segunda-feira, 23 de março de 2020

QUARENTENA LITERÁRIA!

Olá queridos companheiros (as) de viagens literárias!

Que momento difícil esse em que nos encontramos.  Eu tinha toda uma programação para o mês de março, com leituras e resenhas de obras de grandes escritoras e teríamos também segundo encontro do nosso Rodízio Literário, onde fizemos a leitura da maravilhosa poesia de Ryane Leão. Mas de repente tudo mudou e infelizmente vamos ter que adiar o encontro e sinceramente eu perdi um pouco do pique do que estava preparando para este mês.

Ocupei boa parte dos meus dias buscando, filtrando e digerindo as informações a respeito do covid-19. As coisas estão acontecendo e mudando de paradigmas muito rapidamente, na mesma velocidade da transmissão do vírus. Então, demorei um pouco para me organizar e pensar no que fazer nessa quarentena, que pelo visto não será só de quarenta dias. Que coisa! Mas vamos tentar ver o lado positivo (se é que podemos chamar assim) de tudo isso?

A orientação máxima para conter essa pandemia é para ficar em casa. Oras, para quem pode fazer isso, essa talvez seja uma oportunidade única de utilizar um pouco desse nosso precioso tempo de vida com nós mesmos. Acredito que vocês devem estar recebendo aí chuvas de indicações de coisas para matar o tempo nesse período. Mas que tal se em vez de matar o tempo, nós pudéssemos viver esse tempo. Sabe, experimentar essa chance de fazer algo significativo, intenso, belo e transformador. Algo que nos faça sentir nossa existência de maneira mais ampliada. Ficar em casa pede recolhimento não só do corpo, mas da mente e espírito. Se resguardar por inteiro e ao mesmo tempo direcionar nosso olhar para o que há de mais profundo em nós.

E sabe o que pode ajudar a chegar nesse elevado nível de consciência? Um livro. Sim, o bom e velho livro! Os filmes, séries, jogos e tals, podem ser interessantes experiências de leitura, reflexão e diversão, mas nenhuma delas se compara ao livro.

Compreendo que ler um livro é uma tarefa árdua para muita gente e de modo geral é um desafio de diferentes níveis para cada um de nós. Pois, trata-se de uma atividade que exige disciplina e até mesmo disposição física para poder mergulhar numa narrativa. Sem contar que o acesso ao livro impresso tem se tornado cada vez mais escasso e agora com bibliotecas fechadas ficará ainda mais difícil. No entanto, mesmo compreendendo que o que vou propor aqui vai na contramão das ansiedades por distrações de fácil acesso, não consigo deixar de recomendar ler livros durante essa quarentena. Pode ser aqueles empoeirados na sua estante ou os que estão disponíveis em plataformas digitais, mas leia um livro.

Ler um livro é uma verdadeira aventura, um exercício de concentração quase meditativo e ao mesmo tempo uma experiência sensorial incrível. Quem tem o privilégio de ter livros impressos por perto, pode vivenciar uma experiencia que considero inigualável: ao tocar  e pegar no livro sentimos o peso e a textura do papel, o cheiro que bate a cada virada de página, as emoções que surgem a cada parágrafo e depois vem a famosa ressaca que bate quando aquela história em que você se envolveu tanto, simplesmente acaba.

Nada contra as plataformas digitais, pelo contrário, acho que elas cumprem o papel da acessibilidade e expandem a aventura literária para lugares onde o livro impresso talvez nunca chegue. Mas particularmente não consigo abrir mão desse contato físico com o livro em papel. Preciso desse cheiro de papel e tinta, isso é totalmente pessoal.

Sempre que indico leitura de livros, ouço o resmungar de gente dizendo que não gosta de ler. Neste caso costumo responder o seguinte: não é que você não gosta de ler, provavelmente você só não descobriu ainda seu gênero ou estilo literário! Ou então você ainda não encontrou sua alma gêmea literária, aquele escritor (a) que com ardilosas palavras te arranca do marasmo da ordinária vida cotidiana. E para isso você precisa ir à luta, percorrer páginas e páginas, procurar até encontrar. E cá entre nós, já adianto uma coisa: a melhor parte dessa jornada não é quando a busca termina, mas sim o próprio caminho.

Não se preocupe se não souber por onde começar a ler, afinal estarei por aqui de quarentena também, compartilhando dicas de leituras e aventuras para que esse tempo difícil em que vivemos, possa ser o menos doloroso possível. E se tem algo que pode nos livrar do tédio e nos guiar nos caminhos que levam às profundidades do nosso ser e à elevação da consciência, o nome disso é Literatura.

Fiquem em casa, se cuidem e aproveitem!

Karina Guedes
@okarapoetica

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O PAÍS DO CARNAVAL - Jorge Amado


LEITURAS CARNAVALESCAS II

O País do Carnaval conta a história de Paulo Rigger, um brasileiro, nascido na Bahia e que vai a pedido do pai estudar na Europa e por lá fica alguns anos. Ao retornar para o Brasil, Paulo inicia sua jornada buscando dar conta de suas inquietações, de descobrir do significado da felicidade e do sentido da vida. Conhece alguns intelectuais com que estabelece vínculos de amizade e de genuína parceria intelectual. Nos botecos de Salvador o grupo mantem encontros casuais e passam a vida e discutir sobre política, amor, religião e filosofia. Nesse tortuoso caminho que o faz ver o Brasil tal qual o próprio carnaval, cheio de contradições, Paulo Rigger segue uma trajetória que oscila entre transcendência intelectual e acomodação à sua condição de homem burguês, branco e rico. 

Durante esse tempo no Brasil, ele também conhece as alegrias e dores do amor e quando se vê diante de um dilema que coloca em xeque suas convicções intelectuais, nos mostra seu caráter conservador e machista, incapaz de transpor a linha confortável do discurso intelectualizado burguês tão contraditório quanto o país que ele chama o tempo todo de país do carnaval. Um personagem no mínimo intrigante.  

Obra inicial

Este foi o livro de estreia de Jorge Amado aos 19 anos, no ano de 1931. Aqui se apresenta um escritor crítico e talentoso, interessado em questões como identidade, política, mestiçagem, racismo e cultura popular. Todo o embrião de uma vasta obra que conheceríamos nos anos posteriores. Este livro tem um enredo bem simples,  no entanto  a inquietação intelectual e sentimental do protagonista e seu profundo dilema entre razão e emoção, faz do romance juvenil uma obra substancial e revela um autor já preocupado com o enigma Brasil. Penso até que Paulo Rigger, protagonista do romance, se assemelha em partes com o espírito inquieto e juvenil de seu criador que aos 14 anos já figurava na cena literária de Salvador e foi um dos criadores da "Academia dos Rebeldes", que publicava trabalhos em revistas criadas por eles mesmos.

Gostei do livro. Fiquei com a impressão de que naquele momento aos olhos do autor o Brasil era ainda apenas uma festa, mas não qualquer festa. Uma festa completa com música, beleza, gente alegre, muita bagunça, embriaguez coletiva e a funesta melancolia do dia seguinte; ressaca de um povo diferente e misturado, sobreviventes de uma nau meio sem rumo, com capitão errante, tripulação desgraçada e brincante que não se importa muito onde vai chegar, no entanto insiste em partir. Uma narrativa intrigante, criativa, crítica, e com desfecho um pouco pessimista, na minha avaliação.


Sobre o Autor:

Jorge Amado é mais que um clássico da literatura brasileira, sobretudo da literatura que retrata o Brasil-Bahia, o Brasil- Crioca, o Brasil-Brasil, a cultura popular do povo mestiço e dos infortunados e abandonados do sistema capitalista. Crítico e ousado, trouxe para sua obra nuances da rica diversidade da cultura popular brasileira. Um escritor atemporal, cuja obra já foi publicada em mais de 50 países e é talvez o escritor mais adaptado da dramaturgia brasileira. 


Karina Guedes
@okarapoetica


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ANTES DO BAILE VERDE - Lygia Fagundes Telles


LEITURAS CARNAVALESCAS I

Adoro contos! Sem dúvida é um dos meus gêneros favoritos e Antes do Baile 
Verde é um livro excelente que nos permite experimentar um pouco da deliciosa prosa de Lygia Fagundes Telles. 

Cada história, um mergulho na astúcia e talento da autora em capturar nossa atenção e nos intrigar com dramas envolventes. Inveja, ódio, amor, posse, ciúmes e malícia, entre provocações e reflexões, as histórias são cheias de ironias acerca do comportamento humano e de nosso senso de humanidade, ou falta dele. Seus personagens são revelados em detalhes, ficando nus e expostos ao nosso olhar ora surpreendido, ora desconfiado, mas sempre curioso com o próximo passo. A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte; às vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.

O conto que dá nome ao livro, é um convite a reflexão sobre vida e morte, responsabilidade e fuga da realidade, contradições internas alegoricamente representada simbolicamente por nossa festa mais popular, o carnaval. Que serve de pano de fundo para o desenvolvimento do drama de duas mulheres de classes distintas e opostas diante de um dilema ético cujo desfecho não é nem um pouco o mais esperado.  Já o conto Verde Lagarto Amarelo expõe a fragilidade das relações familiares, uma perturbadora narração de um personagem passivo/violento que dilacera seu inimigo com palavras afiadas e cortantes. E assim, sucessivamente cada história nos dá a breve sensação de uma viagem ao mundo peculiar de cada protagonista, seus anseios e devaneios, medos e loucuras, seus sofrimentos e contradições.  Antes do baile Verde reúne contos escritos por Lygia entre 1949 a 1969 e são apresentados em ordem decrescente do mais antigo ao mais recente.

Para quem ainda não conhece a vasta obra da autora, este pode ser um bom começo. E se ao final da leitura você sentir um desconforto estomacal e ao mesmo tempo uma sensação de euforia, não se preocupe. Significa apenas que você se embriagou com as 18 doses de Lygia Fagundes Telles, servidas no livro.


Sobre a autora:
Lygia Fagundes Telles dispensa apresentações. Premiada escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Além de advogada, romancista e contista, Lygia tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.


Karina Guedes
@okarapoetica


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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO - Angélica Freitas

Simplesmente amo poesia, vocês sabem. Mas tem um tipo de poesia que me encanta mais, que é aquela que me tira da zona de conforto, me intriga e leva para algum lugar para além do chão batido do cotidiano.  Acho que já disse isso por aqui...

um útero é do tamanho de um punho foi minha última leitura de 2019, e que leitura! Posso dizer que encerrei o ano com chave de ouro. A poesia de Angélica Freitas nos trasntorna, nos desajeita, incomoda e ao trazer em versos questões do chamado feminino, faz pensar naquilo que muitas vezes deixamos pra lá, pra depois, tudo aquilo que incomoda em ser mulher. 
A cobrança pela aparência padrão, pela maternidade, os preconceitos de gênero, homossexualidade, transsexualidade. Enfim, não é um livro que me faz ficar divagando, sonhando ou inebriada com a sonoridade das palavras, não. Fiquei tonta, inquieta, com raiva às vezes e rindo em outras. Seus versos são carregados de questionamentos, de incômodos e bastas. Mas são também cheios de ironia e sarcasmo, que nos faz até rir de certos absurdos do patriarcado. 

Com um estilo muito único e original, a poesia de Angélica Freitas vai nos tomando verso a verso, página por página. Em seus versos livres e bem articulados, contemporâneos por assim dizer, são denunciadas as opressões e violências sofridas por nós mulheres e como lidamos com isso.  Numa escrita franca, ela fala do ser mulher de uma maneira autêntica que faz coro com nossas vozes mais íntimas.

Agélica contou em entrevista ao Estratégias Narrativas, que quando criança ganhou de presente uma enciclopédia chamada O mundo da criança, e o primeiro volume  era de Poesia para criança, ao ler foi tomada de uma alegria enorme por achar aquilo uma brincadeira, um jogo e essa foi a sua entrada na poesia, lendo poesia para criança, uma poesia mais lúdica e que de certa forma influenciou seus primeiros poemas que eram cheios de humor. E a partir daí descobriu um imenso prazer em escrever poemas.
É visível que o humor e até mesmo a ludicidade fazem parte de sues versos até hoje. A autora brinca com as palavras num jogo poético que ora faz rir, ora faz pensar, ao mesmo tempo que diverte, inquieta.

"im itiri i di timinhi di im pinhi
quem pode dizer que tenho um útero
(o médico) quem pode dizer que funciona (o médico)
i midici
o medo de que não funcione
para que serve um útero quando não se faz filhos


para quê


piri qui"


Questionamentos, reflexões, inquietações. Tudo isso veio à tona enquanto eu lia e acho que não é um livro pra ler e encostar na estante, pelo contrário, é pra ler e reler, porque o tema abortado é um tema que não se esgota: Mulher! ou Mulheres! ou Nós!
O poema que mais gostei é o que dá nome ao livro, ele traz uma reflexão profunda sobre a propriedade do corpo da mulher, quem manda em nosso útero? Por que temos que passar por tantas instituições, estado, igreja, família, para poder decidir sobre nosso próprio corpo?

"pra que serve um útero quando não se faz filhos", esse verso me tocou sensivelmente, pois vem de encontro a uma reflexão que tenho feito nos últimos anos, a não-maternidade. Parece ser fácil, escolher não ter filhos, porém não se pode fugir do tribunal armado que a sociedade nos reserva pelo simples fato de você não querer cumprir um papel ditado pelo patriarcado. Quando você diz não quero ter filhos, logo vem a pergunta, "mas então o que você vai fazer da vida?" Como se parir fosse nosso único propósito.

Pra terminar, devo avisar aos leitores interessados que caso não tenha nenhuma familiaridade com os temas abordados, seria interessante ler a respeito antes. Acredito que pode tornar a leitura mais saborosa.


Sobre a autora:

Angélica Freitas, poeta e tradutora. Nasceu em Pelotas, RS em 1973. Chegou a cursar Letras mas desistiu do curso porque queria mesmo era escrever. Afinal escreve poemas desde de quando era criança. Formou- se em jornalismo e mudou-se mais tarde para São Paulo, onde trabalhou como repórter para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Informática Hoje.

Publicou o livro Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2013). Angélica Freitas foi coeditora, com os poetas Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, da revista de poesia Modo de Usar & Co.

Seus poemas já foram publicados e traduzidos na  Espanha, México, Estados Unidos, Alemanha e França.


Karina Guedes
@okarapoetica

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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

PÃO E ÁGUA

primeiro proibiram os saraus
disseram que a Poesia era algo inútil
depois eliminaram a Filosofia dos currículos escolares
pensar já não era necessário
por fim, queimaram páginas e mais páginas da História
e pouco a pouco destruiram tudo o que poderia ser chamado
de essência humana

hoje

alguns dizem que a Ignorância é uma benção
e outros dizem, Amém!


(Karina Guedes - Agosto/2019)

domingo, 1 de dezembro de 2019

QUANDO EXPLORAÇÃO

sob as ancas, joelhos, panturrilhas e tornozelos
todo o peso do caminho
trabalha, trabalha, trabalha

padecer do corpo, o preço da sobrevivência
na mente estafada, a sobrecarga dos anos
carrega, carrega, carrega,

cansaço que denuncia o cúmulo da servidão
nos sonhos, um sono profundo
aguenta, aguenta, aguenta

transpassa ossos, músculos e tendões
dói a alma
luta, luta, luta

a morte servida em jornadas semanais
sufoca a transcendência
resiste, resiste, resiste!

Escuto uma voz...

Não morra!
o prazo de validade ainda não venceu
e o contrato ainda não acabou

Não morra!
poque senão esse teu prejuízo
será em parte meu

Não morra ainda,
afinal o propósito da minha vida
é lucrar com a tua


(Karina Guedes - maio/2019)

sábado, 30 de novembro de 2019

VENDO PÓ...ESIA! - Rodrigo Ciríaco

Gosto de poesia que me tira do lugar, me arranca o chão batido do cotidiano. E definitivamente esse livro do Rodrigo Ciríaco é dessas poesias de fazer a gente gritar, de raiva, de alegria, de indignação e de paixão. Acho que é isso, uma poesia apaixonante. Que rasga o peito e infla-a-alma, inflama, incendeia e nos revela a vida pelas víceras. ADORO!

Vendo Pó...esia! é um livro diferente de muita coisa que se tem lançado por aí. Não só em seu inquietante projeto gráfico, que faz com que você leia até de ponta cabeça, mas principalmente por trazer em seu ritmo uma explosão de sons. Do grito ao sussuro, do barulho ao silêncio. Poemas para serem lidos em voz alta, mesmo no silêncio. Para serem relidos e semeados por aí. Porque acima de tudo são gritos de luta, de manifestAÇÃO de um poeta militante, educador persistente e insistente na arte de provocar. Um poeta da Rua mais do que da lua!  Da Periferia! Da Resistência! Da verdade nua e crua!


Enfim, é difício resenhar esse livro sem entregar o ouro, rs. A poesia do Rodrigo Ciríaco é assim, contagiante! Não se espante se logo depois de ler os primeiros poemas, você sentir uma vontade descontrolada de pegar papel e caneta e começar e desenhar seus próprios gritos. O jogo poético do autor é sedutor, ele te provoca e você aceita e logo grita tua manifestAÇÃO também!
Recomendo este Pó...esia, três dosses ao dia. Só pra começar.

A primeira vez que vi o Rodrígo em cena, foi no Sarau da Cooperifa há uns 13 anos. E de lá pra cá acompanho suas redes sociais e projetos literários. Sempre o vi como um escritor e educador muito engajado e mais do que isso muito entregue e disposto ao trabalho que desenvolve. Recentemente participei de uma oficina ministrada por ele, "A Pedagogia dos Saraus", foi muito incrível. Ele é um genuíno provocador poético,  desses de fazer você sentir vontade e sede de poesia, simples assim.
Em seu trabalho segue semeando vontades literárias por onde passa e de certa forma, essa peregrinação poética está presente em seus textos. Trazendo para o papel sempre um olhar crítico sobre a sociedade e sobre nosso próprio modo de estar neste mundo.



Um pouco mais sobre o autor:

Rodrigo Ciríaco é educador e escritor, autor dos livros “Te Pego Lá Fora”, “100 Mágoas” e “Vendo Pó…esia”. Participa há mais de 10 anos do movimento de saraus da periferia. É idealizador do projeto “Literatura (é) Possível”, que desde 2006 desenvolve ações de incentivo a leitura, produção escrita e difusão literária em escolas públicas estaduais e municipais, com o “Sarauzim – Sarau dos Mesquiteiros”. Foi autor convidado do Salão de Paris (2015 e 2013), FELIV – Festival do Livro e Literatura Infanto-Juvenil da Argelia (2014), 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (2014), FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (2011), entre outros.




Karina Guedes
@okarapoetica


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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

2º RODÍZIO LITERÁRIO! "TUDO NELA BRILHA E QUEIMA"

Com muita alegria venho dizer que já está rolando o nosso 2º Rodízio Literário.!!!! 

A ideia é fazer um livro circular e passar de mão em mão, para que mais pessoas possam ter acesso à leitura. E depois, ao final do rodízio fazemos um encontro para conversar sobre o livro. 

O livro da vez é Tudo nela brilha e queima, da talentosa Ryane Leão. 

Com uma métrica própria, versos intensos, Ryane Leão nos convida a poetizar  e dar vida à nossa voz e nossa poética mais íntima.  Afinal, sua poesia é como um chamado para a coragem de questionar, protestar e amar.  Empoderamento, reflexões, desilusões, recomeços,  dilemas do feminino, luta e  muita paixão pela palavra , são marcas de seu trabalho.  Ryane começou publicando seus poemas em lambe-lambes e espalhando pela cidade, e também no Twitter.  O projeto @ondejazzmeucoracao, tem milhares de seguidores e propõe um grito de poesia e de luta.  Difícil não se entusiasmar com versos tão poderosos que soam aos nosso ouvidos como gritos de dor, amor e resistência!

Acompanhe as edições e convites para participar no Instagram: @okarapoetica . Segue lá! 

Em breve infomarei quando e onde será o próximo encontro. 

Inté!




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domingo, 13 de outubro de 2019

FRANKENSTEIN OU O PROMETEU MODERNO - Mary Shelley

 


Frankenstein ou o Prometeu moderno, é um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, escrito por Mary Shelley aos dezenove anos de idade.

A primeira vez que li esse livro foi  há muitos anos numa versão resumida dessas edições de primeiras leituras, um texto bem raso. Talvez por não ser o texto completo, não consegui captar a essência e intensidade desta história fascinante.

Desta vez, lendo o texto completo numa edição bilingue, simplesmente amei esta obra. Foi como se estivesse lendo pela primeira vez. 

Que texto! 

Uma narrativa incrivelmente envolvente, com personagens intensos e que nos convida a fazer algumas reflexões acerca do ser humano, da sociedade, da liberdade, do amor, dos males que assombram nosso espírito e nosso destino. 

Porém, publicá-la não foi algo fácil. O mercado literário que nunca foi muito aberto às mulheres, em 1818 era ainda mais exclusivo e dominado pelos homens. O trabalho de Mary Shelley foi rejeitado por vários editores e muitos ainda duvidavam de sua autoria, sugerindo que a criação pertencia ao seu marido, afinal Percy Shelley era um poeta bem conhecido. A primeira edição foi publicada anonimamente em três volumes, como de costume a época, e com o prefácio de Percy Shelley. Na segunda edição Mary já figurava como autora da obra e na terceira edição de 1831, talvez a mais popular publicada em volume único, ela escreve uma introdução que narra a sucessão de eventos que a levaram a compor a obra. 

A edição que acabo de ler foi a primeira lançada em 1818, considerada por muitos especialistas a que conserva melhor o verdadeiro espírito da obra, pois ainda não sofrera as alterações e nem as revisões que a própria autora fez depois. 

Confesso (é notável) que é com muita paixão que escrevo estas linhas. Esta história de certa forma me tocou desde a primeira leitura. Porém, relê-la dezessete anos depois me trouxe várias percepções e reflexões que eu não tinha tido anteriormente.

A começar pela genialidade da autora. Mary Shelley tinha apenas 19 anos quando escreveu esse romance. Através de sua história, ela cria não a penas uma brilhante narrativa, mas também um novo gênero literário: a literatura de ficção científica. 

Filha de Mary Wollstonecraft , escritora inglesa do século XVIII, filósofa, defensora dos direitos das mulheres e de William Goldwy, jornalista inglês, filósofo, político, novelista, considerado um dos criadores do Anarquismo. Mary cresceu numa família de questionadores e isso estará presente em sua obra, pois seu livro apresenta alto teor filosófico e faz com que seja não apenas uma história de terror que perturba, mas também que comove e faz pensar.

Seu estilo é marcado por uma escrita elegante e sofisticada, mas sem ser presunçosa. Poética sem ser pedante e que prende o leitor a cada página com a envolvente cumplicidade das cartas. Através da narrativa epistolar, a autora utiliza-se do recurso estilístico do ponto de vista. Ora a voz narrativa é do criador, ora da criatura, ora do capitão que reconta a história que acabara de ouvir para sua irmã distante. Esse contar e recontar faz com que a narrativa ganhe alto teor de argumentação, deixando o leitor muitas vezes em dúvida em relação a que partido tomar, se do criador ou da criatura. Ou de ambos.

As personagens são intensas e de personalidades bem marcantes, como a meiga e bondosa prima Elizabeth, o amoroso e compreensivo pai Alphonse Frankenstein, o ingênuo e deslumbrado amigo Clerval, o orgulhoso e obstinado Victor Frankenstein e a enigmática e cativante Criatura, são alguns exemplos. 

Considerado um grande romance do gótico inglês, movimento que se inicia na arquitetura da idade média e depois se expressa também na literatura, o texto de Mary Shelley apresenta as principais características deste estilo como certas visões do terrível na natureza,  as tempestades fortes, raivosas, assustadoras, ambientes que sugerem terror, medo; comportamentos e situações estranhas e criaturas de origem sobrenatural. Porém, traz também marcas do romantismo, como valorização desta natureza imponente e grandiosa, da emoção, do instinto. A dicotomia entre o sagrado e o profano: que por um lado, apresenta um sentimento religioso muito forte e por outro a atração e fascínio pelo demoníaco, pelas ciências ocultas, sentimentos obscuros que podem levar o homem ao crime e a atitudes pavorosas.  Um texto magistral, uma obra que merece ser lida.


RESUMO DA HISTÓRIA

Não irei expor aqui todos os detalhes do texto, meu resumo contém apenas as partes mais significativas para a análise, porém será inevitável revelar partes do enredo.

Tudo começa quando o jovem viajante Robert Walton durante uma expedição com destino ao Polo Norte, em determinado ponto de sua viagem após ser impedido de avançar por um bloqueio de gelo, encontra um homem em frangalhos num trenó quase à beira da morte. Este homem é resgatado e fica aos cuidados de Walton que havia acabado de escrever uma carta a sua irmã lamentando a solidão e a falta de ter um amigo íntimo. 

O homem resgatado chama-se Victor Frankenstein e depois de algum tempo começa a contar a Walton sua história no intuito de lhe passar alguns conselhos.  O relato começa com Victor contando sobre sua infância e sua educação, que fora livre e culturalmente rica. Desde a infância já se mostrava curioso e interessado em compreender os fenômenos naturais. Filho de família abastada teve a oportunidade de estudar em boa escola e ir à universidade. 

Em seus primeiros passos nos estudos se aproximou de autores alquimistas, mas na universidade tornou-se estudioso das ciências naturais especialmente de química. Foi nesta época, vivendo afastado da família e mergulhado em estudos que Victor à medida que se destacava na universidade tornou-se obcecado pela investigação sobre a criação da vida. Dedica-se por quase dois anos a essa pesquisa e descobre, de modo não revelado na história, como reavivar tecidos mortos e então se empenha em um projeto quase suicida de criar um ser humano. Trabalho que lhe suga toda saúde física e mental, mas que conclui com êxito. Victor finalmente dá vida à Criatura. Porém, esta não é dotada de harmonia e beleza como ele havia imaginado e nem é uma pessoa ainda. Surge horrenda como um cadáver ambulante e só. Victor se apavora com sua criação, a rejeita e a abandona. A rejeição e o abandono, serão os primeiros sentimentos conhecido pela criatura e isso será marcante e determinante em seu destino.

A criatura some, depois de um tempo Victor decide voltar para casa de seu pai e descobre que seu irmão caçula havia sido assassinado. A pessoa culpada pelo crime é Justine, uma inocente criada e Victor logo descobre que o verdadeiro assassino é o monstro que ele criou. Mergulhado em sentimento de culpa e tristeza, Victor inicia um duelo com a criatura e com sua própria consciência. Não pode contar a todos o que realmente sabe, pois seria tido como louco e ao mesmo tempo não tem forças para enfrentar o monstro que criara. Desde a morte da mãe de Victor e as mortes de seu irmão e de Justine, a família se vê em um ciclo de desgraças e tristezas. Diante disso seu pai propõe que a família se retire para o campo por uns dias e então a família viaja. Num belo dia em que todos estavam descansando na hospedaria, Victor decide ir sozinho até o cume Montanvert e quando chega no alto vê que uma criatura gigante e horrenda o persegue, e que o encontro com seu monstro seria inevitável. 

Para a surpresa de Victor e do leitor a criatura fala e diz que quer apenas conversar e pede para que Victor o escute sua história. E aqui inicia-se as páginas mais emocionantes da narrativa. Até então a autora deixa o leitor conhecer a criatura pelo olhar egoísta e obstinado de Victor e neste momento a Criatura tem a oportunidade de se apresentar e narrar o seu lado da história, numa sequência argumentativa objetiva, lúcida e envolvente. Ao se apropriar da vantajosa capacidade de linguagem que tem os humanos, a Criatura adquire autonomia de pensar e agir.  E relata os eventos que se sucederam depois que deixou o laboratório de Victor e de como conseguiu sobreviver depois de ser rejeitado e abandonado pelo seu criador, de como aprendeu a observar a natureza e a si mesmo. Em sua busca em compreender o sentido da vida, chegou às questões inevitáveis: Que eu sou? De onde venho? Para onde vou?

Em sua trajetória em busca por respostas, conhece uma família de camponeses e lhes observa a certa distância. O cotidiano desta família inspira na Criatura desejo afeto, amor e compreensão. Porém, ao receber apenas preconceito, ódio e maus tratos das pessoas que cruzaram seu caminho, a Criatura desenvolve sentimentos de ira, revolta, inveja e ódio, nutrindo profundo sentimento de vingança contra Victor Frankenstein que o colocou no mundo e o abandonou sem lhe garantir o direito ao afeto e ao amor. E essa revolta o levou a cometer os mais perversos atos, inclusive o assassinato do irmão caçula de Victor.

Ao final da conversa a Criatura faz um comovente pedido ao seu criador, ele diz que apenas deseja uma companhia e pede para que Victor faça uma outra criatura fêmea para ser sua companheira, alguém como ele nas mesmas proporções e deformidades, alguém que possa vê-lo como semelhante e não o rejeite.

Mesmo depois de ouvir o emocionante relato, Victor não consegue perdoá-lo e sente repulsa por ele. E para se livrar da situação desastrosa que criara (ou até mesmo aliviar parte de seu sentimento de culpa).  Apesar de reconhecer sua culpa em toda essa tragédia, sendo ele o criador do monstro e de certa forma culpado pelos desastres que se sucederam desde a conclusão de seu projeto, ele não consegue lidar com as consequências de seus atos.  Mergulha num abismo profundo de depressão e amargura. Toda genialidade de seu ser é consumida aos poucos pelo duelo psicológico travado com a criatura, pois ele lhe deu a sobrevivência, mas não lhe garantiu a vida. E a criatura reivindica seu direito de viver e gozar daquilo que pode ser mais sublime no ser humano, o amor. E esse duelo entre criador e criatura, causará a morte de mais pessoas inocentes, trazendo mais tragédias para a sua família e levará Victor Frankenstein a ruína total. Obcecado e desafiado pela sua criatura, irá persegui-lo até o fim de seus dias, literalmente.


POSSÍVEIS LEITURAS E REFLEXÕES 

1) Os limites da ciência

 Alguns elementos do contexto histórico presentes nos eventos que entrelaçam a trama, dão ao romance uma contemporaneidade que foi impactante na época e ao mesmo tempo se mostra atual até os nossos dias. Como por exemplo, os sentimentos controversos causados pelo avanço das pesquisas cientificas, sobretudo a medicina. Se por um lado ficamos maravilhados com descobertas que trazem curas para nossas doenças, por outro ficamos amedrontados com avanços que estão além da nossa compreensão ou que exigem uma reflexão ética e moral, como no caso das pesquisas sobre clonagem, por exemplo. 

 Até que ponto o ser humano pode e deve interferir na “criação” da vida? Esta reflexão está presente na obra de Mary Shelley começando com o próprio subtítulo “O Prometeu moderno”, referindo-se ao mito de Prometeus que na mitologia grega roubou o fogo dos deuses e deu aos homens, sendo violentamente castigado depois.  Victor que a princípio é apenas um jovem estudante extremamente curioso, se torna um cientista obstinado e sofre as consequências de sua obstinação.

Desde a criação de vacinas, sucesso de transfusões de sangue, aos últimos avanços em pesquisas cientificas envolvendo o DNA humano e a criação de bebês com características escolhidas pelos pais, o debate sobre bioética e os limites da ciência são inesgotáveis. E já lá no séc. XIX Mary Shelley propunha essa reflexão de forma brilhante. 

"Ninguém, a não ser aqueles que já experimentaram, pode experimentar a tentação da ciência."  (Victor Frankenstein)


2) Homem versus Natureza

Esse embate está presente o tempo todo no texto, a natureza é apresentada de forma assustadora e bela, ao mesmo tempo temível e sublime, porém sempre como superior. As paisagens são descritas com minuciosos detalhes e sempre estão relacionadas com momentos de elevação da consciência dos personagens ou conforto psicológico para os mais diversos anseios da alma, ou seja, a natureza se coloca como inesgotável fonte da verdadeira cura. Se sobrepondo aos “pequenos” passos alcançados pelas recentes descobertas científicas época. 

“... como eu já tinha me acostumado à chuva, á umidade e ao frio, decidi ir sozinho até o cume do Montanvert. Lembrava-me do efeito que a vista do imponente glaciar, sempre em movimento, produzira em minha mente quando vi pela primeira vez. Eu fora tomado por um êxtase sublime, que dava asas à alma e permitia que ela levantasse voo desse mundo sombrio em direção à luz e à alegria. A visão do terrível e do majestoso na natureza, de fato, sempre tivera o efeito de elevar minha mente e fazer-me esquecer das preocupações passageiras da vida.” (Victor Frankenstein, ao decidir escalar o cume do Montanvert)


3) Liberdade 

A liberdade é posta em xeque. Afinal, somos livres? Ou a liberdade é uma ilusão que a natureza humana persegue?

“Ai! Por que os homens ostentam uma sensibilidade superior à dos animais? Isso só os torna mais necessitados. Se nossos impulsos se resumissem à fome, sede e desejo, seríamos quase livres; mas somos agora movidos por cada vento que sopre e por uma palavra casual ou uma imagem que aquela palavra possa transmitir.”

Tanto nesta como em outras passagens da narrativa, é sugerido que o conhecimento é ao mesmo tempo glória e ruína dos homens. Somos livres para pensar, porém os pensamentos podem nos trazer sentimentos que nem sempre controlamos, alegria ou tristeza não depende somente da vontade humana. As influências externas condicionam nosso estado de espírito. 

 

4) A origem do mal e a exclusão social

A maldade nasce com o ser humano ou é condicionada pelo meio social? A história coloca uma reflexão sobre a natureza da maldade no ser humano. Seria o mal parte da natureza humana, ou uma característica adquirida mediante a privação de amor e aceitação?

O que a trajetória da Criatura nos sugere é que o mal não está na gênese do coração humano, ele é desenvolvido à medida que somos expostos a sentimentos malignos, de desprezo, ódio e rancor. A Criatura usa esse argumento em sua defesa, ao expor que desde o início deseja ser aceita e amada pelos humanos. Mas a superficialidade da sociedade vigente, julga pela aparência e condena tudo o que é estranho ou fora do padrão imposto. 

O único ser que consegue ver a Criatura além de sua aparência e enxergar o amor e desejo de afeto que carrega em seu coração é justamente um cego. O velho da cabana se solidariza com sua dor, ao ouvir a criatura compartilhar seu imenso desejo de ser aceito, de receber afeto de poder dar todo amor que é capaz. Mas ao ser brutalmente rejeitada em várias situações, a Criatura desperta em seu coração ódio, ira e inveja por não ter direito ao amor que os outros têm. A partir dessa confusão de sentimentos negativos e intensos nasce o desejo de vingança que levará a cometer barbaridades em sua trajetória e a perseguir Victor Frankenstein, tornando-se uma criatura excluída, marginalizada e desprezada pelo seu criador e por todos com que tem contato. Seria então a infelicidade que torna as criaturas más? 

 De todas as questões colocadas, essa foi uma das mais tensas do livro e confesso que não tenho uma opinião conclusiva a respeito. Todavia, a argumentação da Criatura é por demais coerente, o que me despertou uma forte empatia pela sua dor. 

“Devo ser considerado o único criminoso, quando toda a humanidade pecou contra mim? Porque você não odeia Felix, que escorraçou de sua sua porta com desprezo alguém que era seu amigo? Por que você não odeia o camponês que tentou matar o salvador de seu filho? Não, esses são seres virtuosos e imaculados! Eu, o miserável e o abandonado, eu, o aborto que deve ser desprezado, expulso e maltratado. Mesmo agora me ferve o sangue, ao lembrar-me dessas injustiças.” (a Criatura)

 E aqui podemos, fazer um paralelo com nossa sociedade contemporânea e talvez compreender melhor a história de Mary Shelley. Hoje acompanhamos a luta de mulheres, negros, homossexuais, indígenas, transgêneros para poderem simplesmente existir. O número de feminicídios aumenta a cada dia, vemos as manchetes dos jornais que denunciam o genocídio contra as populações negras e indígenas, a transfobia é uma realidade latente. Como essas pessoas podem se desenvolver plenas e felizes, livres de ódio e rancores numa sociedade que as exclui, marginaliza, persegue e mata? Talvez esses questionamento nos leve a compreender por que a felicidade plena não está ao alcance de todos. Difícil ser feliz sendo excluído por ser diferente e nutrido apenas de preconceito, ódio e rancor.  A intolerância é uma motivação perigosa e muitas vezes letal. A sociedade pode até não ser a única forjadora do mal no ser humano, mas podemos ver que com uma visão medíocre do outro e falta de empatia com a dor alheia, contribui bastante para isso. 


5) A solidão, um castigo. 

 Ao ler o relato tão comovente da Criatura sobre sua necessidade de companhia, ao pedir que Victor lhe faça uma fêmea, não seria exagero dizer que podemos até nos reconhecer em sua angústia. Pois, nós humanos passamos por um processo semelhante durante nossa criação e desenvolvimento. Nascemos sem pedir para nascer, trazidos a um mundo estranho, expostos a sensações nunca sentidas e temos de interpretá-las a princípio sozinhos. Depois aprendemos a linguagem, adquirimos um idioma, começamos nossa aventura ao descobrir e desvendar a vida, o mundo e desde o princípio buscamos por afeto e companhia. A aversão à rejeição e a busca por amor e completude calcam os alicerces da nossa existência. Com exceção daqueles que apresentam alguma patologia, ninguém gosta de ser rejeitado, julgado pela aparência ou excluído. De modo geral todos nós desejamos ser aceitos em nosso círculo social e amados pelos nossos pares. Talvez tenha sido intencional, talvez não, mas o com comovente relato da criatura, Mary Shelley nos convida a fazer uma profunda reflexão acerca da essência humana, como e por que nos tornamos o que somos, e porque buscamos sempre viver em sociedade e não ao contrário. 

A desgraçada vida da Criatura, ilustra o que pode acontecer com qualquer pessoa marginalizada e condenada ao isolamento social por puro preconceito, medo ou falta de compaixão. 

A solidão torna-se para a Criatura o pior dos castigos, afinal ao se transformar num verdadeiro demônio, não encontra companhia nem na maldade. Pois não encontra ninguém que consegue chegar ao nível tão profundo de crueldade em que chegou, nem mesmo seu criador que perdera todo seu senso de humanidade, pode alcança-lo.


6) O eterno duelo entre criador e criatura.

A tentativa de chegar ao conhecimento que ninguém chegou, leva Victor às consequências mais extremas. Ele se tona melancólico, obcecado e depressivo.

Durante toda a história vemos Victor fugir da sua criação. Desde o início ele aborta sua experiência e mesmo sofrendo crises de consciência e autojulgamento ético e moral, ele não tem coragem de assumir as consequências de seus atos e foge. Mas ao mesmo tempo sabe que o confronto com sua criatura será inevitável e toda sua tormenta só terminará com a morte de um dos dois. 

Ao tentar imitar Deus, dando origem a uma vida bastarda, Victor sofre toda má sorte de amarguras, perdas e tristezas que o levam ao definhamento de toda sua vitalidade como ser humano e paga com sua vida por seu pecado.  A partir da morte, Victor deu luz a uma infeliz existência e como consequência de sua audácia, pagou com a própria vida.  

No distinto duelo entre criador e criatura, assistimos o despencar do fluxo vital nos dois. Ambos se elevam, ambos declinam. Não há vencedor, apenas ramificação de dor, tristeza e melancolia. 


OUTRAS  OBSERVAÇÕES

Leitura para reler e reler

Um clássico não se esgota em uma só leitura, por isso é um clássico. Por ser um texto que permite diferentes reflexões e cada vez mais complexas. Seja pela análise da estética literária, pela interpretação psicológica das personagens, pelo contexto histórico ou pelos debates que apresentam e que atravessam o tempo, sendo possíveis de serem desenvolvidos e ampliados em qualquer época. 

Uma história perturbadora, onde sentimentos como tristeza, dor, tédio, melancolia, ódio, inveja, vingança, são apresentados de maneira reflexiva e nada superficial. Gosto desse terror clássico, que apresenta não apenas o sombrio, o medo, o sobrenatural para assustar o leitor, mas que através de uma narrativa bem elaborada e personagens bem construídos, nos revela um possibilidade de leitura sobre nós mesmos e nosso sentimentos mais ocultos e sinistros. 

 Simplesmente amei ter lido este livro e o farei novamente em outra oportunidade. Fiquei intrigada com a obstinação pelo conhecimento que o dr. Victor Frankenstein desenvolve e gostaria de entender mais esse ponto, sob o ponto de vista da psicanálise. 

Por que algumas pessoas são extremamente curiosas desde a infância e outras não? Por que algumas querem ir além dos limites colocados e outras se contentam com o que está posto? Por que algumas conseguem oferecer afeto e ter empatia com a dor alheia e outras não?

O professor Marcos Bagno, pessoa que admiro muito, disse certa vez “A ciência não é a busca por respostas e sim por perguntas melhores”. Por que será que alguns teimam a vida inteira atrás dessas perguntas e outros aceitam qualquer resposta? 

E para finalizar, confesso que terminei o livro com uma imensa vontade de ler tudo de novo. Mas farei isso em outro momento, pois preciso de outras leituras, para poder compreender melhor esta história incrível e tentar encontrar algumas respostas possíveis ou questionamentos melhores.


Karina Guedes

@okarapoetica


Texto originalmente publicado no Recanto das Letras: 

https://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/preview.php?idt=6768816

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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

FLIM 2019 ! A FESTA DA PALAVRA VIVA!


Debates intensos, música, literatura e muita poesia. Foi intenso! Uma festa literária com as mais diversas formas de manifestações da palavra. Ancestralidade, oralidade e lugar de escuta foram chamados constantes durante as diversas mesas. Resgatar as origens da literatura, se colocar no lugar do outro, ouvir silêncios. Eis o convite posto para as muitas leituras de incontáveis narrativas. Resistência é palavra de ordem para o atual momento em que vivemos. E nesses dias de festa literária, vi a literatura resistir, insistir e acontecer. É impossível sair de um encontro desses sendo a mesma pessoa de antes. Difícil traspor em poucas palavras todas as emoções vividas, mas tentarei contar um pouco do que senti nesses dois dias que participei. 

Um dos momentos mais marcantes para mim foi a mesa literária "Lugares e Falas" com a presenta da escritora a Eliane Potiguara e por mais dois escritores incríveis, que até então eu não conhecia. Amara Moira e Marcus Groza que com suas falas provocadoras e cativantes fizeram do encontro um momento intenso de falas e escutas.

Particularmente me emocionei muito a presença da Eliane Potiguara e vou contar por quê: ela foi uma grandiosa inspiração quando comecei a descobrir lá nos idos de 2010 a recente, e até então meio desconhecida nos meios acadêmicos, literatura indígena em língua portuguesa. Naquela época participei de um Sarau das Poéticas Indígenas na Casa das Rosas em São Paulo e ali conheci pessoalmente Daniel Munduruku e Carlos Tiago e através deles descobri a literatura indígena e outros escritores como Eliane Potiguara. Foi então que decidi conhecer mais de perto essa literatura “emergente” e fazer o trabalho de conclusão de curso de letras sobre esse tema.
A princípio queria fazer a análise do livro da Eliane, mas estava muito difícil consegui um orientador na faculdade. Sempre que eu abordava um professor e expunha meu tema, recebia uma recusa. Alguns simplesmente me desestimulavam abertamente, dizendo que eu deveria dissertar sobre autores mais conhecidos, tipo Clarice Lispector e Machado de Assis. E eu dizia, “tenho todo respeito a esses escritores maravilhosos e consagrados, mas quero falar de gente viva e da literatura que está sendo criada neste momento”.  Por mais que no fundo eu não soubesse exatamente que ponto da literatura ou textualidades indígenas iria abordar, tinha certeza de que esse era o assunto que precisava ser discutido num curso de letras. E queria muito trazer essa expressão literária para minha realidade de estudante e futura professora. Mas foi bem difícil, os professores simplesmente não me davam ouvidos. Até que um belo dia, conversando com a querida  professora de literatura infantojuvenil e explicando minhas descobertas, ela perguntou se não tinha nenhum autor “desses indígenas” que tinha escrito livro para criança. Na hora me lembrei do primeiro livro do Daniel Munduruku que li e disse que sim. Então, a professora disse que talvez pudesse ser minha orientadora, apesar de não saber nada sobre esse tema. Aceitei esse talvez como um sim e comecei o meu trabalho. 
Não pode ser com o livro da Eliane como eu havia pensado inicialmente, mas pode ser com o do Daniel e foi maravilhoso também. Porque acabei abrindo a mente para a ideia de que a literatura indígena pode e deve compor a gênese literária na formação de pequenos leitores, dissertei sobre isso no TCC (que pode ser lido aqui).  E foi muito bom trilhar esse caminho. 

Portanto, a presença da Eliane ali na frente, e mais que isso suas palavras carregadas de ancestralidade, sabedoria e resistência, me lembram do quanto valeu a pena insistir em continuar buscando e conhecendo autores indígenas e ter feito o TCC sobre esse tema. Foi marcante e fundamental para minha formação e primeiros passos como professora. A literatura étnica precisa e deve estar presente não só nos currículos, mas em nossas práticas e vivências diárias em sala de aula. Mais do que instrumento de letramento, é alimento para a elevação da consciência de quem nasce em um país tão diverso culturalmente e tão plural como o nosso Brasil.

Uma mesa carregada de sabedorias

Quando a apresentadora Adriana Couto perguntou como a palavra chegara a cada um dos autores ali presentes, Eliane contou que para ela a palavra chegou com o olhar. Voltado para as histórias de suas avós, tias e mulheres de sua comunidade. Histórias que precisavam ser escritas e contadas.
O que faz muito sentido, pois a literatura começa na tradição oral. Ou seja, a palavra vem de dentro de nós e ter um olhar para essas narrativas que resgatam nossa ancestralidade, é ver a “voz do oprimido que as sai pelas unhas”, grito que emana das entranhas do ser para se fazer conhecer e ser visível. A fala que habita nosso território mais íntimo, apenas procura um espaço onde possa se manifestar livremente. Porque lugar ela já tem, que é dentro de cada um de nós. 

Ser protagonista da própria história, ser escritor e personagem da narrativa que vivemos, faz com que a literatura seja também um lugar ativo. Através de nossas narrativas, denunciamos as injustiças do mundo, compartilhamos nossas dores e nossos devaneios, e ativamos no leitor a empatia e a sensação de não estar só. A literatura ativista, torna-se então um lugar de falas que se encontram, fazem coro e gritam: resistência! A palavra que habita em nós faz da vida palco e dramatizamos cotidianamente a literatura que inventamos para nosso ser.  Seja ao som do despertador que acorda o corpo ou dos tambores que despertam a alma, vivemos a cada amanhecer um capítulo de nossa luta. E haja vida! Pois, sempre haverá história para contar! E onde houver opressão, haverá resistência!


O fim da tarde de sábado.

A última mesa do dia, "Fé na Palavra",  foi com dois escritores que eu ainda não pude ler, mas já estão na minha lista. Ainda mais agora, depois de ouvi-los e sentir o reverberar de suas palavras em ressonâncias com minhas inquietações, Maria Valeria Resende e Ronaldo Correia de Brito. A missionária e o médico, a fé e a cura tecendo caminhos para a libertação da palavra. No princípio foi o verbo e no fim, o que será?
A linguagem articulada, a fabulação, o poder de dizer o indizível nos torna humanos e a literatura nos faz ainda mais humanos, disse Maria Valéria. Demasiadamente comunicativos, pensantes, viventes. Filosofamos a dor e o amor, e a palavra registra os caminhos que na aventura chamada evolução. Se antes imprimíamos nossos devaneios em paredes lambuzadas de terra, cuspe e suor, hoje carimbamos a polpa das árvores encadernadas em folhas de diferentes gramaturas que carregam na leveza de linhas sem pautas, o peso de nossas falas gritadas de nossos silêncios. E haja escuta!

Ouvir é letramento. Aprendemos o mundo através das narrativas que escutamos com desejo e amor. Sábio é quem escuta, generoso é o que compartilha sua fala íntima com o intuito de se encontrar com o silêncio do outro. A leitura é viagem e encontro. Nas impressões marcadas, nas pistas deixadas, nas verdades camufladas nas entrelinhas, encontramos muitas vezes verdadeiros emplastos para nossas dores. É a medicina do verbo que vem curar a alma de corpos que jazem na labuta cotidiana. Olhar, ouvir e tocar eis a fórmula prescrita para quem precisa ir além do sobreviver. Olhar para o outro e ver-se a si mesmo enquanto um ser de potência mais ampla. Ouvir nossas vozes mais íntimas e aprender a escutar o próximo que nos chama. Tocar a empatia de quem está do outro lado e reverberar a crença de que podemos juntos atingir um ideal mais elevado. Literatura é também fermento que eleva a consciência da massa, ela só precisa estar no pão nosso de cada dia. Amém!


Outro momento marcante foi o encerramento no domingo

Começando pela apresentação do grupo de Jongo Mistura da Raça que foi linda! Tambores intensos evocando nossa poética para as escutas que vieram a seguir. A homenagem ao Mestre Laudeni foi emocionante, pois nem todos os mestres têm a chance de serem reconhecidos em vida. O canto, a dança e o caxambu, chamados que trazem toda a nossa ancestralidade a pulsar no peito. Dos tambores de África aos lamentos do parto e nascimento do Brasil, tudo é grito, dor, resistência e amor. Escutamos e sentimos, escutamos e nos encontramos em tu que também sou eu, e que se permitirmos podemos ser nós. Desatados e livres das correntes que tentam até os dias de hoje aprisionar nossa alma.

Depois dessa abertura, desse chamado e evocação, Mia Couto nos presenteou com sua presença, de corpo, palavra e alma. Um dedo de prosa tão gostoso que o tempo fluiu sem que nos déssemos conta, como toda boa prosa é capaz de fazer. Trouxe contigo sua simpatia, carinho e amor por nossa gente. Foi como encontrar um irmão que mora longe e chega de viagem nos contando sobre seu mundo, seus caminhos e suas dores que em muito se parecem com as nossas. Nos encontramos na dor e também no amor. Pois, todo sentimento de afeto é recíproco. Em certo momento da conversa ele disse: “As nuvens escuras que assombram o Brasil, nos preocupam em Moçambique”. Sua compaixão nos toca profundamente e a plateia de leitores e curiosos, aplaudiram fervorosamente. 

Neste momento me lembrei das palavras da produtora, “vocês vieram para ouvi-lo”, quando dava explicações ao público sobre o cancelamento da sessão de autógrafos. Sim, ali recolhida no lugar de escuta absorvi com cada palavra que emanava daquele ser que vinha nos prestigiar com sua presença, intensa, sincera e muito acolhedora. Uma presença luminosa, de estrela mesmo. De todas as falas com que Mia nos acolheu, duas me tocaram profundamente. 

A primeira foi quando contou um pouco sobre sua infância e sobre a origem de suas palavras, que vieram de seu silêncio. Isso bateu forte porque levei alguns anos da minha vida para descobrir esse lugar, o lugar do silêncio. Quando cheguei neste lugar sagrado, foi como se tivesse descoberto o maior paraíso dos mundos. Mas infelizmente não é fácil permanecer neste lugar, a labuta cotidiana confisca meu visto de tempos em tempos e preciso sempre o requerer novamente para voltar a este lugar onde posso escutar minhas vozes, me afastar dos gritos que me cercam e tentar compreender os sussurros dos que me amam.

Outro momento de intensidade desse encontro foi quando Mia comentou sobre sua relação entre o trabalho como biólogo e escritor. Ele disse que ser biólogo de certa forma o ajuda a “compreender as linguagens dos outros seres”. Neste momento lágrimas rolaram pelo meu rosto. Porque tenho uma profunda paixão pelos seres de fauna e flora, principalmente as árvores. Seres que venho tentando aprender sua linguagem e me apaixonando por eles cada vez mais. Tem dias que me sinto pássaro e quero sair por aí voando e descobrindo, mas na maior parte dos dias, me sinto árvore e quero ficar e sentir a profundeza do existir.

E claro que não posso deixar de mencionar que ao expressar  sua posição em relação a governos totalitários e sua repulsa a ditadura, Mia Couto fez coro com centenas de vozes que estavam ali, não só porque são leitores e apreciadores literários, mas porque sabem que produzir e defender a expressão literária será um dos grandes desafios deste momento trágico de retrocesso histórico que enfrentamos no Brasil. O escritor, o livro, a poesia são as primeiras ameaças aos chicotes de governos antidemocráticos. Porque é através da literatura que as ideias se manifestam, se proliferam e cavam as asas da liberdade nas costas do oprimido. Aliás liberdade foi a palavra que Mia escolheu para preencher o caderno que todos os escritores das mesas foram convidados a escrever durante toda a Flim. Palavra que dispensa explicação, pois em nossos silêncios compreendermos aquele grito.

Quando pensávamos que era o fim, veio a surpresa. Comovido pelo calor brasileiro (acho), o autor quis receber o público. Num gesto de generosidade e carinho, recebeu e autografou os livros de mais de 200 pessoas que esperaram para poder levar para casa um pedaço de papel com um rabisco de tinta feito pelo escritor.

Enquanto estava na fila observando as pessoas, eu me questionava por que ainda estava ali. O encontro já tinha sido intenso, flamejante, perfeito, o que mais eu buscava? Por que não estava satisfeita ainda? Ao mesmo tempo que me sentia meio ridícula, não conseguia conter o desejo de chegar um pouco mais perto do escritor que tanto admiro. Entrei na sala meio sem jeito e toda estabanada, deixando as coisas caírem no chão de ansiedade, mas de repente quando Mia Couto olho-me nos olhos e disse: olá! O tempo parou e ali naquele momento entendi por que eu quis tanto estar ali tão perto. Era para poder olhar nos olhos daquele que escreveu as palavras que tocaram minha alma desde a primeira leitura. E na transparência e compaixão daquele olhar tudo foi explicado, tudo foi entendido. A única coisa que consegui dizer foi: obrigada por transpor o teu silêncio!

E tudo isso durou poucos segundos que para mim serão eternos, pois cada vez que abrir o livro para lê-lo me lembrarei daquele olhar e será como se estivéssemos de frente um ao outro começando um bom dedo de prosa.

Enfim, esse foi um resumo de dois dias de Flim que pude participar, claro que muitas outras coisas aconteceram e tem mais escritores que quero comentar. Farei isso aos poucos.
A-ho!











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