sábado, 28 de março de 2020

RODÍZIO LITERÁRIO - 2ª Edição.


Queridos aventureiros (as) literários!

Hoje era para ter acontecido o segundo encontro do Rodízio Literário, e como de costume eu postaria aqui um relato de como foi e do que rolou. No entanto, por conta dessa pandemia (Covid-19) que nós estamos enfrentando, o encontro não aconteceu. 

O rodízio terminou, todas leitoras inscritas conseguiram terminar a leitura do livro "tudo Nela Brilha e Queima", da Ryane Leão,  mas infelizmente não podemos nos encontrar e fazer a partilha das impressões da leitura. É uma pena porque está um sábado muito lindo, sol gostoso e uma numa tarde de outono maravilhosa!!!! Então que pena não poder estar juntas celebrando a literatura, a poesia e falando dessa poeta incrível.

Mas para não ficar assim em branco, resolvi montar uma playlist com alguns poemas dela recitados. Além de poemas deste livro que lemos no rodízio, acrescentei alguns do segundo livro que também é massa! Assim já aproveitei para inaugurar nosso perfil no Soundcloud e em breve teremos mais poesias além dessas recitadas lá, ok? 

Como disse na resenha do livro, essa poesia foi inspiradora para mim e me lembrou várias cantoras incríveis, ícones do jazz, soul, pop e rock que usei como fundo musical, meio improvisado, mas dá pra entrar no clima hehehe. Rolou até  Paco de Lucia e Miles Davis lá, mas é porque bateu uma vontade de dançar também.

Confiram a playlist poética, em homenagem a nossa autora da vez! CLIQUE AQUI. 

Para saber mais sobre o que é e como funciona o Rodízio Literário , CLIQUE AQUI. 


Karina Guedes
@okarapoetica


sexta-feira, 27 de março de 2020

TUDO NELA BRILHA E QUEIMA - Ryane Leão


O cotidiano, as ausências que sobram, as presenças que faltam, feridas abertas, cicatrizes que coçam, Ryane Leão fala de amores e dores com a mesma intensidade. 

À medida que ia lendo este livro por vezes me vi há vinte anos atrás, me jogando sozinha no mundo e enfrentando tudo o que viesse pela frente. Para quem decide se libertar dos padrões de comportamento que a sociedade patriarcal impõe, submissão, casamento, maternidade e a velha moral burguesa às avessas, aprender a resistir e a se reconstruir lutando contra tudo isso é um ato de amor e compaixão para consigo mesma.

O título já diz muito sobre Ryane Leão, ela brilha e queima linha por linha. O amor, as alegrias, revoltas e euforias que transbordam dos versos escritos encontram remanso no peito de quem lê. Afinal, além de verso e ritmo, poesia é também encontro.

As vozes de sua poesia transmitem força, doçura e revolta.     Sentimentos comuns às mulheres que se propõem a questionar sua existência e seu lugar no mundo, assim como criar seu próprio mapa e se aventurar em seus próprios caminhos. A luta e a resistência da mulher negra, são os pilares de sua poética, evocada com sabedoria e amor.

Com uma métrica própria e versos intensos, a autora nos convida a dar vida à nossa voz e nossa poética mais íntima. Afinal, sua poesia é como um chamado para a coragem de questionar, protestar e amar. O diferencial de seu estilo não está só na estrutura estética dos versos, mas também nos temas abordados. Amor, reflexões, desilusões, recomeços, racismo, machismo, luta e muita paixão pela palavra são marcas de seu trabalho. Difícil não se entusiasmar com versos tão empoderadores. Questionamentos, vontade de lutar e reivindicar o seu lugar sem medo de se posicionar. Uma voz poética que ecoa e se expande, indo muito além dos cafés elitizados ou manuais literários acadêmicos de outrora. 

 Ícone da literatura brasileira contemporânea, Ryane Leão é a poesia do hoje, do agora, do momento de luta e amor de cada mulher. É atual, sem ser rasa, simples sem ser supérflua e ao mesmo tempo complexa o bastante para nos levar à reflexões sobre nós mesmos, nossas relações e nossa luta diária.
  
Durante a leitura senti uma vontade imensa de ouvir Nina Simone, Aretha Franklin, Gloria Gayor, Beyoncé, mulheres que usaram a arte como instrumento de resistência e luta. E não só ouvir suas canções, mas compreender suas histórias de vida.  É  absolutamente incrível a sede de conhecimento que uma poesia engajada na concretude das relações sociais pode nos provocar.

Talvez a poesia de Ryane Leão seja um convite a olhar para si mesmo, se conhecer e buscar em nossa ancestralidade toda força de resistência necessária para se manter de pé, de cabeça erguida e em luta. Porém sem abrir mão da capacidade e vontade de amar.



+ SOBRE A AUTORA:

Poeta, professora, Ryane Leão começou a  publicação de seus poemas em lambe-lambes e espalhando pela cidade e também no Twitter.  O projeto @ondejazzmeucoracao, tem milhares de seguidores no Instagram e propõe um grito de poesia e de luta.

Em 2016 realizou uma campanha de financiamento coletivo para o lançamento de seu primeiro livro. No ano seguinte publicou “Tudo Nela Brilha e Queima” (Editora Planeta), marcado pelo ativismo em defesa dos direitos das mulheres negras, que em 2018 lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Jabuti de literatura.

Ryane também é fundadora do Odara- English School for Black Girls, escola de inglês para mulheres negras, onde o trabalho é pautado na resistência da arte e da educação.

Empoderamento e ancestralidade dão um tom de luta na cadência de seus versos. Lançou o segundo livro “Jamais peço desculpas por me derramar” (Editora Planeta) em 2019.

É considerada um nos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

 

Karina Guedes
@okarapoetica




segunda-feira, 23 de março de 2020

QUARENTENA LITERÁRIA!

Olá queridos companheiros (as) de viagens literárias!

Que momento difícil esse em que nos encontramos.  Eu tinha toda uma programação para o mês de março, com leituras e resenhas de obras de grandes escritoras e teríamos também segundo encontro do nosso Rodízio Literário, onde fizemos a leitura da maravilhosa poesia de Ryane Leão. Mas de repente tudo mudou e infelizmente vamos ter que adiar o encontro e sinceramente eu perdi um pouco do pique do que estava preparando para este mês.

Ocupei boa parte dos meus dias buscando, filtrando e digerindo as informações a respeito do covid-19. As coisas estão acontecendo e mudando de paradigmas muito rapidamente, na mesma velocidade da transmissão do vírus. Então, demorei um pouco para me organizar e pensar no que fazer nessa quarentena, que pelo visto não será só de quarenta dias. Que coisa! Mas vamos tentar ver o lado positivo (se é que podemos chamar assim) de tudo isso?

A orientação máxima para conter essa pandemia é para ficar em casa. Oras, para quem pode fazer isso, essa talvez seja uma oportunidade única de utilizar um pouco desse nosso precioso tempo de vida com nós mesmos. Acredito que vocês devem estar recebendo aí chuvas de indicações de coisas para matar o tempo nesse período. Mas que tal se em vez de matar o tempo, nós pudéssemos viver esse tempo. Sabe, experimentar essa chance de fazer algo significativo, intenso, belo e transformador. Algo que nos faça sentir nossa existência de maneira mais ampliada. Ficar em casa pede recolhimento não só do corpo, mas da mente e espírito. Se resguardar por inteiro e ao mesmo tempo direcionar nosso olhar para o que há de mais profundo em nós.

E sabe o que pode ajudar a chegar nesse elevado nível de consciência? Um livro. Sim, o bom e velho livro! Os filmes, séries, jogos e tals, podem ser interessantes experiências de leitura, reflexão e diversão, mas nenhuma delas se compara ao livro.

Compreendo que ler um livro é uma tarefa árdua para muita gente e de modo geral é um desafio de diferentes níveis para cada um de nós. Pois, trata-se de uma atividade que exige disciplina e até mesmo disposição física para poder mergulhar numa narrativa. Sem contar que o acesso ao livro impresso tem se tornado cada vez mais escasso e agora com bibliotecas fechadas ficará ainda mais difícil. No entanto, mesmo compreendendo que o que vou propor aqui vai na contramão das ansiedades por distrações de fácil acesso, não consigo deixar de recomendar ler livros durante essa quarentena. Pode ser aqueles empoeirados na sua estante ou os que estão disponíveis em plataformas digitais, mas leia um livro.

Ler um livro é uma verdadeira aventura, um exercício de concentração quase meditativo e ao mesmo tempo uma experiência sensorial incrível. Quem tem o privilégio de ter livros impressos por perto, pode vivenciar uma experiencia que considero inigualável: ao tocar  e pegar no livro sentimos o peso e a textura do papel, o cheiro que bate a cada virada de página, as emoções que surgem a cada parágrafo e depois vem a famosa ressaca que bate quando aquela história em que você se envolveu tanto, simplesmente acaba.

Nada contra as plataformas digitais, pelo contrário, acho que elas cumprem o papel da acessibilidade e expandem a aventura literária para lugares onde o livro impresso talvez nunca chegue. Mas particularmente não consigo abrir mão desse contato físico com o livro em papel. Preciso desse cheiro de papel e tinta, isso é totalmente pessoal.

Sempre que indico leitura de livros, ouço o resmungar de gente dizendo que não gosta de ler. Neste caso costumo responder o seguinte: não é que você não gosta de ler, provavelmente você só não descobriu ainda seu gênero ou estilo literário! Ou então você ainda não encontrou sua alma gêmea literária, aquele escritor (a) que com ardilosas palavras te arranca do marasmo da ordinária vida cotidiana. E para isso você precisa ir à luta, percorrer páginas e páginas, procurar até encontrar. E cá entre nós, já adianto uma coisa: a melhor parte dessa jornada não é quando a busca termina, mas sim o próprio caminho.

Não se preocupe se não souber por onde começar a ler, afinal estarei por aqui de quarentena também, compartilhando dicas de leituras e aventuras para que esse tempo difícil em que vivemos, possa ser o menos doloroso possível. E se tem algo que pode nos livrar do tédio e nos guiar nos caminhos que levam às profundidades do nosso ser e à elevação da consciência, o nome disso é Literatura.

Fiquem em casa, se cuidem e aproveitem!

Karina Guedes
@okarapoetica

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O PAÍS DO CARNAVAL - Jorge Amado


LEITURAS CARNAVALESCAS II

O País do Carnaval conta a história de Paulo Rigger, um brasileiro, nascido na Bahia e que vai a pedido do pai estudar na Europa e por lá fica alguns anos. Ao retornar para o Brasil, Paulo inicia sua jornada buscando dar conta de suas inquietações, de descobrir do significado da felicidade e do sentido da vida. Conhece alguns intelectuais com que estabelece vínculos de amizade e de genuína parceria intelectual. Nos botecos de Salvador o grupo mantem encontros casuais e passam a vida e discutir sobre política, amor, religião e filosofia. Nesse tortuoso caminho que o faz ver o Brasil tal qual o próprio carnaval, cheio de contradições, Paulo Rigger segue uma trajetória que oscila entre transcendência intelectual e acomodação à sua condição de homem burguês, branco e rico. 

Durante esse tempo no Brasil, ele também conhece as alegrias e dores do amor e quando se vê diante de um dilema que coloca em xeque suas convicções intelectuais, nos mostra seu caráter conservador e machista, incapaz de transpor a linha confortável do discurso intelectualizado burguês tão contraditório quanto o país que ele chama o tempo todo de país do carnaval. Um personagem no mínimo intrigante.  

Obra inicial

Este foi o livro de estreia de Jorge Amado aos 19 anos, no ano de 1931. Aqui se apresenta um escritor crítico e talentoso, interessado em questões como identidade, política, mestiçagem, racismo e cultura popular. Todo o embrião de uma vasta obra que conheceríamos nos anos posteriores. Este livro tem um enredo bem simples,  no entanto  a inquietação intelectual e sentimental do protagonista e seu profundo dilema entre razão e emoção, faz do romance juvenil uma obra substancial e revela um autor já preocupado com o enigma Brasil. Penso até que Paulo Rigger, protagonista do romance, se assemelha em partes com o espírito inquieto e juvenil de seu criador que aos 14 anos já figurava na cena literária de Salvador e foi um dos criadores da "Academia dos Rebeldes", que publicava trabalhos em revistas criadas por eles mesmos.

Gostei do livro. Fiquei com a impressão de que naquele momento aos olhos do autor o Brasil era ainda apenas uma festa, mas não qualquer festa. Uma festa completa com música, beleza, gente alegre, muita bagunça, embriaguez coletiva e a funesta melancolia do dia seguinte; ressaca de um povo diferente e misturado, sobreviventes de uma nau meio sem rumo, com capitão errante, tripulação desgraçada e brincante que não se importa muito onde vai chegar, no entanto insiste em partir. Uma narrativa intrigante, criativa, crítica, e com desfecho um pouco pessimista, na minha avaliação.


Sobre o Autor:

Jorge Amado é mais que um clássico da literatura brasileira, sobretudo da literatura que retrata o Brasil-Bahia, o Brasil- Crioca, o Brasil-Brasil, a cultura popular do povo mestiço e dos infortunados e abandonados do sistema capitalista. Crítico e ousado, trouxe para sua obra nuances da rica diversidade da cultura popular brasileira. Um escritor atemporal, cuja obra já foi publicada em mais de 50 países e é talvez o escritor mais adaptado da dramaturgia brasileira. 


Karina Guedes
@okarapoetica


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ANTES DO BAILE VERDE - Lygia Fagundes Telles


LEITURAS CARNAVALESCAS I

Adoro contos! Sem dúvida é um dos meus gêneros favoritos e Antes do Baile 
Verde é um livro excelente que nos permite experimentar um pouco da deliciosa prosa de Lygia Fagundes Telles. 

Cada história, um mergulho na astúcia e talento da autora em capturar nossa atenção e nos intrigar com dramas envolventes. Inveja, ódio, amor, posse, ciúmes e malícia, entre provocações e reflexões, as histórias são cheias de ironias acerca do comportamento humano e de nosso senso de humanidade, ou falta dele. Seus personagens são revelados em detalhes, ficando nus e expostos ao nosso olhar ora surpreendido, ora desconfiado, mas sempre curioso com o próximo passo. A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.

O conto que dá nome ao livro, é um convite a reflexão sobre vida e morte, responsabilidade e fuga da realidade, contradições internas alegoricamente representada simbolicamente por nossa festa mais popular, o carnaval. Que serve de pano de fundo para o desenvolvimento do drama de duas mulheres de classes distintas e opostas diante de um dilema ético cujo desfecho não é nem um pouco o mais esperado.  Já o conto Verde Lagarto Amarelo expõe a fragilidade das relações familiares, uma perturbadora narração de um personagem passivo/violento que dilacera seu inimigo com palavras afiadas e cortantes. E assim, sucessivamente cada história nos dá a breve sensação de uma viagem ao mundo peculiar de cada protagonista, seus anseios e devaneios, medos e loucuras, seus sofrimentos e contradições.  Antes do baile Verde reúne contos escritos por Lygia entre 1949 a 1969 e são apresentados em ordem decrescente do mais antigo ao mais recente.

Para quem ainda não conhece a vasta obra da autora, este pode ser um bom começo. E se ao final da leitura você sentir um desconforto estomacal e ao mesmo tempo uma sensação de euforia, não se preocupe. Significa apenas que você se embriagou com as 18 doses de Lygia Fagundes Telles, servidas no livro.


Sobre a autora:
Lygia Fagundes Telles dispensa apresentações. Premiada escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Além de advogada, romancista e contista, Lygia tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.


Karina Guedes
@okarapoetica


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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO - Angélica Freitas

Simplesmente amo poesia, vocês sabem. Mas tem um tipo de poesia que me encanta mais, que é aquela que me tira da zona de conforto, me intriga e leva para algum lugar para além do chão batido do cotidiano.  Acho que já disse isso por aqui...

um útero é do tamanho de um punho foi minha última leitura de 2019, e que leitura! Posso dizer que encerrei o ano com chave de ouro. A poesia de Angélica Freitas nos trasntorna, nos desajeita, incomoda e ao trazer em versos questões do chamado feminino, faz pensar naquilo que muitas vezes deixamos pra lá, pra depois, tudo aquilo que incomoda em ser mulher. 
A cobrança pela aparência padrão, pela maternidade, os preconceitos de gênero, homossexualidade, transsexualidade. Enfim, não é um livro que me faz ficar divagando, sonhando ou inebriada com a sonoridade das palavras, não. Fiquei tonta, inquieta, com raiva às vezes e rindo em outras. Seus versos são carregados de questionamentos, de incômodos e bastas. Mas são também cheios de ironia e sarcasmo, que nos faz até rir de certos absurdos do patriarcado. 

Com um estilo muito único e original, a poesia de Angélica Freitas vai nos tomando verso a verso, página por página. Em seus versos livres e bem articulados, contemporâneos por assim dizer, são denunciadas as opressões e violências sofridas por nós mulheres e como lidamos com isso.  Numa escrita franca, ela fala do ser mulher de uma maneira autêntica que faz coro com nossas vozes mais íntimas.

Agélica contou em entrevista ao Estratégias Narrativas, que quando criança ganhou de presente uma enciclopédia chamada O mundo da criança, e o primeiro volume  era de Poesia para criança, ao ler foi tomada de uma alegria enorme por achar aquilo uma brincadeira, um jogo e essa foi a sua entrada na poesia, lendo poesia para criança, uma poesia mais lúdica e que de certa forma influenciou seus primeiros poemas que eram cheios de humor. E a partir daí descobriu um imenso prazer em escrever poemas.
É visível que o humor e até mesmo a ludicidade fazem parte de sues versos até hoje. A autora brinca com as palavras num jogo poético que ora faz rir, ora faz pensar, ao mesmo tempo que diverte, inquieta.

"im itiri i di timinhi di im pinhi
quem pode dizer que tenho um útero
(o médico) quem pode dizer que funciona (o médico)
i midici
o medo de que não funcione
para que serve um útero quando não se faz filhos


para quê


piri qui"


Questionamentos, reflexões, inquietações. Tudo isso veio à tona enquanto eu lia e acho que não é um livro pra ler e encostar na estante, pelo contrário, é pra ler e reler, porque o tema abortado é um tema que não se esgota: Mulher! ou Mulheres! ou Nós!
O poema que mais gostei é o que dá nome ao livro, ele traz uma reflexão profunda sobre a propriedade do corpo da mulher, quem manda em nosso útero? Por que temos que passar por tantas instituições, estado, igreja, família, para poder decidir sobre nosso próprio corpo?

"pra que serve um útero quando não se faz filhos", esse verso me tocou sensivelmente, pois vem de encontro a uma reflexão que tenho feito nos últimos anos, a não-maternidade. Parece ser fácil, escolher não ter filhos, porém não se pode fugir do tribunal armado que a sociedade nos reserva pelo simples fato de você não querer cumprir um papel ditado pelo patriarcado. Quando você diz não quero ter filhos, logo vem a pergunta, "mas então o que você vai fazer da vida?" Como se parir fosse nosso único propósito.

Pra terminar, devo avisar aos leitores interessados que caso não tenha nenhuma familiaridade com os temas abordados, seria interessante ler a respeito antes. Acredito que pode tornar a leitura mais saborosa.


Sobre a autora:

Angélica Freitas, poeta e tradutora. Nasceu em Pelotas, RS em 1973. Chegou a cursar Letras mas desistiu do curso porque queria mesmo era escrever. Afinal escreve poemas desde de quando era criança. Formou- se em jornalismo e mudou-se mais tarde para São Paulo, onde trabalhou como repórter para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Informática Hoje.

Publicou o livro Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2013). Angélica Freitas foi coeditora, com os poetas Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, da revista de poesia Modo de Usar & Co.

Seus poemas já foram publicados e traduzidos na  Espanha, México, Estados Unidos, Alemanha e França.


Karina Guedes
@okarapoetica

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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

PÃO E ÁGUA

primeiro proibiram os saraus
disseram que a Poesia era algo inútil
depois eliminaram a Filosofia dos currículos escolares
pensar já não era necessário
por fim, queimaram páginas e mais páginas da História
e pouco a pouco destruiram tudo o que poderia ser chamado
de essência humana

hoje

alguns dizem que a Ignorância é uma benção
e outros dizem, Amém!


(Karina Guedes - Agosto/2019)

domingo, 1 de dezembro de 2019

QUANDO EXPLORAÇÃO

sob as ancas, joelhos, panturrilhas e tornozelos
todo o peso do caminho
trabalha, trabalha, trabalha

padecer do corpo, o preço da sobrevivência
na mente estafada, a sobrecarga dos anos
carrega, carrega, carrega,

cansaço que denuncia o cúmulo da servidão
nos sonhos, um sono profundo
aguenta, aguenta, aguenta

transpassa ossos, músculos e tendões
dói a alma
luta, luta, luta

a morte servida em jornadas semanais
sufoca a transcendência
resiste, resiste, resiste!

Escuto uma voz...

Não morra!
o prazo de validade ainda não venceu
e o contrato ainda não acabou

Não morra!
poque senão esse teu prejuízo
será em parte meu

Não morra ainda,
afinal o propósito da minha vida
é lucrar com a tua


(Karina Guedes - maio/2019)

sábado, 30 de novembro de 2019

VENDO PÓ...ESIA! - Rodrigo Ciríaco

Gosto de poesia que me tira do lugar, me arranca o chão batido do cotidiano. E definitivamente esse livro do Rodrigo Ciríaco é dessas poesias de fazer a gente gritar, de raiva, de alegria, de indignação e de paixão. Acho que é isso, uma poesia apaixonante. Que rasga o peito e infla-a-alma, inflama, incendeia e nos revela a vida pelas víceras. ADORO!

Vendo Pó...esia! é um livro diferente de muita coisa que se tem lançado por aí. Não só em seu inquietante projeto gráfico, que faz com que você leia até de ponta cabeça, mas principalmente por trazer em seu ritmo uma explosão de sons. Do grito ao sussuro, do barulho ao silêncio. Poemas para serem lidos em voz alta, mesmo no silêncio. Para serem relidos e semeados por aí. Porque acima de tudo são gritos de luta, de manifestAÇÃO de um poeta militante, educador persistente e insistente na arte de provocar. Um poeta da Rua mais do que da lua!  Da Periferia! Da Resistência! Da verdade nua e crua!


Enfim, é difício resenhar esse livro sem entregar o ouro, rs. A poesia do Rodrigo Ciríaco é assim, contagiante! Não se espante se logo depois de ler os primeiros poemas, você sentir uma vontade descontrolada de pegar papel e caneta e começar e desenhar seus próprios gritos. O jogo poético do autor é sedutor, ele te provoca e você aceita e logo grita tua manifestAÇÃO também!
Recomendo este Pó...esia, três dosses ao dia. Só pra começar.

A primeira vez que vi o Rodrígo em cena, foi no Sarau da Cooperifa há uns 13 anos. E de lá pra cá acompanho suas redes sociais e projetos literários. Sempre o vi como um escritor e educador muito engajado e mais do que isso muito entregue e disposto ao trabalho que desenvolve. Recentemente participei de uma oficina ministrada por ele, "A Pedagogia dos Saraus", foi muito incrível. Ele é um genuíno provocador poético,  desses de fazer você sentir vontade e sede de poesia, simples assim.
Em seu trabalho segue semeando vontades literárias por onde passa e de certa forma, essa peregrinação poética está presente em seus textos. Trazendo para o papel sempre um olhar crítico sobre a sociedade e sobre nosso próprio modo de estar neste mundo.



Um pouco mais sobre o autor:

Rodrigo Ciríaco é educador e escritor, autor dos livros “Te Pego Lá Fora”, “100 Mágoas” e “Vendo Pó…esia”. Participa há mais de 10 anos do movimento de saraus da periferia. É idealizador do projeto “Literatura (é) Possível”, que desde 2006 desenvolve ações de incentivo a leitura, produção escrita e difusão literária em escolas públicas estaduais e municipais, com o “Sarauzim – Sarau dos Mesquiteiros”. Foi autor convidado do Salão de Paris (2015 e 2013), FELIV – Festival do Livro e Literatura Infanto-Juvenil da Argelia (2014), 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (2014), FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (2011), entre outros.




Karina Guedes
@okarapoetica


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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

2º RODÍZIO LITERÁRIO! "TUDO NELA BRILHA E QUEIMA"

Com muita alegria venho dizer que já está rolando o nosso 2º Rodízio Literário.!!!! 

A ideia é fazer um livro circular e passar de mão em mão, para que mais pessoas possam ter acesso à leitura. E depois, ao final do rodízio fazemos um encontro para conversar sobre o livro. 

O livro da vez é Tudo nela brilha e queima, da talentosa Ryane Leão. 

Com uma métrica própria, versos intensos, Ryane Leão nos convida a poetizar  e dar vida à nossa voz e nossa poética mais íntima.  Afinal, sua poesia é como um chamado para a coragem de questionar, protestar e amar.  Empoderamento, reflexões, desilusões, recomeços,  dilemas do feminino, luta e  muita paixão pela palavra , são marcas de seu trabalho.  Ryane começou publicando seus poemas em lambe-lambes e espalhando pela cidade, e também no Twitter.  O projeto @ondejazzmeucoracao, tem milhares de seguidores e propõe um grito de poesia e de luta.  Difícil não se entusiasmar com versos tão poderosos que soam aos nosso ouvidos como gritos de dor, amor e resistência!

Acompanhe as edições e convites para participar no Instagram: @okarapoetica . Segue lá! 

Em breve infomarei quando e onde será o próximo encontro. 

Inté!




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