo que eu queria ler esse livro e quando finalmente consegui foi um baque forte, porque Eliane tem um jeito muito próprio de narrar, relatar, contar. Os caminhos que ela escolhe para trazer seu pensar são sempre um convite a uma experiência desafiadora de leitura. Tanto do ponto de vista da fruição literária, quanto do ponto de vista da reflexão política. Ela nos envolve, nos faz pensar e ver tudo com outro olhar. O olhar de quem durante todo esse tempo, esteve do outro lado, o lado dos oprimidos e silenciados. E isso mexe com a gente, nos transforma. 

Ao final da leitura a sensação foi como se aqueles personagens indígenas de que tanto ouvimos falar nas aulas de história, de repente saíssem do livro e dissessem: Agora sou eu que vou falar. Ouça. E você se vê, não diante de uma nova versão da história, mas sim de outra história. Aquela não contada, escondida embaixo do tapete, ou até mesmo apagada da chamada historiografia oficial. 

Ler Eliane Potiguara é como receber um orelhão na cabeça, porque não é só uma ficha que cai, são várias. Ela tem um jeito didático/poético/único de contar verdades e nos ensinar a reconhecer mentiras. Aliás, essa foi uma impressão que ficou muito forte para mim, quanta mentira nos contam sobre os indígenas e nós na inocência ou na preguiça, simplesmente acreditamos.

Tenho dedicado um tempo da minha vida e do meu coração, para entender os movimentos indígenas. E  ler a literatura que se escreve a partir daí, para mim é sempre a melhor e mais deliciosa trilha. Adoro ler livros, artigos, músicas, textos de todos os tipos escritos por indígenas, porque é como se eu adentrasse nas aldeias, das florestas ou cidades, como convidada e não como intrusa. E eu adoro ser convidada a conhecer o outro a partir de sua própria perspectiva. Para mim é uma honra.


SOBRE O AUTORA:  

Profª Eliane Potiguara é escritora, poeta, ativista, empreendedora social de origem étnica potiguara de seus avós, migrantes nordestinos. É formada em Letras e Educação pela UFRJ e extensão em Educação e Meio ambiente pela UFOP. É contadora de histórias. Nasceu em 29/09/1950 na cidade do Rio de Janeiro. Recebeu o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil pelo Ministério da Cultura entregue em mãos pela Presidência da República. Fellow da organização internacional Ashoka (empreendedores sociais), fundadora do GRUMIN (Grupo Mulher - Educação Indígena) e Enlace Continental de Mujeres indígenas e Embaixadora da Paz pelo Círculo de Escritores da França. Participou da elaboração da Declaração Universal dos Povos Indígenas/ONU por 6 anos nas sessões em Genebra. Possui 7 livros publicados. Teve seus textos publicados em diversos sites, antologias e e-books nacional e internacional. Premiada pelo Pen Club da Inglaterra e Fundo Livre de Expressão (USA). 

EMBAIXADORA UNIVERSAL DA PAZ: Eliane Potiguara foi nomeada Embaixadora Universal da Paz em Genebra (Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix – Genebra – Suíça). 

Além de tudo isso que está na biografia oficial em seu site, ela é também uma pessoa muito, mas muito gentil, maravilhosa e inspiradora que eu tive a honra de conhecer pessoalmente numa festa literária. 💗Site: http://www.elianepotiguara.org.br


Karina Guedes

@okarapóetica


domingo, 5 de abril de 2020

VEM GOSTAR DE LER!

Algumas pessoas chegam até mim com a seguinte questão, 'eu queria ler mas não consigo ler um livro inteiro', outras dizem "ler me dá sono", ou "tenho preguiça" ou então "parei de ler porque nunca encontrei nada que me interessasse".  

Eh, são diversos motivos que afastam uma pessoa do hábito de ler.  Além da falta de disposição física e traumas literários da época de escola, acredito que muitas delas não conseguem manter o hábito de ler primeiramente por ter um conceito equivocado do que é leitura, depois pela dificuldade de acesso ao livro e por último por não saberem nem por onde começar a desenvolver esse hábito.

Sobre o conceito de leitura, é importante lembrar que o livro não é a única coisa pra ler que existe no mundo. Como amante desse tipo de leitura, estou sempre indicando livros e compartilhando resenhas, mas defendo que todos os outros objetos de leitura são importantes e válidos. Seja uma HQ, um jornal, uma revista e etc. Acho que deixei bem claro o que considero leitura no texto anterior, caso não tenha lido, clique aqui.

Outro ponto importante a ressaltar é que para muitas pessoas o acesso à bons títulos ainda é bem precário ou inexistente. Infelizmente livro ainda é uma coisa cara no Brasil e nem todas as cidades contam com bibliotecas públicas, sebos ou até mesmo livrarias. Comprar livros pela internet em sites como Estante Virtual, onde você encontra diversos sebos do Brasil, seria uma alternativa mas hoje em dia está ficando complicado também devido à elevada taxa do frete, dependendo da região. Já cheguei a encontrar livro por R$3,00 mas o frete era R$12,00. Acredito que esta dificuldade de acessar bons livros, também desestimula a ler.

Além dessa dificuldade de acesso, tem a questão da prática. Nós só aprendemos a ler lendo e a escrever escrevendo e por aí vai... Se a vontade é de ler mais, de ler livros, e desfrutar das deliciosas narrativas que existem nesse mundo, o jeito é treinar. Pensando nisso, selecionei aqui algumas dicas que costumam funcionar bem quando a pessoa tem vontade de ler, mas não sabe por onde começar, ou pior, não se sente capaz de compreender um texto literário.

Gente, ler não tem a ver só com capacidade, mas também com vontade! Porque capacidade para leitura todos nós temos, mas no geral precisamos de algo que nos desperte vontade de ler e de estabelecer um diálogo com determinada obra. O despertar dessa vontade está ligado a questões muito pessoais e só tem um jeito de descobrir o que funciona ou não funciona pra você: experimentando diversos gêneros literários diferentes.

Selecionei aqui três gêneros diferentes que considero iniciais para começar a ter gosto pela leitura, mas saibam que existem outros . Espero que as sugestões colocadas aqui contribuam de alguma forma na sua caminhada inicial rumo ao delicioso universo literário.  Praticamente todos os textos indicados você consegue encontrar facilmente na internet, caso não encontre, deixe seu e-mail nos comentários que posso disponibilizar o material que tenho. ;-)

Dicas e sugestões de leituras

1) Canções narrativas - Se você ainda não tem o hábito de ler, mas sente vontade de ser um leitor voraz, que tal começar pela música? Sim, música serve pra ler.  Muitas canções são verdadeiras narrativas, contam histórias e dilemas de diversos tipos de personagens incríveis. Sugiro que depois de ouvir a música, leia a letra em voz alta. Quanto mais épica a letra, melhor será o fruir literário.

Sugestões de canções narrativas
  • Faroeste Caboclo – Legião Urbana
  • Construção – Chico Buarque
  • A Novidade – Gilberto Gil
  • Marvin - Titãs
  • Camila Camila- Nenhum de Nós
  • Geni e o Zepelim – Chico Buarque
  • Samba do Arnesto – Adoniram Barbosa
  • O Malandro – Chico Buarque
  • A Volta do Malandro – Chico Buarque
  • O Meu Guri - Chico Buarque
  • Metrô Linha 743 – Raul Seixas
  • Ovelha Negra - Rita Lee
  • Fera Ferida – Roberto Carlos e Erasmo Carlos, eternizada na voz de Maria Bethânia.
  • O Mundo Anda Tão Complicado - Legião Urbana
  • Dezesseis - Legião Urbana
  • Negro Drama - Racionais Mc´s
  • Brasil com P - GOG
  • Sobre as Folhas (ou o Barão nas árvores) - Cordel do Fogo Encantado
  • Morte e Vida Stanley - Cordel do Fogo Encantado
  • O Dia Em Que a Terra Parou - Raul Seixas
Eu poderia citar centenas de canções desse tipo, mas paro por aqui. Percebam que fiquei entre a MPB, o rock nacional e o RAP, mas esse tipo de canção existe em praticamente quase todos os gêneros musicais, basta pesquisa dentro do seu gênero musical favorito.

2) O Conto, é outro gênero literário bem interessante para quem está aprendendo a gostar de ler. Pois, os contos são verdadeiros aperitivos do delicioso banquete literário que está reservado para nós. Além de se tratar de um gênero bem gostoso de ler, os contos costumam apresentar narrativas mais concisas em torno de um só núcleo. Considero o conto um jeito bem interessante de experimentar os cânones literários e ver qual deles é mais  a sua praia. 

Sugestões:
  • O Espírito – Artur Azevedo
  • A Cartomante – Machado de Assis
  • A Carteira – Machado de Assis
  • Antes do Baile Verde – Lygia Fagundes Teles
  • Venha Ver o Pôr do Sol – Lygia Fagundes Teles
  • A Terceira Margem do Rio - João Guimarães Rosa
  • História Interrompida – Clarice Lispector
  • A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais – Clarice Lispector
  • De quanta terra precisa um homem - Liev Tolstói

3) Crônicas - Pequenas histórias que nos convidam a ver o cotidiano com uma lupa para subjetividade.  Uma dica aqui é se atentar a época em que o texto foi escrito, apesar de que uma boa crônica acaba sendo atemporal, mas situar o momento em que a obra foi produzida às vezes ajuda na compreensão.

Sugestões:
  • O Coco de Duda – Elika Takimoto
  • História Estranha – Luís Fernando Veríssimo
  • Sorrindo Pelas Costas – Eliane Brum
  • Analfabetismo – Machado de Assis
  • O Analista de Bagé – Luís Fernando Veríssimo
  • O Melhor Amigo – Fernando Sabino
  • Condôminos – Fernando Sabino
  • Não fale com plantas! (Ela Gostaria de ter escrito, em sua lápide) – Eliane Brum
  • Borboleta Amarela – Rubem Braga

Bem, essas são apenas algumas sugestões de textos de alto teor lírico que podem contribuir para o despertar do seu gosto pela leitura. Outra dica é ler mais de uma vez cada texto. A releitura é um exercício que além de nos ajudar a compreender melhor a história (pois a cada leitura você pode perceber algo que não havia percebido antes),  contribui para que aos poucos você vá descobrindo as camadas mais profundas do texto, o que está nas entrelinhas e não foi explicitamente dito pelo autor, mas apenas sugerido. Sinceramente pra mim essa é a melhor parte da leitura!

E para concluir, leia de tudo um pouco sem preguiça, conforme você for experimentando, vai descobrindo que tipo de texto te agrada mais e assim começa a elaborar o seu próprio repertório.
 
Só de se permitir conhecer alguns desses textos você já estará dando um grande passo para a aquisição do hábito da leitura. Saiba que tem muito mais de onde vieram estes e que todos eles estão lá aguardando por você para uma grande festa das palavras!

Caso tenham outras sugestões, serão muito bem vindas. Deixem nos comentários.

OBS: Texto escrito especialmente para meus sobrinhos Antônio Paulo, Carlos Henrique, Bruno César. e Heitor. Com muito amor! Tia Ka!

Karina Guedes
@okarapoetica

sábado, 4 de abril de 2020

LER É SER!


Ler é um exercício que nos tira do lugar comum! E para compreender essa afirmação, preciso lembrar que estou considerando aqui a leitura como um gesto mais abrangente, pra além do texto escrito. Ler é estar diante de um objeto ou situação e se permitir buscar diálogos e caminhos de compreensão para o que se revela diante de nós.

Como assim?

Tem uma personagem que adoro e que exemplifica bem o conceito de leitura que estou tentando colocar aqui. O detetive Sherlock Holmes - criado pelo escritor Arthur Conan Doyle - personifica o que chamo de poder de leitura. Através do tato, olfato, visão, audição, até do paladar, além de uma brilhante capacidade de dedução, ele consegue não só de desvendar os mais misteriosos crimes, mas também de reconstruir narrativas inteiras e interpretá-las de forma brilhante. Ou seja, ele simplesmente faz leituras o tempo todo em suas empolgantes aventuras.

Isso acontece conosco também, pois nós não lemos somente com nossos olhos, mas sim com o corpo e toda nossa cultura. Leitura não é só decodificar de letras e palavras elencadas e sim uma prática  de interação constante que envolve texto, autor, leitor, contexto e emoções. Ou seja, uma mistura de vários elementos que podem promover em nós uma forte mudança de estado de espírito. E dependendo do objetivo da leitura e da maneira como for conduzida, pode nos levar a outros estágios de percepção e compreensão da vida, do mundo e de nós mesmos.

Leitura não se resume a livros.

Existem diferentes objetos de leitura, livros, pinturas, músicas, poesia, danças, teatro, diferentes  tipos de narrativas. Você pode fazer uma leitura apenas com o intuito de obter informação objetiva e ler um jornal, uma revista cientifica ou bula de medicamento; pode fazer uma leitura para mero entretenimento ou até mesmo se permitir experimentar estéticas literárias mais elaboradas para  o simples fruir do devir. 

A literatura, a arte, assim como as diferentes linguagens artísticas, de modo geral nos oferecem interessantes exemplos de “coisas pra ler” e experimentar o fruir da palavra. Acredito que cada uma delas com suas próprias particularidades, nos permitem trilhar um caminho incrível de mudança de estado de espírito e elevação de consciência, pois não atuam somente no campo da emoção, mas também no campo da razão.

Sou amante da arte literária e realmente acredito na literatura como terapia, como caminho de transcendência e elevação.  Além de ferramenta de formação, entretenimento e outras funções que se queira atribuir, a literatura tem o poder de estabelecer diálogos com aspectos mais íntimos de nossa mente.

Uso o termo literatura como a representação de um conjunto bem amplo de produções artísticas, que se organizam esteticamente em torno da palavra (não me refiro somente aos cânones literários). Ou seja, os causos, histórias, poemas, canções, cordel, teatro e tudo o que puder estabelecer essa ponte de diálogo entre nossa poética e o mundo.

E por que precisamos da literatura?

Porque ela nos humaniza. Os objetos literários, estruturados e de relevância estética, dialogam com nosso caos interior e promovem perturbação e ordem ao mesmo tempo, fazendo vir à tona o que há de mais profundo em nós, pois opera alternadamente entre nosso estado consciente e inconsciente. E ao trazer todo nosso estado de espírito mais íntimo à flor da pele, somos levados a lidar com ele. Com nossos pensamentos, sentimentos e inquietações mais íntimos.

Talvez isso explique um pouco, porque determinadas leituras são perturbadoras, porque gostamos mais de um tipo de história do que de outro, ou porque nos apegamos ou odiamos determinado personagem. Estamos o tempo todo dialogando, consciente ou inconscientemente com o objeto literário que nos dispomos a conhecer. Nós nos envolvemos com a palavra e isso é fenomenal.

A capacidade de fabular, de se perder num devaneio, de se emocionar com uma história, de criar e fruir a ficção, proporciona à nossa jornada um sentido mais amplo e mais interessante do que o simples nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Portanto, ler e se envolver com a fruição literária, significa não se limitar ao destino biológico e buscar fazer da existência algo mais significativo e menos sofrível possível.

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Vem gostar de ler!

Ler é sair da mediocridade do cotidiano, gostar de ler é um gesto de rebeldia contra as limitações impostas pelas circunstâncias da vida. Ler é se aventurar num caminho sem volta para o desenvolvimento pleno do ser. Experimentem! 

Se por acaso você ainda não sabe por onde começar, deixei aqui algumas dicas pra quem quer se iniciar nessa jornada de pleno desenvolvimento do ser e se aventurar nos caminhos da leitura.
[CLIQUE AQUI]

Boas leituras e boas aventuras literárias!

Karina Guedes
@okarapoetica


terça-feira, 31 de março de 2020

A REVOLUÇÃO DAS MULHERES - Graziela Schneider (org.)

Muito mais que um livro sobre escritoras pouco conhecidas, A Revolução das Mulheres é um verdadeiro dossiê sobre a emancipação feminina na Rússia socialista e também uma excelente introdução para a compreensão de todo o processo, que com a efetiva participação das mulheres, consolidou as bases para as Revoluções 1917.

Neste livro organizado por Graziela Schneider, encontramos artigos, atas, panfletos, ensaios escritos por importantes mulheres antes e depois da revolução. Traduzidos diretamente do Russo para o português, e isso faz toda a diferença, pois podemos acessar com mais acertividade (e pouca chances de má interpretações) as genuínas ideias defendidas por grandes nomes da revolução como Alexandra Kollontai, Nadejda Krupskaia, entre outras.
Cada texto nos revela aos poucos a dimensão da siginifcativa e fundamental presença das mulheres em todo o processo que levou a Rússia à Revolução de Outubro.

Através das vozes dessas mulheres, escritoras, jornalistas, professoras, poetas, guerreiras e militantes políticas, podemos conhecer a revolução por dentro.  E assim tomar conhecimento de quanto trabalho foi feito por elas para que as mulheres trabalhadoras e camponesas pudessem sair do limitado círculo da vida doméstica, serem incluídas nos debates políticos e  terem suas necessidades pautadas em reuniões organizacionais, conferências, congressos, além de engajá-las defetivamente na luta revolucionária. E obviamente, todo esse processo não se deu do dia para noite. Foram anos de contribuição e muito suor feminino, para que a revolução pudesse realmente ter alguma chance de acontecer. 

Todos os textos são muito ricos em informações e exposição de ideias, e representam muito do pensamento e engajamento das mulheres deste período histórico, não só da Russia mas do mundo. Este precioso material deixa claro as vitórias da revolução no que diz respeito a emancipação feminina atingida durante o período revolucionário. 

Um ponto importante de se observar é que algumas pautas daquele momento, como a luta contra a dupla exploração de sua força de trabalho por conta do trabalho doméstico que recai sobre nós, a proteção plena à maternidade e o direito de ser mãe e trabalhadora ao mesmo tempo sem nenhum prejuízo nem de uma coisa e nem de outra, a efetiva participação das mulheres nos meios de produção, a luta pela redução da jornada de trabalho e salários mais justos, são bandeiras de luta a serem defendidas ainda hoje na sociedade capitalista. 

Diante de tal constatação, é compreensível a importância de resgatarmos o 8 de março como um dia de reverenciar a luta das mulheres. Desde sua origem esta data nunca foi um dia meramente festivo e não poderia ser. Afinal, há muito trabalho ainda a ser feito e muita luta pela frente! E isso faz com que muitas das questões colocadas em alguns dos textos contidos nesse livro sejam, infelizmente, muito latentes. 

Recomendo muito, mais muito mesmo a leitura deste livro para todas as mulheres que se dizem feministas e mais ainda por aquelas que ainda não compreenderam o que é a luta das mulheres e a real necessidade dela. 


SOBRE A ORGANIZADORA:

Graziela Schneider Urso é tradutora, graduada em russo e português, mestre e doutora em literatura e cultura russa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com ênfase em estudos da tradução. Traduziu diversas autoras e autores russos. Trabalhou no Escritório do Fórum Social Europeu, atuando em especial com tradução e coordenação de intérpretes. Colaborou com a Marcha Mundial das Mulheres.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ANTES DO BAILE VERDE - Lygia Fagundes Telles


LEITURAS CARNAVALESCAS I

Adoro contos! Sem dúvida é um dos meus gêneros favoritos e Antes do Baile 
Verde é um livro excelente que nos permite experimentar um pouco da deliciosa prosa de Lygia Fagundes Telles. 

Cada história, um mergulho na astúcia e talento da autora em capturar nossa atenção e nos intrigar com dramas envolventes. Inveja, ódio, amor, posse, ciúmes e malícia, entre provocações e reflexões, as histórias são cheias de ironias acerca do comportamento humano e de nosso senso de humanidade, ou falta dele. Seus personagens são revelados em detalhes, ficando nus e expostos ao nosso olhar ora surpreendido, ora desconfiado, mas sempre curioso com o próximo passo. A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.

O conto que dá nome ao livro, é um convite a reflexão sobre vida e morte, responsabilidade e fuga da realidade, contradições internas alegoricamente representada simbolicamente por nossa festa mais popular, o carnaval. Que serve de pano de fundo para o desenvolvimento do drama de duas mulheres de classes distintas e opostas diante de um dilema ético cujo desfecho não é nem um pouco o mais esperado.  Já o conto Verde Lagarto Amarelo expõe a fragilidade das relações familiares, uma perturbadora narração de um personagem passivo/violento que dilacera seu inimigo com palavras afiadas e cortantes. E assim, sucessivamente cada história nos dá a breve sensação de uma viagem ao mundo peculiar de cada protagonista, seus anseios e devaneios, medos e loucuras, seus sofrimentos e contradições.  Antes do baile Verde reúne contos escritos por Lygia entre 1949 a 1969 e são apresentados em ordem decrescente do mais antigo ao mais recente.

Para quem ainda não conhece a vasta obra da autora, este pode ser um bom começo. E se ao final da leitura você sentir um desconforto estomacal e ao mesmo tempo uma sensação de euforia, não se preocupe. Significa apenas que você se embriagou com as 18 doses de Lygia Fagundes Telles, servidas no livro.


Sobre a autora:
Lygia Fagundes Telles dispensa apresentações. Premiada escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Além de advogada, romancista e contista, Lygia tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.


Karina Guedes
@okarapoetica


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